As múmias paulistanas e
as moças do Brasil colonial

Brasil · História · Igreja Católica · 29/02/2008 - 12h25 - 97 Comentários

A notícia mais fascinante da semana é a história das duas múmias encontradas no Mosteiro da Luz, em São Paulo. Uma delas, a mais bem conservada jamais vista no Brasil, tem algo como 200 anos. Estavam juntas as múmias das freiras, numa carneira – ou gaveta – na parede. Uma deitada em posição de enterro, a outra de lado, como que apoiando a cabeça contra o peito da mais antiga.

Diz a lenda que as freiras reclusas do mosteiro certa vez foram enterrar uma irmã, abriram a carneira para afastar os ossos da enterrada anterior, e ela estava intacta. Pode ser que a história contada há gerações tenha mesmo se confirmado. É uma pena que a versão online do Estadão não tenha trazido à rede aberta todas as excelentes reportagens de Sérgio Duran, publicadas na edição de ontem. (Internet que carece login e senha mediante pagamento não vale o link; apenas uma das matérias está aberta.)

Será possível aprender um bocado com as duas freiras. O líquido do corpo se foi, mas o resto do material orgânico ficou: pele, músculos, parte dos órgãos. De presto, será possível aprender sobre os hábitos alimentares daquela São Paulo miúda que existia no final dos mil e setecentos, pouco antes de a família real portuguesa chegar ao país. Dependendo da causa de morte – coisa que pode ser descoberta – talvez venhamos a saber algo sobre alguma epidemia. Já há historiadores buscando avidamente, nos arquivos das freiras reclusas que ainda hoje fazem as pílulas do frei Galvão, todas as pistas possíveis a respeito das identidades delas. E, como é quase certo que haja catacumbas no chão do mosteiro que já mostrou ter um clima adequado à mumificação natural, os arqueólogos já esperam encontrar outras múmias intactas.

Estes dois séculos nos separam de um Brasil em tudo diferente do atual – e a questão não é apenas de escala, de tamanho. Simplesmente não nos reconheceríamos naquela gente antepassada de muitos de nós. Naquela época, não eram apenas as freirinhas do Mosteiro da Luz que ficavam trancafiadas, sem contato com o mundo exterior. As boas casas das cidades escondiam também suas mulheres brancas. O casario colonial não tinha venezianas nas janelas e sim gelosias, treliças com minúsculas passagens para a luz. Não se via, da rua, o interior daquelas casas com pé direito alto. Quando as mulheres saíam era muito cedo de manhã, ainda escuro e em direção à missa, sempre acompanhando seu marido, pai ou irmão que caminhava à frente da fila de moças cobertas com mantilhas, sem mostrar um fio de cabelo. Levavam a cabeça baixa. Não havia namoro no Brasil do século 18. Havia as negras e as mulheres para casar. Ninguém confundia uma com a outra. A distância entre aquele Brasil e a Ipanema de hoje, com tanta pele exposta, é aterradora.

Nesse tempo das múmias, a Igreja tinha o poder que Bento 16 lamenta tanto ter perdido: ela ditava o que podia e o que não podia, ditava o ritmo da vida cotidiana. Acordava-se de manhã com os sinos da igreja mais próxima chamando para a missa – e era o sino, ao longo do dia, que marcava as horas. Todas as fases da vida recebiam a chancela da Igreja. Certidão de nascimento não havia, o que havia era batismo. O casamento não era civil, mas religioso. Os que tinham educação recebiam-na de padres. (Não raro, toda família de boa cepa fazia do segundo filho um padre.) Mas, apesar deste poder, não quer dizer que a relação com a Igreja fosse sempre tranqüila. Tanto paulistanos quanto cariocas expulsaram os jesuítas mais de uma vez de suas cidades. Padres que empatavam demais a vida eram hostilizados pela turba. (Mas todo mundo tinha medo de excomunhão.) A hipocrisia sexual era de regra. Como padres eram quase sempre os únicos homens com acesso às mulheres todas, não hesitavam em fazer proveito. Tinham filhos, não raro os registravam.

Havia hipocrisia, havia malícia, mas havia também um ser profundamente religioso. Vez por outra, aquelas meninas trancafiadas na pré-adolescência sentiam calores e piravam: falavam em línguas, viam Deus ou Jesus ou algum anjo, criavam fama de milagreiras e a piração pré-adolescente virava reclusão para a vida, dada a óbvia vocação religiosa. Eram meninas assim que iam parar em mosteiros como este, construído pelo único santo brasileiro. E são duas delas que nos vieram visitar.

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