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Uma entrevista aos sábados

February 16th, 2008 · · 27 Comentários

Chegando ao Rio, papai me levou ao renomado show de calouros que Ary Barroso apresentava na rádio Tupi. Eu sabia que aquilo poderia ser importante para meu futuro. Segundos antes de entrar no palco, ouvi Ary Barroso gritar com a produção que não queria por ali nenhuma criança prodígio, que só aceitava maiores de idade. Um rio correu por minhas bochechas enquanto guardava o acordeão. Shows de calouros podem ser, sim, muito, muito traumatizantes. Eu fiquei apenas triste.

Um de meus maiores prazeres foi descobrir que o meio-fio de Copacabana é um ótimo lugar para fazer amizades. A minha com João Gilberto floresceu na calçada do Copacabana Palace. Nos intervalos dos shows do Golden Room, eu saía para respirar um pouco a brisa noturna do mar e jogar conversa fora com o João. É bom que as pedras portuguesas sejam mudas.

Esfomeados, era comum acabarmos nossas noites na casa de Bené Nunes, na Gávea. Lá, João, Tom Jobim e eu descobrimos duas coisas fantásticas: que uma frigideira com seis ovos passados na manteiga combina bem com os discos de Chet Baker, e que se pode decorar acordes de bossa nova como se fossem números de telefone. Basta dar ao polegar o número um, e ao mindinho, o cinco.

Não sou arredio em relação a nenhum ritmo, mas não abro mão de uma coisa: o volume tem que ser agradável. Outro dia, um barco ancorou na baía, bem em frente a minha casa, e ligou um bate-estaca no máximo para animar uma festa no mar. O cara só pode ter feito aquilo para anestesiar os convidados e evitar que percebessem que as músicas eram de quinta. Som nas alturas impede que as pessoas pensem. É algo que vai contra as leis da natureza. Ou alguém já ouviu um trovão durar cinco horas?

Outra sugestão é apostar nas campainhas de celular: os ringtones. No meu telefone tenho três músicas de minha autoria: Doralinda, Nasci para Bailar e Bananeira. Dependendo de quem liga, toca uma. Fantástico. Bossa nova combina demais com celular. Aliás, deixa eu escrever isso aqui, combina com tudo, ok?

João Donato

Tags: Gente · Música

27 Comentários até agora ↓




  • 1 confetti // 16/February/2008 às 7:24

    ” Tom Jobim e eu descobrimos duas coisas fantásticas: que uma frigideira com seis ovos passados na manteiga combina bem com os discos de Chet Baker, e que se pode decorar acordes de bossa nova como se fossem números de telefone. ”

    ah que coisa linda ! chet ja ta rolando aqui e combina tbm com earl grey e geléia de goiaba !
    alias ele combina com tudo !

    pd, falamos tanto na piaui que vc nao resistiu né ! obrigada pela escolha da entrevista, nem sabia direito quem é joao donato…agora ele é meu ! ))

  • 2 confetti // 16/February/2008 às 7:32

    “bossa nova combina com celular”…kkkk, sacaneou a bossa

  • 3 anrafel // 16/February/2008 às 7:38

    Mas essas músicas do celular dele são cantadas?Se sim, por quem? Por ele?

    Eu colocaria “Lugar Comum” e “A Paz”, com Gil.

  • 4 anrafel // 16/February/2008 às 7:43

    “Bossa Nova não combina com celular. Bossa Nova combina com as minhas novelas”.

    Manoel Carlos

  • 5 confetti // 16/February/2008 às 7:45

    anrafa da um sight aqui…

    http://www.youtube.com/watch?v=Ng-mevOY7do

  • 6 Deise Guelfi // 16/February/2008 às 11:22

    Deliciosa entrevista.

    Confetti:
    “pd, falamos tanto na piaui que vc nao resistiu né ! obrigada pela escolha da entrevista, nem sabia direito quem é joao donato…agora ele é meu ! ))”

    É nosso!!!!

  • 7 Deise Guelfi // 16/February/2008 às 11:25

    O relato completo, então, é fantástico. Pequenas histórias que formam um grande momento de leitura.

  • 8 Monsores // 16/February/2008 às 11:33

    Deise Guelfi,

    Um beijo, querida.

  • 9 Brancaleone // 16/February/2008 às 14:36

    Bossa nova tudo bem, mas João Gilberto?
    Como compositor passa, mas aquela vóz lazarenta de chata e aquelas manias e estrelismos de prima dona? Nem f…

    Tá, já sei. Já tô correndo. Criticar aqui artista (e arquiteto) brasileiro é pedir para ser linchado.

