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O mundo visto pelos leitores: Itália

February 7th, 2008 · · 50 Comentários

Por Sabrina

Modena é uma bela cidadezinha medieval encravada no coração da Bassa Padana (uma parte da Planície Padana) que dista 40 quilômetros de Bologna, capital da região Emilia Romagna. É uma das melhores cidades do norte italiano para viver quando se é estrangeiro: existem várias iniciativas visando a integração entre italianos e estrangeiros, como festas étnicas e círculos de amizade. Talvez sejam mais abertos por conta das indústrias automobilísticas da região, que contratam no exterior. A Lamborghini fica a 10 quilômetros de onde moro; a Maserati, a 14.

Tanto a comunidade islâmica quanto a sul-americana são grandes no norte da Itália. Em Modena, vivem principalmente os norte-africanos (Marrocos e Líbia) e, vindos da América do Sul, peruanos e venezuelanos. Brasileiros são raros. (Estes vivem principalmente em Piacenza, província que faz fronteira com a Lombardia, outra região do norte.)

Uma parte dos políticos tentam fazer da vida dos estrangeiros, principalmente dos muçulmanos, um inferno. No último governo, de direita, era até pior, por causa da coalizão entre o Forza Italia, partido do magnata Silvio Berlusconi, a Lega Nord, partido separatista chefiado por Umberto Bossi e a Alleanza Nazionale, um partido filo-fascista. Para se ter uma idéia da corja: uma vez tentaram abrir uma mesquita em Lodi (província da Lombardia), e, para impedí-lo, um expoente da Lega Nord, Roberto Calderoli, regou o terreno da mesquita com urina de porco. Tornou o local impuro.

Por outro lado, a comida é ótima, os amigos são verdadeiros.

Se você foi convidado para o almoço numa casa italiana, prepare-se pra comer bem e bastante, pois aqui tem o costume do primo, secondo, contorno, às vezes incluindo o antipasto, ou entrada. O primo (ou prato principal) normalmente é pasta ou risoto. O secondo é carne (aqui se come, além da carne de vaca e de frango, também faisão, cervo, cordeiro, avestruz, cavalo), peixe (salmão, atum, merluza, bacalhau, sardinha). E o contorno normalmente é verdura cozida.

Os italianos têm muito ciúme da sua culinária, pois é o traço principal da própria cultura. É uma forma de eles se reconhecerem. Apesar da unificação da Itália no fim do século 19, o povo não se sente ‘italiano’. Primeiro se sentem parte da cidadezinha onde nasceram, depois da província e, se sobrar espaço, da Itália. Um italiano que se sente cidadão da Europa e depois do mundo é raro. Para chegar a esse ponto, precisa se despir da própria mentalidade moglie e buoi dei paesi tuoi (traduzindo, ‘tanto a esposa quanto o rebanho devem vir de sua cidade’). Pela experiência que estou acumulando, abrir mão disso parece ser doloroso.

Já sobre os amigos verdadeiros, é lenda que todos eles sejam festeiros e barulhentos como aqueles que a gente vê no Brasil. É que estamos acostumados com os imigrantes que vieram do sul. No norte é diferente. O italiano do norte é meio fechadão, demora a dar confiança: se, como no meu caso, você vai para uma cidade pequena, com três ou quatro mil habitantes, pode se preparar pra se sentir um estranho no ninho. Mas, passado o primeiro susto, quando se acostumam a você, quando vêem que você não veio atrapalhar, aí tudo muda. Por trás da casca da desconfiança (e, às vezes, um tiquinho de arrogância) existe um povo muito gente fina, que se pode ajuda no que for preciso e, se não pode, ao menos fica junto para gritar ’socorro’.

O país é lindo, mas lindo de morrer. Onde você vai, encontra construções maravilhosas, antiqüíssimas e, pasme, bem conservadas, apesar de alguns casos de vandalismo aqui e ali. (No último que se tem notícia, jogaram tinta vermelha nas águas da Fontana de Trevi, em Roma). É também um lugar com a taxa de natalidade baixíssima, uma das menores (se não for a menor) da Europa. Quando uma criança nasce, costumam colocar na porta de casa um adereço, normalmente um laçarote, que avisa do sexo: azul pros meninos, rosa pras meninas. Imagino que seja uma espécie de anúncio à comunidade de que chegou um novo componente à família.

Já a expectativa de vida é altíssima: não é raro encontrar pessoas com quase 100 anos. Para estes idosos, a saúde pública funciona. Costumam estar todos muito bem.

