Persépolis e o Irã no Oscar

Cinema · HQ · Irã · 24/02/2008 - 10h35 - 54 Comentários

Hoje, no Oscar, um dos candidatos ao prêmio de melhor longa de animação é Persépolis, da iraniana Marjane Strapi. O filme nasce do álbum em quadrinhos de mesmo nome – que é uma beleza de livro. No Estadão, Flávia Guerra conta da moça:

Marjane nasceu em 1969, cresceu no Irã dos aiatolás, passou a adolescência ‘aprendendo’ a ser européia em Viena e hoje vive em Paris. Não foi a primeira vez que ela teve problemas com os governantes de seu país de origem. ‘Por que você não concede entrevistas aos veículos iranianos?’, perguntou um jornalista da rede árabe Al-Jazira, o principal canal de TV do Oriente Médio, em Cannes, quando Persépolis estreou mundialmente e recebeu o grande prêmio do júri. Ela, que é famosa por perder o amigo mas não perder a piada, disse: ‘Acontece é que sou perseguida. Minha família que ficou no Irã pode sofrer represálias, dependendo do que eu fale. Tenho de ser responsável quando se trata de um filme como este’. O repórter aceitou a explicação, mas, terminada a coletiva de imprensa, fez questão de apontar seu microfone para Marjane e discutir o filme em um serviço especial para o público muçulmano.

Você continua temendo represálias à sua família e evitando falar com a imprensa iraniana?, perguntou o Estado. ‘Sim e não. Sim, porque não voltei nunca mais. Nunca mais vi as belas paisagens do meus país. Mas é mentira que eu não fale com a imprensa. Simplesmente não quero falar com quem não me compreende e não entende que tenho profundo amor e respeito por meu país. Mas não concordo com a repressão e a perseguição, as torturas e as mortes que foram cometidas em nome de uma pretensa ordem, tanto política como religiosa. Tenho muita saudade, mas hoje meu lugar é na França. Por mim e pela minha família, que lá ficou. [...]

Mas, afinal, quem é Marjane Satrapi? Quem é essa mulher bonita, de olhos felinos, que fala com as mãos, é extrovertida e sarcástica? Uma típica figura feminina que atrai e, ao mesmo tempo, espanta. Ela hoje é uma das mais influentes cartunistas, artistas e, claro, mulheres do cinema mundial. Enérgica e doce ao mesmo tempo. E usa toda essa energia, que por muito pouco não foi condenada a se esconder atrás do véu, para se revelar a própria metonímia de seu povo. Marjane era parte de um Irã que se indignava com o fato de uma garota poder ser presa por mascar chiclete e usar tênis All Star. É nesse cenário que começa sua história.

Na adolescência, Marjane Satrapi (que foi educada em colégio francês e leu todos os clássicos da cultura ocidental) queria o que toda garota de sua geração queria: andar na moda, ter um walkman, comprar discos, ir a festinhas com os amigos, beber, e, claro, namorar. Mas, em vez de arranjar, no máximo, uma briga com os pais por usar uma jaqueta que bradava Punk is not dead, seu visual punk (o máximo da modernidade nos anos 80), poderia levá-la literalmente para a cadeia.

O texto de Flávia é do tipo que dá prazer ler. Os quadrinhos – e agora, possivelmente, seu filme – são peças essenciais para compreender o Irã contemporâneo.

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