    Tô indo dar um vareio com DTzona no meio do mato, longe dos humanos, em especial dos homo sapiens fantasticus intelectualis divinicus…

    Aliás, tá um mormaço danado de bom para pegar uns lambaris e à noite, taraíras!!!

  • 10 confetti // 16/February/2008 às 14:37

    putz josua, eu quero ir pro mormaço com vc !!!

  • 11 anrafel // 16/February/2008 às 14:39

    Brancaleone,

    Bossa nova com João Gilberto, com ele mais do que com ninguém, é bom, sim. Tão bom quanto uma fritada de traíra com uma pinga antes e uma cerveja gelada durante.

  • 12 Brancaleone // 16/February/2008 às 14:51

    Anrafael:
    Traíra?
    Você deve habitar as regiões inóspitas e primitivas ao norte da República do Sul !! Para nós, cidadãos da República Sulista, qualquer lugar alem da margem direita à jusante do Rio Ribeira é território do Norte. Por aqui diz-se TARAÍRA.
    João Donato? Ótimo.
    João Gilberto? só compondo. Cantando nem a pau. Aiás corre um boato que tocam joão gillberto 24 hrs. por dia em Guantânamo…

  • 13 Brancaleone // 16/February/2008 às 14:58

    Herdei de meu pai : Chá Dançante, vinil de 1956 do Donato e seu Conjunto. Consegui tambem “A Bossa Muito Moderna”, mas está em péssimo estado. Já o “Vamos Dançar” de 1957, minha mãe não dá, nem vende nem empresta…

  • 14 anrafel // 16/February/2008 às 15:14

    Brancaleone,

    Estaríamos falando do mesmo, e delicioso, peixe?

    Nós, naturais do centro-norte e habitantes do recôncavo baiano chamamos traíra um pescado encontrado em praticamente todos os rios da região (acho que do país), que raramente atinge 0,50 m e que pela grande quantidade de espinhas exige muita manha no preparo e corte. Vale muito a pena o trabalho.

    João Gilberto compondo é coisa rara. Ou será porque quando ele canta algo, a sua marca fica indelevelmente pregada na música?

  • 15 confetti // 16/February/2008 às 15:29

    anrafa, josua é o maior iconoclasta impiedoso do blog !! ))

  • 16 Zé Bush // 16/February/2008 às 16:01

    well….apesar de bossa-nova ser uma coisa meio depressiva , João Donato e Francis Hime são, na minha humilde opinião, os melhores compositores e intérpretes desse gênero. Nunca ficaram à sombra de João Gilberto e Tom Jobim e talvez esteja aí a virtude da coisa. Mantiveram-se “independentes” da corrente geral.

    Apesar da enorme talento de instrumentista e compositor,João Gilberto cantando é um chute nos ovos mesmo. Um Diazepam com Red Bull desce melhor.

  • 17 Eterna moradora do luzente // 16/February/2008 às 16:56

    Poxa vida,

    entrevista tão deliciosa quanto leitura na rede embaixo da árvore…

  • 18 Paulo Porto // 16/February/2008 às 20:07

    Ok, você pode gostar ou não de bossa-nova, principalmente se tiver menos de 40 festivais. Mas é bom prevenir-se. Se for ao exterior, em qualquer bar do planeta, vão pedir para você cantar - ou tocar se for o caso - uma bossa-nova ao descobrirem que é um brasileiro. E os caras entendem do som mais do que nós. São experts no assunto, conhecem os acordes, a batida, os artistas, datas, melodias, enfim, é inacreditável. “Garota de Ipanema” é provavelmente a música brasileira mais conhecida lá fora.

    João Donato não sabe cantar nem precisa. Seu talento de compositor lhe dá esse direito. Pertence a uma época que a música brasileira estava meio sem rumo, deixando a tropicália, com Caetano e Gil exilados em Londres pelo regime militar. Além de ‘Lugar Comum’ e ‘A Paz’, colocaria ‘A Rã’ entre as melhores músicas já gravadas por Gal Costa e Gilberto Gil.

  • 19 anrafel // 16/February/2008 às 21:01

    Um João foi encontrar seu irmão gêmeo num meio-fio de Copacabana. Como eram nessa época de meio-fio, não sabemos. Mas hoje o João acreano parece um assombro de loquacidade em relação ao João baiano.