O mercado de trabalho é um caos. Ter emprego fixo é difícil, dependendo do cargo quase impossível. Não é como no Brasil, quando pedem pessoas com experiência e fica difícil para os jovens. Aqui, mesmo os capacitadíssimos têm dificuldades de emprego a não ser que alguém os indique. Trabalha-se muito e o tempo livre é curto. A isso se soma uma carga tributária que equivale ao que se ganha em seis meses de trabalho. Todo mundo tenta sonegar o máximo possível de impostos, até porque ninguém tem a sensação que essas taxas estão sendo reinvestidas no bem estar da população.

Serviços, como telefone e internet de banda larga, são loteria. Às vezes acontece de o pedido de uma nova linha cair nas mãos de alguém capacitado. Aí você é atendido. O duro é quando aparece um incapaz. Brigar por um serviço decente, a ponto de botar na Justiça a companhia telefônica, é freqüente. Mas tecnologia é barato. Tão barato que, às vezes, temos a impressão que num futuro próximo começaremos a comer silício no almoço.

Mas a Itália está se transformando em país do terceiro mundo. Pouco investimento em áreas estratégicas, os jovens têm pouca esperança no futuro, a emigração de gente capacitada é alta.

Quem fala italiano são os jovens e os idosos muito cultos. Para o resto, o que sobra é o dialeto – e cada cidade tem o seu. Mesmo quando duas cidades distam 5 ou 10 quilômetros uma da outra, os dois dialetos serão diferentes, ao menos na pronúncia. Não é raro, quando se conversa com alguém menos culto, que o papo comece em italiano e passado um tempo comece a sair em dialeto. (O emiliano-romagnolo, nome genérico dos dialetos da região, é reconhecido pela Unesco como língua minoritária.)

Tags: Depoimentos

50 Comentários até agora ↓




  • 1 Nhé! // 7/February/2008 às 10:59

    EU!!??

  • 2 Nhé! // 7/February/2008 às 10:59

    Tava tão bom o depoimento, acabou abrupto.
    Será que tem outro salto?

  • 3 Hermenauta // 7/February/2008 às 11:00

    “Apesar da unificação da Itália no fim do século 19, o povo não se sente ‘italiano’. ”

    Tirando, é claro, o amor pela Azurra… :)

  • 4 Nhé! // 7/February/2008 às 11:01

    Carne de cavalo, país que conserva suas construções, idosos com atendimento de saúde, muitos impostos, falta de emprego, falta de capacitação… que país estranho!!!!

  • 5 Cecilia // 7/February/2008 às 11:10

    Sabrina,
    Amo tudo o que se refere à Italia e aos italianos. Por isso gostei do teu relato.
    Tenho uma ex-aluna, a quem acompanhei desde a pré-adolescência até os 20 anos mais ou menos, que conheceu um italiano em Floripa, casaram e se mudou pra aí há mais ou menos uns 15 anos. Mora na Toscana e mantemos contato muito esporádico.
    Uma coisa que gostaria de saber é a respeito de racismo. Essa ex-aluna é azul de tão negra. Não lhe perguntei, mas se puderes me dizer alguma coisa a respeito, gostaria de saber.
    Grazzie tanti (tá certo?) e um abraço.

  • 6 Mr X // 7/February/2008 às 11:17

    Morei na Itália, mas no Sul, na Sicília, que é o oposto do norte em quase todos os sentidos, mas também muito bonito, e se come muito bem.

    Cada região da Itália é como um país diferente, com seu próprio dialeto e comida, portanto acho generalista demais falar em “Itália” como se fosse uma coisa única e homogênea.

    No mais, claro que o Calderoli é um imbecil, mas não vejo com bons olhos a falta de crescimento populacional e conseqüente islamização da Itália. Em Bolonha planejam construir uma mesquita de 6 mil metros quadrados. Achar que uma Itália com 20, 30 por cento de muçulmanos seria igual a uma Itália católica é ilusão.

    Na verdade, acho triste, mas efetivamente se continuar com todos esses problemas sociais, políticos, demográficos e econômicos a Itália vai voltar a ser terceiro mundo (já foi, há não tanto tempo atrás).

    O problema principal mesmo é a falta de trabalho para os jovens, muitos emigram.

  • 7 Sabrina // 7/February/2008 às 11:27

    Ciao, Nhé!

    A culpa é minha, faz tanto tempo que moro aqui que hoje em dia eu penso em italiano :oP e o Pedro deve ter feito um malabarismo so pra melhorar meu texto :o)

    Bye!

