Nos EUA, o racismo está à mesa e em campanha

EUA · 12/03/2008 - 10h24 - 167 Comentários

Os ventos da campanha norte-americana parecem ter virado de um dia para o outro – e não foi por conta da vitória acachapante (porém esperada) de Barack Obama no Mississippi. A questão do racismo voltou à tona.

A responsável é Geraldine Ferraro, uma democrata histórica, importante, candidata a vice-presidente na chapa encabeçada por Walter Mondale e derrotada, em 1984, por Ronald Reagan. Ferraro, que apóia Clinton, vem batendo na tecla de que Obama só está onde está nas pesquisas porque é negro. Ontem, argumentou na tevê que só estão a chamando de racista porque ela é branca.

A campanha de Obama cobrou da campanha de Clinton que afaste a senhora Ferraro do comitê financeiro, onde ocupa um cargo simbólico. Cobrou que renegasse publicamente os comentários que explicitamente incitam a polarização racial na eleição. Mrs. Ferraro não foi afastada, tampouco a equipe de Clinton renego suas falas.

Por duas vezes nas últimas semanas, cobrou-se de Obama posições equivalentes. Na primeira, durante um debate, Hillary questionou o fato de Obama não rejeitar o apoio do ministro Louis Farrakhan, líder da Nação do Islã, um grupo religioso negro norte-americano de discurso racista. Obama não titubeou e o rejeitou. Na segunda vez, semana passada, após uma de uma de suas principais assessoras chamar Hillary de ‘monstro’, a campanha adversária pediu-lhe a cabeça numa bandeja. Foi devidamente entregue.

Campanhas são cruéis, muitas vezes. Hillary se recusou a tomar posição a respeito dos comentários que vêm sendo caracterizados de racistas. É só do que se fala na imprensa, incluindo tevê, internet e impressos. Não é pouco, dado que também está no cardápio noticioso uma história que envolve sexo, prostitutas e o governador de Nova York – assunto que ouriça meus companheiros de profissão norte-americanos.

Campanhas são cruéis mas também pragmáticas, embora muitas vezes flertem com desvios éticos. A imprensa está convencida de que os comentários de Ferraro são racistas mas isto não quer dizer que o público não concorde com eles. Na Pensilvânia, que o estado mais importante por sobrar, há uma razoável quantidade de negros mas também um histórico de racismo entre brancos. Racismo, ainda que indireto, pode contar pontos.

Ou pode não. Quando Bill Clinton esboçou um comentário racista, veio na seqüência uma vitória violenta de Obama na Carolina do Sul. Lá, os negros votaram em massa para ele. Os brancos, também.

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