Uma aula sobre América Latina
num site gramsciano

América Latina · História · 10/03/2008 - 13h30 - 252 Comentários

O site Gramsci e o Brasil apresenta uma batelada de entrevistas feitas por Mauro Malin com Antonio Carlos Peixoto, professor da Uerj e responsável pelas relações exteriores do atual governo do estado do Rio. São, todas, aulas a respeito da política latino-americana. Uma, detalhadíssima, sobre como a Colômbia chegou aqui. Outra sobre os muitos fenômenos locais diferentes que alguns analistas chamam de ‘virada à esquerda do continente‘. É tudo coisa inteligente, que ninguém espere um estereótipo. Trecho, sobre o Peru e o Sendero Luminoso:

O caso talvez mais complexo, e de análise mais difícil, é o peruano. Os movimentos indigenistas peruanos são mais fracos que os congêneres boliviano e equatoriano. A minha hipótese é que o que poderia ter se transformado em fortes movimentos indigenistas foi bloqueado, no caso peruano, pelo fato de a guerrilha do Sendero Luminoso ter se desenvolvido no Altiplano durante mais de dez anos. Mas a base de recrutamento deles não vinha das comunidades indígenas. Muita gente confunde as coisas: ‘O Sendero Luminoso era uma guerrilha dos camponeses indígenas’. Mentira. Nunca foi. A base de recrutamento do Sendero Luminoso era aquilo que se pode chamar as baixas classes médias das cidades do Altiplano. É o mestiço, o cholo, às vezes era até puro índio, mas não morava em comunidade nem tinha nada a ver com camponês. Não sabia distinguir uma batata da outra — lá existem trinta tipos de batata, uma confusão de batata que ninguém entende. Era o sujeito que, digamos, terminava o curso secundário em algum colégio, normalmente público, da cidade do Altiplano. O que ele ia fazer da vida? Ou até o que terminava um curso superior numa faculdade qualquer, privada ou até pública, do Altiplano. O que ele ia fazer com aquilo? Não tinha o que fazer. Era essa gente, cujos pais eram pequenos funcionários públicos, que tinham um salário muito baixo. Essa gente tinha expectativa de entrar num emprego público, se os cabos eleitorais se afinassem com as elites políticas locais: ‘Arruma um empreguinho aí para o meu filho, para ele não morrer de fome’. Era por aí.

As comunidades indígenas do Altiplano foram massacradas pelo Sendero Luminoso. Uma história parecida com a de Pol Pot no Kmer Vermelho [movimento comunista do Camboja, nos anos 70]. Ele queria as comunidades para lhe dar apoio logístico. A melhor maneira de fazer isso era chegar numa comunidade e matar trinta indivíduos. Para que os outros tivessem ‘juízo’ e obedecessem lá às consignas dele. Foi assim que funcionou. O Sendero Luminoso nunca teve nada a ver com o campesinato das comunidades agrícolas indígenas do Altiplano. Ele aterrorizava. O segundo fator de bloqueio foi o Exército. Porque o Exército queria tirar o apoio logístico do Sendero Luminoso e pressionava as comunidades indígenas. Resultado: nos anos 80, quando as comunidades indígenas bolivianas e equatorianas floresceram, as do Peru estavam duplamente comprimidas.

O inspirador do site, Antonio Gramsci, foi fundador do Partido Comunista Italiano, passou anos na prisão durante o período do fascismo, e é um dos pensadores marxistas que combateu os radicais do seu lado, durante o século 20. Alguns dos leitores lembram seu nome por conta das coisas que Olavo de Carvalho costuma escrever e falar. É uma pena – o Olavo gosta dum estereótipo; se não estiver fundamentado em fatos, melhor ainda. Para uma boa introdução a Gramsci, nada como ler Otto Maria Carpeaux.

A escolha, evidentemente, é proposital. Assim como Paulo Francis, o Olavo gosta de citar Carpeaux. Fica até parecendo que Francis, como Carpeaux, eram homens não apenas de direita como radicais. Nada pode estar mais distante da verdade.

Atualização – O leitor peruano Yván Túpac Valdivia discorda da leitura do professor Antonio Carlos Peixoto e se manifesta nos comentários.

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