  • 8 Nhé! // 7/February/2008 às 11:30

    Sabrina, tks!

  • 9 Jåµë§ ßønd™ // 7/February/2008 às 12:01

    -= A Itália, segundo o relato, não é muito diferente do Brasil em suas discrepâncias. Não a considero um país estranho, sendo mais específico.

    – X –

    É como nivelar o Brasil pelo eixo Rio-São Paulo.

  • 10 Mr X // 7/February/2008 às 12:26

    A Itália se unificou a bem pouco tempo, com o Garibaldi, e é possível que se subdivida de novo em pouco tempo também. Não acho os italianos racistas, são até esterófilos, quer dizer, tem de tudo, né? Mas ao menos o pessoal do Sul é bem aberto, dizem que no Norte não gostam nem do pessoal do Sul, quanto mais dos estrangeiros.

  • 11 Thiago Azevedo // 7/February/2008 às 12:29

    Esses textos são interessantes! Sempre trazem idéias novas sobre os lugares!
    Concordo com o Nhé!, acabou de forma abrupta! Podia ter mais! :)
    Valeu Sabrina!

  • 12 Nhé! // 7/February/2008 às 13:04

    Concorda com A Nhé!, Thiago!

  • 13 anrafel // 7/February/2008 às 14:03

    Sabrina,

    Pelo último parágrafo, conclui-se que o italiano é um gaúcho com uma culinária mais diversificada.

  • 14 Marcelo // 7/February/2008 às 14:14

    Olá,
    Aqui no Rio Grande do Sul, a quase totalidade dos imigrantes (minha famiglia inclusive) é originária do norte da Itália, não do sul, o que talvez seja o caso de São Paulo.

    Assim, mudar-se para uma pequena cidade colonizada por italianos aqui não é muito diferente, no que refere-se ao isolamento e desconfiança por parte dos habitantes locais.

  • 15 Sabrina // 7/February/2008 às 14:19

    Oi, Cecilia,
    os casamentos interraciais entre duas pessoas de mais ou menos a mesma idade estão se tornando cada dia mais freqüentes.

    O que era muito comum até um tempinho atrás era o homem (italiano) de idade que se casava com uma garota estrangeira, principalmente do Leste Europeu (o que tem de família que ele é da Emilia-Romagna e ela é rumena não tá no gibi).

    De uns tempos pra cá as coisas estão mudando. Um exemplo muito famoso é o da Fiona May, uma atleta (se não erro é uma saltadora) escuríssima que se casou com o treinador (branco branco que só); inclusive ela e sua filhinha são garotas-propaganda da Ferrero.

  • 16 confetti // 7/February/2008 às 14:25

    (sera que pax se mandou pra toscane com alguém ? até essa hora nem piou …..(

  • 17 Hugo Albuquerque // 7/February/2008 às 14:29

    Sabrina,

    Boa tarde e antes de mais nada, como vai a política por aí depois da queda do Prodi? O que se encaminha nesse cenário atual? O que poderá pintar?

  • 18 confetti // 7/February/2008 às 14:34

    salut hugo ! prodi faliu….napolitano parecendo barata tonta….walter veltroni seria uma opçao, mas so nas proximas eleiçoes….

  • 19 confetti // 7/February/2008 às 14:37

    ( sera que branca ta pescando taraira e nem pinta hoje ? ((

  • 20 confetti // 7/February/2008 às 14:38

    hugo desculpe a falta de educaçao, respondi no lugar da sabrina ! desculpe sabrina…:))

  • 21 Sabrina // 7/February/2008 às 14:41

    Oi, Hugo :o)

    Tá uma confusão, pra falar a verdade. Aliás, pensando bem, até que não.

    Tem que diga que Berlusconi volta ao poder (de novo…..), visto que ele consegue manter unida a coalizão da direita, ao contrário do pessoal da esquerda: quando teve o ataque ao Iraque ou Afeganistão (agora não me lembro qual dos dois), enquanto a direita fez um discurso condenando, a esquerda fez seis!!!! Ninguém é capaz de chegar em um consenso, mas por motivo nenhum.

    Já tem quem acha que essa é a chance que a esquerda moderada rompa de vez com a esquerda radical… E tem também aqueles que acham que é hora de chutar o balde e mandar todo o parlamento pra casa, e refazer tudo do zero.