    E

  • 20 Brancaleone // 17/February/2008 às 9:58

    Anrafael:
    Taraíra ou Traira é a mesma coisa. Existem duas espécies a Lombo Preto ou Lobó que dão bem grandes, mais lá prô Mato Grosso e a Cinza menorzinha , mais prô Sul. Tem espinhas demais, mas é esportiva por brigar na linha. Meu recorde aqui no Sul é 3.050Kg.
    Eu pratico pesca esportiva - anzol sem fisga - e solto de novo.
    Como bom taraíreiro odeio e me recuso pescar em pesque pague e abomino a introdução de peixes exóticos em nosso rios e lagoas naturais.
    Aqui na República do Sul, pessoas que frequentam pesque pague são observadas ( e às vêzes detidas para averiguações) pelas agências de segurança e pela saúde pública…

  • 21 Brancaleone // 17/February/2008 às 10:05

    João Gilbertisses ou estrelismos :

    Uns anos atrás convidaram o João Gilberto para cantar no Guairão em Curitiba.
    Entre outras coisas, pediu que todo - chão, paredes e teto - do Guira fosse limpo com aspirador. Depois que um “amigo” regulasse o ar condicionado no jeito dêle e que se colocasse umas chapas de madeira em determinada posição nas laterais do palco “por questões de acústica” . No fim ele desmarcou o show 15 dias antes porque “o clima da cidade era instável”…

    Vai ser mala assim lá na…

  • 22 Brancaleone // 17/February/2008 às 10:09

    Já o João Donato…

    Um show marcado. Piano em cima do caminhão e numa curva o piano desanda, caí na rua e se esbodega todo.
    Sem pânico!!! procuram na cidade alguem que tem um piano, conversam daqui e dalí, escolhe-se outro freteiro ( claro né!!) e leva-se o piano e o show acontece…

    Alguem sabe a opinião do Tinhorão sobre o João Gilberto??

  • 23 Marcos Araújo // 17/February/2008 às 16:30

    Brancaleono no # 12:

    “.Aliás corre um boato que tocam joão gilberto 24 hrs. por dia em Guantânamo…..”

    Cara, você me fez dar umas boas gargalhadas! O Joao Gilberto nao fez mais nada que preste desde que inventou a batida da bossa nova no violao e o canto aviadado (óia aí a influência do Josef Mario no Caramujo!). Há mais de 25-30 anos nao compoe nada, que nao lança uma nova música, só canta o que outros fizeram. Além disso é um grande pernóstico. Vive da fama do passado, amarrada no dos outros bem mais capazes que ele.

  • 24 anrafel // 17/February/2008 às 19:09

    Brancaleone,

    Então estamos falando do mesmo peixe. E pescar em pesque-pague é realmente coisa de … deixa prá lá.

    João Gilberto enche mesmo o saco com essa implicância sobre o ar-condicionado. Mas, às vezes, surpreende. Certa vez, num festival de um monte de coisas, música, inclusive, seu show foi atrasando, atrasando e ficou pra 5 da manhã, dia já clareando e uma chuvinha caindo (um show era ao ar livre). Ninguém mais botava fé, mas o cidadão foi lá cumpriu o contrato até o finzinho, já mais de 6 da manhã.

    João Gilberto em Guatánamo? Bom, se for algumas faixas dele com Stan Getz, “Estate” e “Retrato em branco e prêto”, por exemplo, terei que concordar com Mister X: os caras lá não estão sofrendo tanto assim, não.

    A opinião de Tinhorão sobre ele? Previsível. Tinhorão contesta a brasilidade até de Paulinho da Viola.

  • 25 Paulo Porto // 17/February/2008 às 20:45

    João Gilberto é para ser ouvido em CD em casa, silêncio absoluto, crianças bem longe, de preferência com fones de ouvido daqueles que parecem um par de cuias - ainda são os melhores por oferecerem um perfeito isolamento acústico. Pra quê ir ao show? Não acrescenta nada a não ser as esquizitices, a implicância com o ar condicionado, com a acústica do ambiente, o som, o público, as condições meteorológicas… Quem vai a um show do João está mais interessado no artista que na música. Pagar 300 reais para ver um show de violão e voz? Tô fora.

  • 26 Marcos Araújo // 17/February/2008 às 21:42

    O quê?!?! Pagar 300 reais pra ver aquele chato no palco? Caraca, dá pra comprar 10 CDs do melhor jazz, tal a Maria Schneider e sua orquestra.

  • 27 Elias // 18/February/2008 às 12:29

    Bossa nova combina comigo.

    Especialmente numa noite de sábado, penumbra, um bom uísque e, sobretudo, aquela certa mulher, aliás, a mulher certa…

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