Dom João VI chega à nova capital

Brasil · História · 7/03/2008 - 00h01 - 114 Comentários

No dia 7 de março de 1808, naus portuguesas e inglesas romperam a barra da baía da Guanabara trazendo a bordo dona Maria a louca, rainha de Portugal, seu filho regente dom João, seus netos meninos Pedro e Miguel, além de uma corte vasta.

De uma hora para a outra, o Rio de Janeiro virou capital de um Império que se estendia por todo o mundo.

Não é meu hábito recomendar a leitura do jornal no qual trabalho, ainda mais quando estou envolvido. Mas na edição de hoje do Estado de São Paulo sai um caderno celebrando estes 200 anos. Ele não está apenas bonito. Está também sólido – me deu prazer de ler nestes últimos dias profundamente atribulados. Da descrição de como foi a viagem a artigos com uma biografia pelos olhos portugueses e outra pelos brasileiros de dom João. A culinária brasileira que nasceu deste encontro entre colônia e reino, um ensaio sobre o amadurecimento de Debret, o francês que veio com a corte, como artista na estada brasileira, o retrato do Brasil miúdo que os europeus encontram. Principalmente as deliciosas histórias dos descendentes daqueles que vieram dar nestas paragens. Essa gente vai do suburbano ao diplomata, todos tipicamente brasileiros. É leitura para guardar para o fim de semana e ser estendida nos vários livros que estão para vir.

Já que é coisa nossa, às vezes não damos atenção para aquele momento do surrealismo histórico. Mas jamais houve de um império europeu mudar sua capital para a colônia cá neste novo mundo. O hesitante dom João, que mal controlava a mulher, foi – de coxa de galinha em punho – o mais genial dos estrategistas acidentais.

(E nada contra as coxas de galinha, são meu salgado favorito. Na Padaria Ipanema servem uma – chamam-na beija mel – que é minha favorita; já me disseram que, aqui em São Paulo, a do Frangó é imbatível. Por ver.)

O Império Espanhol não conseguiu manter sua colônia intacta. Espatifou-se no período napoleônico e imediatamente depois em várias repúblicas que até hoje mal se ajeitam. No Brasil, dom João VI fez muito mais do que manter a unidade nacional. Como a independência era inevitável, fez de seu filho imperador numa incrível monarquia americana. O tamanho do impacto causado por aquela visita começada hoje faz dois séculos é impossível de medir.

Histórico é um adjetivo abusado. Mas neste dia há exatos dois séculos o Brasil que somos hoje foi decidido.

Atualização – Já está na web, no site do Estadão. O artigos que aparecem na versão impressa estão na aba ‘Análise’.

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