    É esperar pra ver…. Eu, particularmente, estou de acordo com o terceiro grupo. ;o)

  • 22 Sabrina // 7/February/2008 às 14:42

    Esquenta não, confetti ;o)

  • 23 Hugo Albuquerque // 7/February/2008 às 14:58

    Obrigado Sabrina e valeu pela informação Confetti não precisa se desculpar não.

  • 24 Mr X // 7/February/2008 às 15:06

    Viva o Cavaliere Berlusconi! :-P

  • 25 Sabrina // 7/February/2008 às 15:12

    Piccino, ninguém leva em consideração que ele está cansado, coitado….

    É um sacrifício pra ele ter que tomar as rédeas do país, bem que ele disse que gostaria de se aposentar de vez e ir pra Arcore, ou pra villa megagalactica que ele construiu na Sardegna.

    T’hal dig me….. :o/

  • 26 confetti // 7/February/2008 às 15:12

    adoro a italia…

    http://www.extra-for-you.com/vip/images/uploads/pra218w-br3625_p.jpg

  • 27 rafael // 7/February/2008 às 15:37

    Tem uma história aí de que quando o Napoli conquistou o scudetto, uma das torcidas rivais (não lembro se do Norte ou de Roma) colocaram uma faixa: “Parabéns aos campeões africanos”.

  • 28 Marcos Araújo // 7/February/2008 às 16:39

    Sabrina: Seu relato é excelente, um prazer de leitura - parabéns! Deixou um gôsto de “quero-mais” na boca, pois termina assim de repente.

    No meu entender, a Itália se transforma - será? - num país de 3° mundo devido à incompetência inata de seus políticos - a maioria aliada da Máfia como unha na carne - à corrupçao e à dicotomia entre o Norte avançado e o Sul estagnado. Devido à baixíssima taxa de natalidade dos italianos, o envelhecimento rápido da populaçao, a corrupçao, a imigraçao sem freios (para compensar a baixa natalidade - quem fará o trabalho modesto ou sujo que o nativo educado nao quer fazer?) de pessoas de educaçao apenas básica, e a emigraçao de jovens italianos bem educados e treinados para os outros países da UE, como seu artigo tao bem ilustrou, nao há dúvida que o país continuará sua decadência bem mais rapidamente que se imagina.

  • 29 Sabrina // 7/February/2008 às 17:12

    Ciao, Marcos,

    vc tem razão em alguns pontos, quando fala sobre a decadência da Itália.

    É verdade, a classe política é considerada uma casta, onde todo mundo bastona todo mundo, mas na hora do vamos-ver todos tiram o deles da reta.

    A diferença entre Norte e Sul, infelizmente, uma parte é ranço da monarquia dos Savoia, pois desde quando teve a unificação da Itália ninguém teve a mínima vontade política de ir no Sul dar uma mão pra população se levantar (ou ao menos tentar se levantar). O único que fez alguma coisa foi Benito Mussolini (ao menos é o que diz o livro de História :oP) ao bonificar uma parte da Calábria, que era malárica. Só que por outro lado é também mentalidade do pessoal do Sul, e um exemplo é a crise do lixo: são ao menos 10 anos que em Napoli sabem que a batata estava assando; por que ninguém fez nada? E não falo só da classe política, mas também cada um poderia ter feito um esforço (manja a crise do apagão? Pois é, ninguém esperava que o brasileiro ia se comportar como se comportou).

    Sobre a imigração sem freios, eu sou obrigada a discordar de vc. Não é verdade que só imigram pessoas de baixa cultura. Outro dia mesmo, eu estava num ponto de ônibus pra ir pra escola, quando encontro um senhor que ia pra mesma direção. Papo vai, papo vem, descubro que ele, pedreiro em Modena, é um advogado somaliano, que era coronel do exército. Um cara que, detrás de um sotaque forte, esbanjava um poço de cultura.
    O problema do imigrante é que fora daqui a Europa é pintada como o novo Eldorado. Sem contar que países como a Albânia até ontem era um protetorado italiano, e quando estourou a guerra dos Balcãs, alé!, vamos abrir as portas indiscriminadamente pros refugiados. E deu no que deu, o triste espetáculo dos navios abarrotados de gente. Acho que nem meus avós, quando foram pro Brasil, fizeram uma viagem daquele tipo.

