O mundo visto pelos leitores: Itália

Depoimentos · 7/02/2008 - 10h38 - 51 Comentários

Por Sabrina

Modena é uma bela cidadezinha medieval encravada no coração da Bassa Padana (uma parte da Planície Padana) que dista 40 quilômetros de Bologna, capital da região Emilia Romagna. É uma das melhores cidades do norte italiano para viver quando se é estrangeiro: existem várias iniciativas visando a integração entre italianos e estrangeiros, como festas étnicas e círculos de amizade. Talvez sejam mais abertos por conta das indústrias automobilísticas da região, que contratam no exterior. A Lamborghini fica a 10 quilômetros de onde moro; a Maserati, a 14.

Tanto a comunidade islâmica quanto a sul-americana são grandes no norte da Itália. Em Modena, vivem principalmente os norte-africanos (Marrocos e Líbia) e, vindos da América do Sul, peruanos e venezuelanos. Brasileiros são raros. (Estes vivem principalmente em Piacenza, província que faz fronteira com a Lombardia, outra região do norte.)

Uma parte dos políticos tentam fazer da vida dos estrangeiros, principalmente dos muçulmanos, um inferno. No último governo, de direita, era até pior, por causa da coalizão entre o Forza Italia, partido do magnata Silvio Berlusconi, a Lega Nord, partido separatista chefiado por Umberto Bossi e a Alleanza Nazionale, um partido filo-fascista. Para se ter uma idéia da corja: uma vez tentaram abrir uma mesquita em Lodi (província da Lombardia), e, para impedí-lo, um expoente da Lega Nord, Roberto Calderoli, regou o terreno da mesquita com urina de porco. Tornou o local impuro.

Por outro lado, a comida é ótima, os amigos são verdadeiros.

Se você foi convidado para o almoço numa casa italiana, prepare-se pra comer bem e bastante, pois aqui tem o costume do primo, secondo, contorno, às vezes incluindo o antipasto, ou entrada. O primo (ou prato principal) normalmente é pasta ou risoto. O secondo é carne (aqui se come, além da carne de vaca e de frango, também faisão, cervo, cordeiro, avestruz, cavalo), peixe (salmão, atum, merluza, bacalhau, sardinha). E o contorno normalmente é verdura cozida.

Os italianos têm muito ciúme da sua culinária, pois é o traço principal da própria cultura. É uma forma de eles se reconhecerem. Apesar da unificação da Itália no fim do século 19, o povo não se sente ‘italiano’. Primeiro se sentem parte da cidadezinha onde nasceram, depois da província e, se sobrar espaço, da Itália. Um italiano que se sente cidadão da Europa e depois do mundo é raro. Para chegar a esse ponto, precisa se despir da própria mentalidade moglie e buoi dei paesi tuoi (traduzindo, ‘tanto a esposa quanto o rebanho devem vir de sua cidade’). Pela experiência que estou acumulando, abrir mão disso parece ser doloroso.

Já sobre os amigos verdadeiros, é lenda que todos eles sejam festeiros e barulhentos como aqueles que a gente vê no Brasil. É que estamos acostumados com os imigrantes que vieram do sul. No norte é diferente. O italiano do norte é meio fechadão, demora a dar confiança: se, como no meu caso, você vai para uma cidade pequena, com três ou quatro mil habitantes, pode se preparar pra se sentir um estranho no ninho. Mas, passado o primeiro susto, quando se acostumam a você, quando vêem que você não veio atrapalhar, aí tudo muda. Por trás da casca da desconfiança (e, às vezes, um tiquinho de arrogância) existe um povo muito gente fina, que se pode ajuda no que for preciso e, se não pode, ao menos fica junto para gritar ’socorro’.

O país é lindo, mas lindo de morrer. Onde você vai, encontra construções maravilhosas, antiqüíssimas e, pasme, bem conservadas, apesar de alguns casos de vandalismo aqui e ali. (No último que se tem notícia, jogaram tinta vermelha nas águas da Fontana de Trevi, em Roma). É também um lugar com a taxa de natalidade baixíssima, uma das menores (se não for a menor) da Europa. Quando uma criança nasce, costumam colocar na porta de casa um adereço, normalmente um laçarote, que avisa do sexo: azul pros meninos, rosa pras meninas. Imagino que seja uma espécie de anúncio à comunidade de que chegou um novo componente à família.

Já a expectativa de vida é altíssima: não é raro encontrar pessoas com quase 100 anos. Para estes idosos, a saúde pública funciona. Costumam estar todos muito bem.

O mercado de trabalho é um caos. Ter emprego fixo é difícil, dependendo do cargo quase impossível. Não é como no Brasil, quando pedem pessoas com experiência e fica difícil para os jovens. Aqui, mesmo os capacitadíssimos têm dificuldades de emprego a não ser que alguém os indique. Trabalha-se muito e o tempo livre é curto. A isso se soma uma carga tributária que equivale ao que se ganha em seis meses de trabalho. Todo mundo tenta sonegar o máximo possível de impostos, até porque ninguém tem a sensação que essas taxas estão sendo reinvestidas no bem estar da população.

Serviços, como telefone e internet de banda larga, são loteria. Às vezes acontece de o pedido de uma nova linha cair nas mãos de alguém capacitado. Aí você é atendido. O duro é quando aparece um incapaz. Brigar por um serviço decente, a ponto de botar na Justiça a companhia telefônica, é freqüente. Mas tecnologia é barato. Tão barato que, às vezes, temos a impressão que num futuro próximo começaremos a comer silício no almoço.

Mas a Itália está se transformando em país do terceiro mundo. Pouco investimento em áreas estratégicas, os jovens têm pouca esperança no futuro, a emigração de gente capacitada é alta.

Quem fala italiano são os jovens e os idosos muito cultos. Para o resto, o que sobra é o dialeto – e cada cidade tem o seu. Mesmo quando duas cidades distam 5 ou 10 quilômetros uma da outra, os dois dialetos serão diferentes, ao menos na pronúncia. Não é raro, quando se conversa com alguém menos culto, que o papo comece em italiano e passado um tempo comece a sair em dialeto. (O emiliano-romagnolo, nome genérico dos dialetos da região, é reconhecido pela Unesco como língua minoritária.)

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