Israel e Palestina: a vitória da insensatez

Blogs · Islã · Israel e Palestina · Judaísmo · 3/03/2008 - 18h35 - 169 Comentários

A atual política de Israel é um desastre. A promoção de uma carnificina na Palestina – sem esquecer a do Líbano – é uma tragédia humana. É também estúpido. Israel nasceu como a esperança de vida após uma das maiores tragédias da história humana. É uma esperança que o governo da coligação Kadima e Partido Trabalhista, hoje no poder, trai por incompetência, insensibilidade e a mais pura estupidez. Os facínoras estão no comando. Saudades de Yithzak Rabin.

O debate está ficando difícil. Na semana passada, meu amigo Marcos Guterman – que sempre argumentou pela linha da esquerda pacifista israelense – pediu o boné. Perdeu a graça para ele fazer o blog. Entre pessoas que defendem a causa palestina sempre há um jeito de os bons e velhos anti-semitas se misturarem. E raramente são condenados.

Não tenho qualquer pretensão – e jamais tive – de isenção nesta história. Laços de sangue e amizade me aproximam de Israel. Faz parte da minha identidade. Mas é justamente por querer o bem de Israel que quero o bem da Palestina. A Palestina faz parte da identidade de Israel como Israel faz parte da identidade da Palestina. É uma relação que existe desde que há civilização no mundo. O judaísmo está entranhado em cada esquina de Jerusalém; está marcado na ausência do Templo acima de seu monte. O Islã está igualmente em cada esquina, igualmente entranhado – assim como a pedra de onde subiu aos céus o profeta, perto de onde a belíssima cúpula dourada de al-Aqsa se ergue. Israel não será possível sem a Palestina. E a Palestina não será possível sem Israel.

Já achei, noutros tempos, que havia legitimidade para o argumento de que sequer havia palestinos ali – eram todos árabes sem uma identidade nacional própria. Besteira. Mas ainda há muita gente que não percebe o quanto a identidade judaica faz parte daquela terra, o quanto é íntima de sua cultura que sempre rezou pelo ano que vem em Yeroshalaim.

O Hamas se recusa a aceitar a existência de Israel. O governo de Israel, traindo sua história milenar de sofrimento pela opressão, reage com destruição e a mesma opressão. No meio do processo, o diálogo se perde de vez.

O sinal de que o diálogo se perdeu de vez está no ato do Guterman de pedir o chapéu. E está na resposta agressiva que um amigo querido escreveu para meu último post. Discordar é do jogo. Quando você vem com virulência, ao menos é de praxe alertar antes com uma mensagem. Um gesto ao menos de cortesia se espera no debate. Mas nem isso. A irracionalidade venceu de vez a partida quando um sujeito cordial e literato do quilate do Idelber Avelar perde até a capacidade de interpretar texto.

Uma de suas críticas ele pesca de uma frase minha: Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. Isolado do contexto, é um horror. Mas o parágrafo começa com ‘o raciocínio do Hamas é o seguinte’, dois pontos. Aí lista. O Hamas acredita no sacrifício humano. Não sou eu que digo. O que diz são seus programas infantis de tevê. As aulas em suas escolas. Eles preparam homens-bomba! Se isso não pode ser interpretado como ‘morrem sem se preocupar’, o que pode? Eu não acho que o Hamas represente o que pensam os palestinos todos. É por isso que após descrever como é o Hamas, concluo: A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim. Mas o Idelber esqueceu de ler o final. Mobilizado, estava cego. Tinha tirado uma conclusão a respeito do que penso e esqueceu de ler o que de fato escrevi.

Foi também isto que fez quando voltou a meus posts sobre o Líbano. Sim, eu disse no início do conflito que Israel tinha o direito de se defender. Depois disse que o ataque foi um ato covarde. Demorei alguns dias para chegar a tal conclusão? Sim. A guerra demorou alguns dias para se revelar em toda sua crueza. É o contexto no qual tais posts foram publicados. Caracterizar minha opinião por um trecho sem incluir o fato de que revi a posição depois é o quê? Não tenho nenhuma dificuldade de rever posições quando cabe. Só não quero ser acusado pelo que pensei e não penso mais.

Daí Idelber segue para mais uma frase pinçada. O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? O Hamas se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. É fato. Está no programa do Hamas o objetivo de acabar com Israel. É fato. Que este objetivo seja colocado de lado para conversar a paz é uma condição, no mínimo, razoável. Conversas de paz começam com a pressuposição de que as partes não desejam mais a mútua destruição. E não uso este argumento, em momento algum, para legitimar a política destrutiva de Israel. Nada legitima o que o governo de Israel está fazendo. Quem lê o Idelber sai com a impressão de que estou justificando uma coisa, não outra.

Idelber me acusa de estar justificando atos israelenses num post em que os condeno. Antes de mergulhar numa peça de Ionescu ou Beckett, num romance de Kafka, é melhor jogar a toalha.

Não pretendo voltar ao assunto Israel, Palestina tão cedo. Trégua. O que ele produz é isso: até os amigos queridos param de ouvir o que você está dizendo para interpretar o que julgam ser o discurso de alguém que defende Israel. Não tenho ânimo de entrar numa discussão histórica sobre o que houve em 1948. Cansa a perspectiva da repetição dos mesmos argumentos de um lado, de outro, a inevitabilidade da surdez de ambas as partes. Cansa a perspectiva de saber que alguém lançará mão da palavra Holocausto e que ela sempre estará num contexto que fere – porque é impossível lançar mão do Holocausto sem ferir. Cansa a perspectiva de ter que discutir com gente que a gente gosta. E de ter que ouvir todos aqueles que aproveitam-se do discurso legítimo de defesa da Palestina para levantar de novo, discretamente, sutilmente, como se nada quisessem, o mesmo discurso que levou ao pesadelo dos anos 1940. É fácil dizer que não aconteceria mais. O vampiro de Dusseldorf está sempre à espreita.

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