    E, olha, ao contrário do que querem fazer o resto do mundo acreditar: não teve nenhuma “invasão” dos roms aqui. Simplesmente, quando a Romênia entrou na União Européia, automaticamente ela passou a fazer parte do Tratado de Schengen. Nem tinha acabado de assinar a papelada que França, Alemanha e companhia instauraram uma moratória contra a Romênia, não permitindo o livre trânsito dos roms nos próprios territórios. Já a Itália, tutta bravissima gente, alé!, vamos dar livre acesso incondicionado. Conclusão: um choque cultural fortíssimo, e animosidade dos dois lados.

    Quando a gente fala sobre a baixíssima taxa de natalidade dos italianos, realmente, é raro ver crianças aqui, a ponto que eu, brazuca que cresceu no Braza por 22 anos, hoje em dia eu me surpreendo ao ver a molecada quando vou visitar minha família. Acontece que, primeiro, se trabalha muito nesse país, é impressionante. Segundo, é caríssimo manter uma criança: outro dia eu estava vendo uma reportagem, e tinha uma família que eram pai, mãe e dois filhos. Pra manter os meninos se gastava, em média, 700 euro por mês só de escolinha. Aí vc adiciona comida, roupa, médico, remédio, fralda, celular quando faz 10 anos, scooter quando faz 14 anos, carta de motorista quando faz 18… :o) Tirando a brincadeira, é uma coisa de louco manter um neném, e, infelizmente, não tem nenhuma ajuda do governo.

    Aliás, mais eu passo o tempo aqui, e mais eu acredito que o governo italiano quer mais que o povo se lasque…

    Bye.

  • 30 Lidiane // 7/February/2008 às 17:35

    Sabrina,

    Adorei seu texto, na verdade me interesso por tudo que diz respeito a Itália.
    Eu trabalho em uma empresa italiana, por isso já fui várias vezes à Itália. Confesso que no início tinha um pouco de preconceito em ter que aprender a lingua, mas depois que comecei a estudar, conhecer a cultura e as pessoas de lá, me apaixonei por tudo!
    Conheço melhor o norte, mais precisamente a região de Piemonte, que é maravilhosa. Paisagens e sabores que nunca vi em outro lugar.
    A cada esquina uma história, uma estátua, um castelo.
    As pessoas são como você falou, muito reservadas, mas depois que te conhecem um pouco mais, são muito amigas e acolhedoras. Você descobre que é querido quando te convidam para um jantar em casa e aí, prepare-se mesmo porque eles gostam de mostrar a culura regional e nos servem todos os pratos tipicos. É um espetáculo gastronomico e cultural!
    Eu falo italiano, mas sempre tenho dificuldade de conversar lá. Hoje arranho um pouco de piamontês (que mistura um pouco o italiano com francês) mas as pessoas do sul, principalmente, falam com sotaque muito carregado. Nestas horas, mesmo falando bem o italiano tenho que apelar pro inglês mesmo. rsrs

    Grazie mille ragazza e stato un piacere!!

  • 31 Sabrina // 7/February/2008 às 17:45

    Ciao, Lidiane :o)

    É verdade, no começo eu fiquei malissimo por causa do choque cultural. Não conhecia a língua, o modo de pensar, como me relacionar com o próximo aqui. Graças a Deus tive a ajuda preciosíssima de meu marido. que me guiou nos meus primeiros passos. Costumo dizer que aqui eu tive a minha segunda infância, e agora parece que estou saindo da segunda adolescência.

    Você tem sorte de ter aprendido o dialeto! Imagina que eu resolvi deixar pra lá, porque entre rivergarese (o dialeto falado em Rivergaro, uma cidadezinha de Piacenza onde nasceu o meu amore), romano (onde a mamma do meu amore foi criada), barese (dialeto de Bari, onde nasceu uma tia do meu amore), modenese (por causa de Modena, onde trabalho), nonantolano (dialeto de Nonantola, onde vivo), e os vários napoletano, lamentino, cosentino, reggiano, ecc ecc (eh, meus amigos vem de tudo o que é canto da Itália! :o) ), olha… melhor falar italiano mesmo, dai!

    Grazie a te, tesoro, il piacere è stato tutto mio!

  • 32 Marcos Araújo // 7/February/2008 às 17:52

    Sabrina, cara, muito obrigado por ter respondido e ainda com detalhes que expandem o texto afixado pelo Pedro Doria. Sem dúvida que você está bem antenada com a cultura e história italianas - bravo!

    Fico-lhe grato pelo exemplo do somaliano imigrante. É sempre bom nao generalizar (o meu caso) neste quesito. Todavia, no meu ver - e posso estar errado pois nao vivo aí - a maioria dos imigrantes nao sao como o somaliano do exemplo. Os roms certamente nao estao neste patamar. E muitos outros.

