Manifesto Bloguista
e um quê sobre influência

Blogs · 21/02/2008 - 12h46 - 99 Comentários

O Carlos Cardoso, um dos principais blogueiros do país, apresenta em um de seus sites aquilo que chama de ‘Manifesto Bloguista’. Tem a ver com um bocado da discussão que temos tido na blogosfera. É bonito – mas ingênuo. O completo está no Contraditorium, cá vão alguns trechos:

HOJE no blog nós fazemos o que somente poucos da profissão de jornalista fazem: Escrevemos colunas diárias de opinião, assinando com nosso nome.

Fazemos nossa própria pauta, não queimamos pestana na rua atrás de matéria, não ficamos ligando para 10 Ministérios implorando por uma notícia. Desculpe, Pedro Doria, mas isso pode ser bom para você. Aqui as fontes vêm até nós, como neste caso de um servidor de hospedagem do Governo usado para fins pessoais. [...]

Eu quero brigar é com o Paulo Francis (sim, ele ainda é algo a ser superado), com o João Ubaldo, com o Artur Xexéo, com o Arnaldo Jabor, com o Ancelmo Góis.

Os jornalistas insistem em querer que nós sigamos seus passos, acham que nós almejamos nos tornar seus iguais.

Desculpe, pessoal, mas não quero mais ser jornaleiro, eu quero ser colunista. E sou. Ou melhor: sou Bloguista.

No meu blog eu sou dono, editor e articulista. Eu sou o Drummond, o Rubem Braga. Sou Samuel Wainer e Roberto Marinho. Adolfo Bloch e Assis Chateaubriand.

Nada contra colunistas de opinião. Nem poderia. Fui colunista da Folha, sou colunista do Estadão. Me paga o salário e me sustenta. Também nada contra ser o Samuel Wainer ou o doutor Roberto (um dos melhores patrões que já tive, diga-se, além de simpaticíssimo). Mas Cardoso não entendeu, ao que parece, qual o trabalho de um colunista e tampouco o que faz de alguém um grande empresário de comunicação.

Paulo Francis informava. O Paulo apurava. Ancelmo Góis? O Ancelmo não pára de trabalhar um único segundo. Ele sai de férias e sua mulher precisa ficar vigiando o telefone celular. Cardoso faz parecer que ficar ligando de ministério em ministério é trabalho de foca, de jornalista iniciante. Não é. Foca não sabe onde começar. Esse é o trabalho do Ancelmo. E tem muita gente que compra O Globo só para ler a coluna dele.

Assim como tem gente que compra jornal só para ler o Elio Gaspari. Ele tem opinião? Claro que tem. E opiniões fortes. Só que a opinião do Elio não nasce no vácuo. Não nasce de uma leitura apressada do jornal do dia e alguns rompantes de indignação. Nasce de conversa, muitas horas de telefone, com gente que tem a informação que ele busca. Opinião que interessa é a opinião que contextualiza; é opinião sustentada com informação. Informação, diga-se, que não se encontra no jornal. Informação que ninguém publicou ainda.

A blogosfera atrairá massa de leitores e enfrentará os grandes portais quando ao menos alguns blogs tiverem o tipo de informação que o Ancelmo e o Elio têm. (Eles não ganharam de seus patrões ‘colunas de opinião’ por conta de seus belos olhos.) Por enquanto quem oferece isso, na blogosfera, é o Ricardo Noblat, o Juca Kfouri, alguns poucos outros. Todos veteranos de redação.

O que nos leva ao patrão. Querer ser patrão, dono de veículo de mídia, é uma nobilíssima ambição. Mas é preciso entender como se chega lá. Doutor Roberto não abriu um dia um jornal e decidiu que ia contar ao mundo o que achava das coisas. Ele mal tinha saído da adolescência quando o pai morreu e deixou de herança um jornal que fora lançado na semana anterior. O que fez o jovem doutor Roberto? Contratou um jornalistão para ser seu chefe no seu jornal. Foi repórter, foi redator, chefe de reportagem, aprendeu a profissão em seu próprio veículo, enquanto outros o chefiavam, para só depois de mais de uma década assumir o comando. Criou seu espaço. Não ficou sentado esperando que viesse a ele o que lhe era de direito.

Samuel Wainer era muito pior. Mesmo depois de velho, apurava. Não parava de conversar com quem tinha informação um único segundo. Era freqüente, em suas redações, que ligasse para o diretor de algum dos jornais para soprar aquilo que seria a manchete do dia seguinte. Seu Adolpho tinha um estilo diferente, suas revistas apostavam no material fotográfico. Ainda assim, grandes coberturas. A visita do papa, a Amazônia – e, sempre, muita mulher bonita. Luiza Brunet era sua favorita. Era tão ligado ao poder que Juscelino Kubitscheck tinha um escritório no prédio da Editora Bloch.

A questão não é discutir se foram boas ou más pessoas. A questão é que o que fez deles pessoas influentes não era opinião. Eram influentes porque eram bem informados. Sabiam de coisa que muito pouca gente sabia. E publicavam.

Eles não tinham opinião; eles formavam opinião.

O Cardoso cita ainda gente do quilate de João Ubaldo e Carlos Drummond. São excelentes cronistas. Fazem poesia, literatura. Mas a crônica, no jornal, exerce o papel de dar ao leitor uma pausa para respirar, talvez arrancar-lhe um sorriso ou uma lágrima. Se crônica vendesse jornal, jornal teria pouca notícia e muita crônica. E crônica é muito mais difícil de fazer do que apurar informação. Crônica requer talento.

É muito bonito querer ser patrão, ser ‘colunista de opinião’ ou até mesmo – a palavra é um achado de tão simpática – ‘bloguista’. Só que a opinião relevante continuará sendo a de gente bem informada. Não é preciso ligar para dez ministérios para se informar, como faz o Ancelmo. Mas é preciso ter acesso a fontes de informação que a maioria das pessoas não têm. Isso só vem com muito trabalho dedicado. É assim que se vira algo que é preciso ler todo dia.

A opção para cada blog é muito clara. Oferece algo que o leitor não tem em nenhum outro lugar, ajuda o leitor a compreender algo do mundo, do esporte, do país, da economia, da cultura – o que for. Ou opina. A Internet está começando a acontecer no Brasil. Quem formará opinião na rede? Os grandes grupos de mídia ou um grupo de novos atores independentes?

Se a opinião do blogueiro nasce do que leu na mídia tradicional, a resposta está dada. Já sabemos quem forma opinião. Mas não custava ter um pouco mais de ambição.

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