Entrevista: Fernando Gabeira

Brasil · 4/03/2008 - 08h20 - 89 Comentários

Conversei ontem, por telefone, com o deputado Fernando Gabeira a respeito de seus planos de campanha para a prefeitura do Rio de Janeiro. Muitos de vocês haviam apresentado perguntas. Para ao menos algumas delas, cá estão as respostas.

A candidatura é oficial?

Já estávamos constituindo uma frente em busca de um nome que unificasse os três partidos, PV, PPS e PSDB. Não foi possível encontrar outro nome além do meu para promover esta união. Por conta de minha trajetória pessoal não posso fazer uma campanha como as outras. Tenho algumas condições. Eu as apresentei aos partidos e eles terão que tomar uma decisão. Vamos nos reunir na terça-feira que vem (dia 11) quando dirão se concordam.

Quais são as condições?

A primeira é que, se chegarmos ao governo, não haverá ocupação partidária da máquina. A equipe será formada por nomes competentes da sociedade e os melhores do funcionalismo público municipal. Se algum membro de partido participar do governo será por sua competência específica.

A segunda é fazermos uma campanha transparente. Publicaremos na Internet todas nossas contas e vamos auditá-las permanentemente. A rede permitirá que façamos uma campanha para prefeitura que vai além das fronteiras da cidade, trazendo a participação também dos cariocas de coração que vivem fora. É importante atrairmos esta simpatia nacional e internacional que já existe em torno do Rio.

A terceira é que seja uma campanha limpa. Não adianta querermos educar a sociedade para que mude a postura perante cidade se estamos sujando a mesma cidade para convencê-la. Não vamos pendurar galhardetes nos postes, cartazes nos muros, não vamos panfletar e deixar aquela papelada jogada na rua. A idéia é respeitar os procedimentos ambientais e os do Tribunal Eleitoral. É limpa também no sentido de que não vamos atacar os adversários. Queremos construir a idéia de uma frente ampla de salvação municipal e a idéia é que, no futuro, todos possam dar sua contribuição. Estamos todos no mesmo barco.

O programa tem elementos de crescimento econômico, contribuição com o governo estadual na segurança pública, contenção da desordem urbana com uma combinação de medidas pedagógicas e punitivas, e resolução da emergência na saúde. Economia, segurança e saúde.

É possível se eleger sem o jogo fisiológico?

Se eleger, é. A pergunta mais complexa é se é possível governar sem o jogo fisiológico. Se continuamos o jogo fisiológico, não conseguiremos alterar a cultura política da cidade. É possível construir uma relação com os vereadores dizendo ‘olha, não vou dar dinheiro, mas estamos estruturando programas territoriais e em alguns deles você está incluído. Você cresce como vereador.’ Vamos tentar oferecer a eles uma maneira de não dependerem tanto mais do executivo, de terem uma atividade política independente, mais influente, reconhecida e eficaz na comunidade.

Um trabalho de educação até dos vereadores?

É lógico.

O que um prefeito consegue fazer?

Dados os recursos da prefeitura, a administração sozinha não consegue resolver o problema do crescimento econômico. Em Nova York, esse processo é terceirizado. Agências particulares em cada região encaminham o projeto de crescimento local. Vejamos o caso da região do Porto e do Centro da Cidade. É possível trazer a iniciativa privada para agenciar o processo de revitalização da área.

E a questão da violência?

No Brasil, segurança não cabe à prefeitura. Mas ela pode agir como uma máquina que auxilie o governo do Estado. A prefeitura pode monitorar mais a cidade com câmeras, com mapas, ajudar no aumento de peso dos sistemas de inteligência. Teríamos que agir no aspecto pedagógico. Em Nova York, por exemplo, antes da revitalização havia muitos assaltos no metrô. Foi preciso trazer mais polícia para reprimir mas, num primeiro momento, houve um trabalho educativo. São campanhas, mesmo, para explicar que uma senhora idosa com a bolsa sentada próxima à porta do vagão estará mais sujeita a assalto. Precisamos explicar às pessoas como elas devem se proteger e evitar situações de risco. Vários países vivem com violência e um nível de preparação da população para a violência maior. Israel, por exemplo. Precisamos reconhecer, também, que o Rio é uma cidade na qual o tráfico de drogas tem controle sobre parte do território. Os governos federal, o estadual e o municipal têm que enfrentar esta situação. Para trazer tranqüilidade à população, além de crescimento econômico, é preciso liberar essas áreas como foi feito no Haiti até certo ponto. Mas, no Haiti, vimos um limite. Você consegue pacificar, consegue tranqüilizar a população, mas, sem dinamismo econômico, sem mais empregos, ficaremos sempre sujeitos a que o problema volte.

Seus adversários certamente trarão a questão da legalização e do uso passado de maconha contra o senhor.

Provavelmente usarão. Mas este debate, em termos municipais, é inócuo. Não é o município que decidirá a legalização ou não. E tanto as pessoas que defendem a legalização quanto as que defendem a repressão podem achar uma ponte. E qual é essa ponte? É a melhoria da polícia, transformar a polícia em algo mais eficaz e mais honesto.

Digamos que o senhor seja eleito. Em quatro anos, deixa a prefeitura. Se tudo tiver dado certo, em que o Rio fica diferente?

É o mesmo tipo de diferença que encontramos em cidades que se recuperaram recentemente, como Bogotá. Primeiro, você recupera a vitalidade econômica. Recupera a auto-estima da cidade. E você estimula um comportamento mais construtivo que vai facilitar a administração futura.

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