    Sim, a adoçao do euro encareceu a vida de muitos na Europa; o trôco deverá vir mais tarde e acho que já começou (França, o Sarkô vai quebrar os dentes, e nao demora). Sem dúvida que isto, além da vida corrida e agitada pra ganhar seu pao de cada dia, e a escassez de bons emprêgos, causam - e nao somente na Itália - uma natalidade baixa, e mesmo negativa. Só o Brasil me desmente aqui, mas Brasil é Brasil, né? Nao existe nada igual, e no 4° mundo já estamos, e vamos afundando ainda mais (as favelas engolirao tudo!, dixit Mike Davis).

    Quanto à classe política italina, nenhuma diferença com a do Brasil. Tem mesmo é que tocar fogo e enviar as cinzas pra Plutao. Senao, quem sabe essa praga nao renasce das cinzas como a Fênix da lenda grega?

  • 33 Sabrina // 7/February/2008 às 18:08

    Mah, Marcos, sei não, sobre o euro, viu? Eu estou tendo a belíssima oportunidade de ir pra França de vez em quando a trabalho, e te digo, a vida lá já era cara na época do franco.

    O que encareceu a vida, ao menos aqui, foi que primeiro no momento de transição lira-euro não teve nenhum organismo que fiscalizasse corretamente a remarcação dos preços, com a conclusão que: ou coisas que valiam 1000 liras passaram a custar 1 euro ou trocavam 2000 liras por 1 euro (vale lembrar que a cotação do euro é 1936,27 liras). Vc não imagina a zona que virou, e numa dessas, por incrível que pareça, agradeço a Deus por ter vivido a época da moeda instável no Brasil; ao menos pra mim a mudança de moeda não foi tão traumática :oP

    Em segundo lugar, uma parte do boom econômico italiano foi devido ao fato que, quando as exportações iam pra baixo de uma certa porcentagem, a equipe econômica desvalorizava a moeda, fazendo com que entrasse dinheiro de fora pra cá. Tem gente mesmo que lembra daquela época, que várias vezes, no verão, desvalorizavam a lira em razão do marco alemão, pra atrair turistas pra cá. Uma coisa do tipo dá pra fazer enquanto é um país só, com 50 milhões de pessoas, mais ou menos. Mas e quando são 13 países (e loguim loguim vai subir pra 15), com 300 e passa milhões de habitantes? Se um só pensa de querer pensar de aprontar uma coisa dessas vem França e Alemanha descer o cacete.

    Ainda por cima falamos de um país onde não existem incentivos pra pesquisa e desenvolvimento, um país onde o industrial primeiro pensa de comprar o SUV do ano e fazer o casamento principesco da filha pra depois, se precisa meeeesmo, investe em equipamentos e capacitação de mão de obra.

    Posso ser uma voz fora do coro, mas vendo como vão as coisas aqui, a minha esperança em um futuro luminoso pro Brasil cresce, porque, aos trancos e barrancos, alguma coisa está mudando. Estive aí no natal passado, e sopra um vento de desenvolvimento em casa.

    Mah… talvez estou vendo meu país através das lentes da saudade, quiçá….. :o)

  • 34 confetti // 7/February/2008 às 18:25

    vincenzo licciardi dançou…..

  • 35 Alba // 7/February/2008 às 19:01

    Sabrina,

    Belo Texto! Como vários disseram, deixa um gosto de “quero mais”. E a Itália sempre me foi simpática, porque pra quem viveu a maior parte da vida em São Paulo, todo mundo é um tanto italiano, até aqueles que não têm nenhuma ascendência..:))

    Li, há dois dias, que alguns países europeus, não lenbro se a Itália estava incluída, estabeleceram incentivos à natalidade, como a concessão de licenças maternidade e paternidade, que pode chegar até a meio ano em alguns casos.

    E, uns anos atrás, lembro até de ter usado com alunos uma reportagem que falava de uma cidadezinha do sul, em que a prefeitura se prontificava a pagar todas as despesas para as moças que engravidassem e se dispusessem a criar o filho lá até os 7 anos. Sabe alguma coisa a respeito?

    E, parabéns! Você realmente acompanha o que acontece por aí! :))

  • 36 Marcos Araújo // 7/February/2008 às 20:28

    Sabrina: Mais uma vez, obrigado. 3° e 4° parágrafos de sua resposta acima: Você tem razao de cabo a rabo. Esperemos, como leu e comentou a Alba, que a Itália faça algo para enfrentar esta baixa natalidade, especialmente no que toca incentivos para ter filhos: licenças e alguma ajuda até os 18 anos, com fazem alguns poucos países, tal o Canadá e países escandinavos, também com baixa, porém ainda aceitável, taxa de natalidade.

