Texas e Ohio são de Hillary Clinton!
(Mas, agora, o que se faz?)

EUA · 5/03/2008 - 08h39 - 51 Comentários

John McCain teve a noite dos seus sonhos. Ontem, além do salvo-conduto para tocar a campanha presidencial em paz – ele é oficialmente o candidato – verá seus adversários democratas se engalfinhando pelas próximas sete semanas em três prévias: Wyoming, no dia 8, Mississippi, no dia 11, e a realmente importante, Pensilvânia, no dia 22 de abril.

Há duas maneiras de interpretar os resultados de ontem. Uma é que Barack Obama sai com a mesma vantagem no número de delegados que entrou – se não tiver ganho uns poucos mais. Os caucus do Texas devem ser vencidos por ele e umas regras um bocado complicadas no estado devem deixá-lo com um naco maior. A outra maneira de ver é que, de quatro estados, Hillary venceu três, incluindo os dois grandes e importantes, Ohio e Texas.

O que as pesquisas apontam em ambos os estados é que Obama vinha fechando a diferença com Hillary e, de domingo para cá, a ex-primeira-dama voltou a crescer. O que houve nos últimos dias?

Três coisas.

A primeira foi a interferência canadense. Obama disse ao eleitorado de Ohio que era contra o Nafta; seu principal assessor econômico disse a diplomatas canadenses que era conversa de campanha, que não se preocupassem. O memorando, propositalmente ou não, vazou. A campanha de Obama inicialmente negou que a conversa havia existido. Depois, que o memorando não era de todo fiel ao que fora dito. Meteram os pés pelas mãos. Ele sempre esteve sujeito a seus erros. Cometeu um sério justamente com a questão mais cara ao eleitorado de Ohio. Não deixa de ser irônico: foi o marido de Hillary quem assinou o Nafta, tão impopular no estado.

A segunda foi o comercial do telefone, exibido no Texas. Quem é o melhor preparado para responder a crises nacionais? O argumento de Obama é que, quando teve a oportunidade de responder a uma crise, Hillary votou a favor da guerra contra o Iraque. Ele, Obama, sempre foi contra. Argumentos racionais adiantam de pouco perante reações emocionais. Os eleitores sentem que Hillary é mais durona e experiente. O que ele evoca é esperança. A campanha de Obama reagiu rápido, mas parece não ter convencido o eleitor neste ponto. Foi a diferença que Hillary precisava.

Por fim há Tony Rezko. O investidor do mercado imobiliário de Illinois, estado de Obama, começou a ser julgado esta semana por tráfico de influência e corrupção. Todos os políticos democratas do estado estão ligados a ele de uma forma ou de outra e Obama não é exceção. Rezko, em outras campanhas, levantou fundos para Obama. E, para piorar uma situação já desconfortável, Obama e a mulher de Rezko compraram no mesmo dia, na mesma quadra, duas mansões vizinhas. Obama pagou abaixo do preço de mercado. E a mulher de Rezko ainda vendeu parte de seu terreno para o vizinho senador.

Não há rigorosamente nenhuma sugestão de que o negócio tenha sido ilegal e, em todas as acusações contra Rezko apresentadas na Justiça, nenhuma envolve Obama. Hillary começou a última semana, no entanto, reclamando que ela agüenta a pancada da imprensa enquanto Obama seguia imune. A cobertura negativa começou. Seu passado está sendo apresentado também em suas facetas mais sinistras. E os Clinton não vão permitir que ele ganhe a guerra sem muita luta.

Continua matematicamente muito difícil para Hillary vencer. A diferença de votos que ele precisava angariar na votação por cédula no Texas para empatar o jogo era muito maior do que os 2% que – parece agora – terminou sendo. Os democratas terão que refazer as prévias da Flórida e Michigan porque aqueles delegados precisarão ser distribuídos de alguma forma. (Desafiando as regras nacionais do partido, os estados anteciparam suas prévias para fevereiro; como punição, a liderança nacional determinou que perderiam o direito de apresentar delegados na Convenção. Nenhum dos candidatos fez campanha lá, o nome de Obama sequer constava na cédula na Flórida.)

Em 1984, as prévias democratas foram também apertadas assim. O veterano senador Walter Mondale e o novato Gary Hart disputaram por meses, até que Mondale lançou o anúncio do telefone. Exatamente o mesmo anúncio que Hillary usou agora. O tom apelativo de, na crise, ‘quem você quer atendendo este telefone?’, é um clichê eleitoral norte-americano. A experiência decidiu a candidatura naquele ano. Mondale era o veterano, afinal.

Seu problema é que, depois de convencer os eleitores de que segurança era a questão mais importante da eleição, Mondale teve de enfrentar Ronald Reagan que concorria à reeleição. E, se segurança era importante, dados Mondale e Reagan, ficaram com Reagan. É o risco que Hillary corre. Pode convencer os eleitores de que segurança é um assunto primordial e que, perante Obama, melhor que seja Hillary. Mas aí, à frente, terá que enfrentar John McCain, um herói de guerra.

McCain tem dois pontos fracos. O principal é que é republicano e o atual presidente, George W. Bush, é do mesmo partido e tem aprovação nacional de 19%. O segundo é que não entende nada de economia num ano com riscos de recessão.

É evidente que, em 2008, é mais fácil vencer um republicano do que era vencer Reagan, em 1984. Mas Hillary está flertando com o perigo.

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