Kosovo, Sérvia, Rússia e o
quebra-cabeças da ONU

EUA · Europa · Rússia · 18/02/2008 - 00h37 - 111 Comentários

Não houve qualquer surpresa, ontem, quando o parlamento kosovar se reuniu e declarou sua independência. Também já se esperava que, perante a notícia, boa parte da população tivesse ido às ruas comemorar. Neste jogo de xadrez, todas as reações iniciais estavam previstas. A Sérvia declarou que sua província – administrada desde 1999 pela ONU – não podia simplesmente se separar. A Rússia se pôs a seu lado. Já EUA e a União Européia se mostraram simpáticos. Os 93% de kosovares de origem albanesa ficaram felizes. Os 5% sérvios estão preocupados.

E o problema começa agora.

O presidente sérvio Boris Tadic não deve reagir com violência. Ao menos, não a princípio. Ele acaba de ser eleito e é pró-União Européia. Mas elegeu-se no segundo turno por margem estreita e seu adversário era pró-Rússia. Ele vai falar duro – já declarou a ação ilegal – mas tentará ficar quieto. Tadic bem que gostaria de aceitar o convite da União Européia. Reconhece Kosovo livre, em troca a entrada na UE vai mais rápido. Gostaria mas não pode, sob o risco de alienar boa parte da população.

Aí o jogo começa a ficar mais complicado. A Rússia é contra e não poderia ser diferente. Ela tem problemas com regiões em seu território nacional que desejam independência. Não só a Rússia: China e Índia também têm. Se Kosovo inspira outros movimentos separatistas, dois países no Conselho de Segurança da ONU ficam numa situação ruim. A Rússia também quer manter intacta sua esfera de influência no Leste Europeu. Moscou pressiona o governo sérvio para que não ceda. E a Sérvia depende da Rússia como fonte de energia.

O Conselho de Segurança é importante, aqui. Com o veto certo da Rússia, a ONU não pode reconhecer Kosovo. Terá que retirar sua missão de Pristina. A União Européia planeja por uma sua no lugar. Rússia questiona a legalidade do ato: sem o aval da ONU, nem UE nem a OTAN podem reconhecer a independência. A discussão jurídica acontecerá ao mesmo passo em que a política e a diplomática. O mais provável é que a UE se posicione ignorando problemas legais.

São 200.000 sérvios morando em Kosovo. Há medo de que eles decidam migrar para a Sérvia. O plano de independência faz com que a minoria tenha ampla participação no governo, justamente para dispersar temores.

O governo sérvio terá de se equilibrar perante a pressão interna dos eleitores e a externa, por parte da Rússia. É onde há perigo. A ong Internation Crisis Group, que trabalha na prevenção de conflitos ao redor do mundo, sugere que a UE reconheça imediatamente o novo país e que assuma o papel que a ONU vinha exercendo.

Richard Holbrook, que foi embaixador dos EUA na ONU durante o período da Guerra do Kosovo, vê dois riscos. O primeiro é que os kosovares de etnia albanesa se virem contra os de etnia sérvia. O segundo, de que se isto ocorrer a Rússia decida intervir militarmente. Para evitar ambos os cenários, só há uma solução: tropas da OTAN ou da UE.

Mas nada estará resolvido enquanto a Rússia não mudar de posição.

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