    Abraço, saúde e boa sorte!

  • 37 Ieda // 7/February/2008 às 21:52

    Ciao, Sabrina

    Foi uma experiência deliciosa ler o seu texto. O que me surpreendeu foi encontrar nele tantos detalhes curiosos e inquietantes, o exotismo de uma Itália que me parecia tão familiar.

    E parabéns, PD.. curto demais essa quinta-feira com textos tão bem editados.

  • 38 proftel // 7/February/2008 às 22:17

    Sabrina, belo texto e respostas.
    Uma ex professora minha da graduação morou aí uns 10 anos, o marido é italiano, muito do que você falou já sabia.
    É por aí.

    Blz.

    :-)

  • 39 Theo // 8/February/2008 às 0:04

    Sabrina,

    Muito bom o texto, sempre gostei da itália.

  • 40 Paulo. // 8/February/2008 às 7:28

    Sabrina, bom dia.
    Difícil arrumar namorado?
    Como fica a demonstração de afetivadade em público?
    Italianos gostam de uma coisa errada? Como fugir da vigilância pública?
    Fale da garotada, dos sonhos dos adolescentes, das frustrações.
    Qual o sonho comum?
    O último a sair apague a luz do aeroporto?
    Te achei triste nas entrelinhas.

  • 41 Sabrina // 8/February/2008 às 11:38

    Oi, Paulo :o)

    Xiiii, bicho, agora vc me pegou! Sabe que não tenho idéia se é fácil ou não arrumar namorado aqui? Te explico: quando me mudei pra cá eu já estava noiva do meu marido ;o)

    Em relação à afetividade, a garotada daqui é parecida com a daí, inclusive estão aprendendo a ficar (mas aqui eles dizem sbacciucchiare, dar beijinho). A propósito de garotada, os que eu conheço são muito passivos em relação à vida, tenho a sensação que, porque hoje em dia a gente tropeça na informação, eles não têm curiosidade. Junte uma estrutura familiar hiper-protetora (a média de filhos por casal é 1,alguma coisa) e o que sai é uma geração que tem quase nenhuma vontade de sair do próprio status quo.

    Verdade que vc me achou triste? :o) Não é tristeza, é saudade de casa. Só isso.

    Bye.

  • 42 Sabrina // 8/February/2008 às 11:47

    Ciao, Alba,

    algumas políticas de auxílio à natalidade existem, de fato. Por exemplo, a licença maternidade é, no início 5 meses, e as mães de filhos pequenos podem exigir a redução da carga horária (no caso vale a pena também pros empregadores, porque se não me falha a memória eles têm descontos nos impostos). Têm casos que a licença de 5 meses passa pra 1 ano.

    O problema é incentivar a maternidade. Eu me lembro de um ano que pra cada bebê que nascia, a família recebia um cheque de 1000 euro, parcela única. Tá, e daí? Dá pra manter o neném por uns dois, três meses, e depois? :oD

    Bye!

  • 43 Sabrina // 8/February/2008 às 11:56

    Oi, MrX,

    o que os italianos não conseguem (ou não querem) entender é que a Itália católica já deixou de existir faz tempo, desde quando tiraram o crime de vilipêndio à religião do estado.

    A Itália é uma república leiga, e leiga deve ser. Quando critico a corja de Calderoli é porque, como brasileira, e portanto filha de um país de imigrantes, eu sou absolutamente convencida que todos têm os mesmos direitos e deveres. E um dos direitos universais é ter um cantinho onde professar a própria fé. E no norte, infelizmente, tá cheio de gente que acha que o estrangeiro só tem o direito de trabalhar, trabalhar, trabalhar e não querer nada em troca.

    Eu me lembro de uma senhora, amiga de minha sogra, que reclamava de uma enfermeira que cuidava da mãe dela. Essa senhora, do Leste Europeu, no começo trabalhava informalmente, então tinha só o salário e um dia livre por semana. Aí passou uma lei que anistiava os empregadores informais: só tinham que registrar os empregados e, no caso daqueles que precisavam regularizar o visto, tinham que providenciar toda a papelada.

