Uma entrevista aos sábados

China · EUA · Europa · Gente · História · Ásia Central · 23/02/2008 - 05h50 - 75 Comentários

Me parece óbvio que os EUA não podem lutar sozinhos por todas as questões de interesse do Ocidente. Assim, duas conclusões são possíveis. Uma é que não há qualquer interesse ocidental na região, aí não lutamos. Outra: há interesses do Ocidente, então temos que lutar. Quer dizer, precisamos de mais tropas da OTAN no Afeganistão. A esta altura, no ano que vem, teremos um novo governo nos EUA. É aí que descobriremos se o governo Bush era a causa ou o álibi dos desentendimentos entre Europa e EUA. Hoje, muitos europeus se escondem atrás da impopularidade de Bush. E seu governo realmente cometeu muitos erros no início.

Você sempre pode dizer que há uma guerra diferente que era mais importante do que a guerra na qual está envolvido. Mas o que quer dizer que deveríamos lutar a guerra no Paquistão? Deveríamos usar poder militar nas regiões tribais e conduzir operações numa região que o Império Britânico não conseguiu pacificar nem em 100 anos de colonização? Deveríamos usar o poder militar para impedir que os radicais tomem o poder paquistanês? Devemos impedir que o Estado paquistanês se parta em três ou quatro grupos étnicos? Não creio que tenhamos capacidade para tal.

Não acordamos um dia de manhã e decidimos que seria lindo conversar com Mao. Tanto eu quanto Nixon acreditávamos que era preciso trazer a China para o sistema internacional. Tentamos relacionar realidade e considerações morais. A realidade foi mudada pelas tensões entre China e União Soviética. Alguns acreditam que só a conversa já é capaz de aliviar tensões. Eu acredito que, para as negociações terem sucesso, elas precisam antes refletir a realidade. A principal dúvida a respeito do Irã é se o país se vê como uma causa ou como uma nação. Se o Irã deseja ser um Estado-nação respeitado sem desejar dominação imperial ou religiosa, então algum tipo de entendimento é possível. Mas isso não será possível se o Irã encarar o momento como uma oportunidade histórica para fazer renascerem os sonhos da glória persa.

Henry Kissinger, fevereiro de 2008

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