Israel, Palestina: como resolver?

Islã · Israel e Palestina · Judaísmo · 2/03/2008 - 11h16 - 131 Comentários

Deixe de lado um ou outro que traz à tona a estúpida comparação de Israel com o nazismo, e os comentários do post abaixo apresentam excelentes questões.

(Se há um Holocausto em curso? Nem de perto. Mas isto já foi discutido aqui e não faz sentido voltar ao tema. É mais importante discutir o que está realmente acontecendo.)

Quem argumenta pelo lado palestino nesta situação e nas passadas tem os números a seu favor. Israel mata muito mais palestinos do que o oposto. Quem argumenta pelo lado palestino tem mais do que isso a seu favor. Tem o bloqueio militar e econômico às comunidades palestinas que pioram sua vida, inviabilizam seu sustento, impossibilitam a criação de um Estado independente.

Quem argumenta pelo lado israelense pergunta: e fazer o quê? O atual governo eleito palestino se recusa a reconhecer o direito de existência de Israel. Como conversar a paz com quem jura sua destruição na primeira chance que tiver? Também há números: o bloqueio militar reduziu realmente o número de ataques terroristas dentro de Israel. O Hamas tenta. Não consegue mais, daí fica com a constante provocação dos mísseis caseiros. Vez por outra, destrói uma casa, fere ou mata um.

Como na piada do rabino, é perfeitamente sensato dizer: ambos têm toda a razão. Mas de que adianta ter a razão se o caminho escolhido por ambos os lados representa a destruição de um – ou de ambos?

Sderot é uma pequena cidade israelense, a mais próxima de Gaza, e constante vítima dos foguetes caseiros. O Hamas informa que tem 10.000 foguetes em seu arsenal. Seu objetivo é colocar os habitantes de Sderot para fora. Acaso despejem tudo lá, conseguirão. O prefeito da cidadezinha, Eli Moyal, costumava reclamar que, para se proteger os prédios dos foguetinhos, fora obrigado a aceitar 2 bilhões de dólares em doações de evangélicos norte-americanos. O governo federal estava ausente. Sem uma resposta brutal por parte de Israel contra o Hamas, o ritmo de fogo continuaria, ele argumentava. Agora, conseguiu.

O raciocínio do Hamas é o seguinte: os israelenses vão desistir. Primeiro, com foguetinhos, expulsam a população de Sderot. Se conseguirem, começam operações semelhantes na Cisjordânia, na fronteira do Líbano, foguetinhos de toda parte para aumentar o estresse de viver em Israel. Enquanto isso, os árabes agüentam o sangue. São mais duros, morrem sem se preocupar. O tempo e a disposição de morrer está do lado dos militantes do Hamas.

A questão é que o Hamas esqueceu de combinar com as famílias palestinas. Ninguém quer morrer assim.

O ex-deputado trabalhista Avrum Burg, que chegou a ser presidente do Knesset, argumenta que a alma israelense não consegue vencer o trauma do Holocausto. Seu raciocínio vai assim: nos anos 1930 e 40, enquanto as políticas da Alemanha Nazista moviam-se cada vez mais em direção ao extermínio total dos judeus, nenhuma nação se levantou para defendê-los. Assim, a obrigação fundamental de Israel é defender os judeus. A qualquer custo. Como não podem esperar nada do mundo, dane-se. Judeus defendem-se por conta própria. (A entrevista de Burg ao Haaretz que causou comoção no país foi comentada aqui e culminou numa excelente reportagem de David Remnick, diretor de redação da New Yorker.)

Burg acredita que Israel perdeu a sensibilidade para o sofrimento palestino. Provavelmente tem razão. Mas a observação não resolve o problema: que fazer?

O primeiro passo é reconhecer que a política israelense até agora foi desastrada. O Hamas começou com dinheiro israelense, alimentado pelo desejo de promover um grupo que fizesse frente à OLP de Yasser Arafat.

Não é possível vencer militarmente o Hamas. Quanto pior a ofensiva militar contra Gaza, mais gente morrerá a mais gente achará que o Hamas é seu único defensor. Quanto mais bate, mais forte o inimigo sai. Esta é a maneira pragmática de ver o problema. A outra maneira é pelos olhos de Burg. No momento em que Israel perde a sensibilidade para o sofrimento de qualquer grupo humano, algo fundamental de sua alma também é perdida. Ele vai além: vale a pena Israel se este algo fundamental humanitário não existe mais? A opinião dele é que o país está cavando sua destruição futura. Não é uma conclusão que o faz particularmente popular.

Combate-se o Hamas em duas frentes. A primeira é cortando ao máximo possível suas fontes de renda. Ou seja: Irã, Arábia Saudita, Síria. A segunda é melhorando a vida dos palestinos. Vai além de independência. Escolas, hospitais, segurança, emprego. Se a vida melhorar, o ódio se restringirá à minoria radical.

Não é difícil trazer a Arábia Saudita para o barco. Seu governo já é aliado do ocidente e sabe que sua maior ameaça interna é justamente o radicalismo islâmico incontido. O problema interno da Arábia Saudita é que não é fácil de resolver, já que o Islã ‘puro’ dos terroristas, lá, é a religião de Estado. Mas convencer a realeza a cessar a transferência de fundos para movimentos radicais palestinos é possível.

Com a Síria também é possível ter uma conversa pragmática. Bashar al-Asad, o ditador do país, não é burro. Mas é paranóico. Teme uma invasão norte-americana, teme a ameaça israelense. Sabe que seu regime é semelhante ao que Saddam Hussein tocava no vizinho Iraque. Sente-se ameaçado. Por isso, alimenta o Hamas. É sua moeda de troca na mesa de negociação para garantir a sobrevivência.

Para o Irã é preciso uma política de reintegração do país no cenário político internacional. É preciso reconhecer sua importância regional e é preciso parar de incluí-lo em coisas como o ‘Eixo do Mal’, que só empurram a população em geral moderada para o braço dos radicais.

Qualquer um por certo pode então se levantar e dizer: tudo isso para resolver a questão da Palestina? Impossível. É claro que é possível. O histórico da política externa do século 20 no Oriente Médio foi um de municiar com armas e dinheiro grupos que pretendiam exterminar outros grupos. Assim, os EUA armaram os mujahedins afegãos que combateram os soviéticos; municiaram a Guarda Republicana de Saddam Hussein que partiu contra o Irã; Israel alimentou o Hamas que foi no pescoço da OLP. Os mujahedins criaram a al-Qaeda, Saddam saiu para exterminar seu próprio povo e o Hamas dispara homens-bomba ou seus foguetinhos (que matam e destróem) contra Sderot.

(É possível ir até mais longe. Os ingleses puseram os Sauds, uns beduínos carniceiros e radicais religiosos conhecidos da região, para governar o país que ficou chamado Arábia Saudita porque não queriam pôr os Hashemitas, atuais governantes da Jordânia, no lugar que lhes cabia tradicionalmente, desde os tempos de Maomé. Não os puseram lá porque consideraram que os Sauds seriam facilmente manipuláveis, os Hashemitas, não. A vertente radical da religião que os Sauds defendiam era em todo minoritária nos anos 1920; hoje, se espalhou. O mundo com os Hashemitas no poder em Meca e Medina seria muito melhor.)

Um bom indício a respeito da eficiência das operações militares é o seguinte: até agora, não resolveram nada, mataram muito e acirraram a resistência e o ódio.

Evidentemente, nada disso é fácil de fazer. Se começar agora é trabalho para décadas. E ajuda muito se o próximo presidente dos EUA for alguém disposto ao diálogo.

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