    Conclusão: a mulher regularizou essa enfermeira, que começou a ter direito a outras coisas além do salário, como as férias. Pecado que pra essa amiga da minha sogra era uma afronta que a enfermeira as exigisse.

    Isso também é a Itália.

    Fui.

  • 44 Alba // 8/February/2008 às 23:32

    Sabrina,

    Obrigada pela resposta.

    De fato, criar filho não é essa moleza e 1000 euros em parcela única, é mesmo muito insuficiente.

    Dia desses, vi um filme na TV por assinatura chamado “como você faria?” ou uma variante disso, realmente não lembro o título.

    Mas a história é a de um menino, filho único, no que parece ser o caso da Itália, assim como o de outros países europeus , que vai velejar com o pai e cai no mar, no meio de uma tempestade.

    Aí, perto de morrer, é socorrido por caras que pilotam um navio cheio de imigrantes ilegais. Sentindo a pressão, se faz passar por romeno e faz amizade com uma dupla de irmãos.

    Interessantíssimo,só não conto o resto porque cinema a gente tem que ver!

  • 45 Sabrina // 9/February/2008 às 8:24

    Oi, Alba,

    quando vc falou sobre esse filme me lembrei de um episódio que aconteceu aqui no verão passado, e que, na minha modestíssima opinião, ilustra bem a direção que está seguindo o norte desse país.

    Ecco, tinha um casal originário do Vêneto, que tinha ido passar as férias na praia. Aconteceu que os filhos desse casal foram pra água e de repente começaram a se afogar. A praia tava cheia de gente, mas ninguém se mexeu pra ajudar esses meninos.

    Só duas pessoas foram lá salvar as crianças: um marroquino e um bosníaco. O bosníaco conseguiu ajudar a tirar os meninos da água, mas acabou morrendo. Pecado que, quando os pais dos garotos viram que os filhos tinham se salvado, foram embora sem nem saber se o rapaz morreu ou não.

    Triste, triste….

  • 46 Alba // 9/February/2008 às 11:31

    Que história terrível, Sabrina!

    É mesmo de preocupar quando as pessoas alcançam esse grau de insensibilidade…

  • 47 Eu Aqui // 14/April/2008 às 14:34

    Moro na Itália a 8 meses. Na Toscana, uma regiao cultural e economicamente bastante desenvolvida.
    A Itália é realmente um belo país, com uma história maravilhosa! Conhecer Roselle com restos da civilizaçao etrusca e suas construçoes de 2600 anos foi uma emoçao indescritível. A comida daqui é maravilhosamente saborosa. Me apaixonei pela comida italiana e pela forma como eles encaram a cozinha.
    Porem viver aqui como imigrante é muito duro. Além das saudades natural que sentimos de casa eu que moro numa cidadezinha pequena chamada Grosseto sofro constantemente com o racismo e o preconceito, minhas histórias sao tao escandalosas que quando conto ninguem acredita.
    Berlusconi, Bossi e sua corja da Lega Nord me dao crises alérgica.
    Fiz um ano de curso para chegar aqui falando e, graças a Deus, o dialeto aqui é quase inexistente. Mas eu sou imigrante ilegal, estou em nero, logo os trabalhos que encontro aqui sao só os restos dos restos: Aqueles que os nativos nao fazem e que os imigrados da uniao europeia rejeitam.
    Por conta disso vivo em defesa (o que me transformou em alguem que ataca com muita facilidade)
    Parabéns pelo post belo e doce.
    Estou numa busca desenfreada pela pessoa que eu fui, doce e tranquila. Ler o que vc escreveu me fez um tremendo bem.

  • 48 Sabrina // 19/June/2008 às 9:45

    Oi, fofa,
    o começo é duro, mesmo, lembro que chorei por 6 meses quando cheguei aqui. Eu ao menos tive o apoio do Paolo, meu marido, não consigo imaginar como teria sido sem ele.

    Posso só te dizer que vc vai sair dessa e vai se re-encontrar. :)

    Um beijão enorme.

  • 49 Willy // 10/August/2008 às 20:24

    Oi Sabrina…gostaria de saber qual comparar a gastronomia do norte e do sul da italia, levando em consideração as carascteristicas: espaço geográfico, clima, poder economia e nestas duas regiaões(norte e sul)…

  • 50 Willy // 10/August/2008 às 20:24

    Oi Sabrina…gostaria de saber qual comparar a gastronomia do norte e do sul da italia, levando em consideração as carascteristicas: espaço geográfico, clima, poder economia e nestas duas regiaões(norte e sul)… Obrigado. W.

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