O pesadelo democrata está começando

EUA · 11/03/2008 - 09h35 - 113 Comentários

O discurso oficial é de que ninguém está preocupado. Mas, no Partido Democrata, está todo mundo preocupado com a indefinição do candidato. Por vários motivos.

No sábado, Barack Obama venceu o pequeno caucus do Wyoming por larga vantagem. Hoje, deve vencer as primárias do Mississipi com folga equivalente. As vitórias de Hillary Clinton nos estados grandes de Ohio e Texas não alteraram sua liderança. Na verdade, quem faz as contas incluindo os superdelegados que anunciaram ou retiraram seus apoios descobre que, dos últimos sete dias, Obama saiu com uma vantagem líquida de 15 votos na Convenção Nacional contra Hillary.

Ainda assim, foi uma semana péssima: ele está perdendo a partida da imagem. Os pudores que a campanha de Hillary Clinton tinha de bater se perderam. Primeiro, com o argumento de que ele não tem experiência para governar. Foi um passo além: disse que sua inexperiência é tanta que John McCain é preferível a Obama. Agora, em seus discursos, Hillary questiona o adversário eticamente. Diz que ele tem duas caras, que fala uma coisa para os eleitores mas, na hora de votar, faz o inverso.

Tanto Ohio quanto Texas são mostras de que a tática funciona. Hillary estancou as perdas que vinha sofrendo, lá. E aí vão as preocupações dos democratas:

1. Por conta das vitórias de Hillary, o quadro seguirá indefinido por um bom tempo. Hillary é favorita nas grandes primárias da Pensilvânia, em 22 de abril, e Obama é o favorito nas de Indiana e Carolina do Norte, em 6 de maio. Qualquer vantagem que ela tire da Pensilvânia, perde uma semana depois. Mas, a não ser que Obama vire na Pensilvânia, o quadro permanecerá este até o fim. Depois da Carolina do Norte, não haverá mais nenhum estado médio ou grande para disputar. O jogo terminará empatado, com uma ligeira vantagem para Obama. Enquanto isso, John McCain faz com calma seu jogo político de consolidação da base republicana.

2. Enquanto a campanha corre, Hillary e Obama seguem arrecadando fortunas em contribuições de campanha, batendo recorde atrás de recorde. Arrecadações neste nível são típicas dos republicanos, então o discurso oficial é de que a notícia é boa, de que a base democrata está engajada, animada. Mas a notícia não é boa. Não basta eleger o presidente, é preciso também fazer maioria na Câmara e no Senado. Enquanto a disputa pela candidatura presidencial está aberta, candidatos a senador e, principalmente, a deputado, não conseguem fazer campanha. Ninguém presta atenção neles. E, pior, as doações para as campanhas presidenciais estão drenando as doações que, nesta época do ano, são os candidatos proporcionais que recebem. A continuidade da disputa Obama, Hillary, atrapalha a campanha.

3. Flórida e Michigan foram os estados que, quebrando as regras do partido, anteciparam suas primárias. A punição foi que perderam o direito de apresentar delegados. Nenhum dos candidatos fez campanha em ambos, no caso de Michigan o nome de Obama sequer constava na cédula. Mas, agora que cada delegado conta, está todo mundo de olho. É preciso refazer estas disputas. O problema é que uma primária é muito caro de organizar. Alguns sugerem caucus, especialidade de Obama; a campanha de Hillary é contra. Outros sugerem que o resultado oficial seja respeitado. Além de tirar toda a moral do Partido Democrata, é a campanha de Obama que é contra – na ausência de campanha, Hillary tinha o nome mais conhecido naquele distante janeiro e venceu. Também existe a sugestão de voto pelo correio. O partido envia cédulas para os eleitores inscritos que as depositam de volta. O medo é de que muitos sequer recebam as cédulas. É um pesadelo, a briga interna já começou, alguém terá que resolver.

4. Os ataques de Hillary contra Obama podem funcionar agora mas, se o senador terminar candidato, voltarão como pesadelo democrata. John McCain poderá mostrar na televisão que ele é o melhor candidato e que quem disse isso foi Hillary. É mais do que isso. Obama é o desconhecido, é preciso experiência para descobrir o que afeta sua imagem e o que não. Hillary está testando todas as possibilidades e, essencialmente, fazendo todos os ensaios que os republicanos precisariam realizar. Por outro lado, ela também está testando a segurança do candidato Barack Obama. Ele não pode ser tão frágil que ceda nas primeiras pancadas, como vem demonstrando. É preciso manter a compostura. Talvez, agora, Hillary esteja impondo a Obama os testes que ele próprio precisa fazer antes de enfrentar a briga de verdade.

5. Por fim, há uma questão de caráter em jogo. Talvez a única maneira de enfrentar Hillary seja atacá-la de fato. Nos vazamentos para a imprensa, isto já tem ocorrido. Mas não na propaganda de televisão. Ela tem um gigantesco telhado de vidro. E, pior, se Obama recorrer aos ataques que John McCain fará, ele terminará por ferir gravemente a imagem de Bill Clinton e de sua presidência. A questão é a lista de doadores de Clinton, o ex-presidente, que passou o chapéu para construir sua biblioteca. As bibliotecas presidenciais são uma tradição norte-americana, um lugar para depositar os documentos pessoais deixados pelos presidentes. São construções caríssimas e, para angariar fundos, há uma troca de favores: perdões judiciais, favorecimento, o pior lado de cada governo. Com a lista de quem doou o que para Clinton, será possível descobrir quanto custou politicamente cada milhão de dólares. A questão é ainda mais delicada porque Hillary tem posto dinheiro do próprio bolso em sua campanha. E ela vem se recusando a apresentar suas declarações de imposto de renda. Quem financia os Clinton? No partido, ninguém quer uma campanha negativa que termine por mostrar que seu último presidente foi corrupto. Mas, ao que parece, é onde vai terminar.

O discurso oficial é de que a democracia está em jogo. Mas o Partido Democrata está odiando cada segundo. E todos assistem estupefatos às ações de Hillary. Há um quê de suicida, nelas. Como se não medisse as conseqüências, ou simplesmente não se importasse com elas. Tudo vale para garantir a vitória. Até a memória do governo de seu marido.

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