Por Obama e por McCain

EUA · 4/02/2008 - 08h58 - 156 Comentários

Em 2000, João Moreira Salles argumentou na falecida NO.com.br que a eleição presidencial norte-americana é tão importante que todo mundo devia ter o direito de votar. (E ele nem desconfiava que resultados trariam ao mundo a presidência de George W. Bush.)

O mundo, evidentemente, não vota nas eleições norte-americanas. Mas não será um detalhe destes que negará a este Weblog o direito de seguir outra tradição norte-americana: o de declarar ‘voto’ em cada uma das bandas desta disputa.

Barack Obama é o melhor candidato democrata à presidência dos EUA. O próximo governo norte-americano terá dois desafios particularmente difíceis. O primeiro, de reparar sua imagem no exterior. O segundo, de trazer união ao país. Um presidente mulato chamado Barack Hussein Obama mostrará a jovens em todo o terceiro mundo um rosto diverso daquele com o qual estão habituados na Casa Branca: um rosto que representa a diversidade cultural e racial do país. Símbolos são importantes, como bem o perceberam Ronald Reagan e John Kennedy em seus tempos. Aliado a isto, deve-se levar em conta o carisma de Obama. Ele é simpático demais e já deixou claro que porá a negociação diplomática à frente de sua política externa.

Esta capacidade diplomática será também muito útil internamente. O país está rachado já há muitas décadas: a década de 1960 produziu um vácuo cultural e dele um choque de valores entre liberais e conservadores. Nos pontos extremos, talvez jamais se toquem. Mas o número de gente que se localiza confortavelmente no centro do espectro político precisa crescer. Os EUA são um país de centro. A maior qualidade de Obama, neste sentido, é que será um presidente pós-60. Não precisa mais disputar e argumentar as batalhas passadas; as do presente já são duras o suficiente. Sua maior qualidade, aí, é que ele não é Hillary Clinton. A ex-primeira dama atrai emoções que vão do ódio à desconfiança por parte de norte-americanos demais. Talvez seja injusto, mas estes são os fatos. Hillary não unirá o país. Certamente seria uma presidente melhor do que George W. Bush, mas é preciso mais do que isso. Outro chefe de governo polarizante trará instabilidade para os EUA e, portanto, para o mundo.

Um argumento final: Barack Obama é corajoso politicamente. Hillary Clinton não é. Ela é capaz de votar a favor de uma guerra só por conta do cálculo político. O tempo exige coragem.

John McCain é o melhor candidato republicano à presidência dos EUA. E o argumento começa pelo mesmo que encerra a defesa de Barack Obama. McCain é corajoso. É capaz de defender uma guerra profundamente impopular mesmo quando os eleitores já se puseram contra ela. É um candidato do Partido Republicano, portanto não adianta entrar no mérito da defesa da guerra. Eles todos a defendem. Mas importa a condução da guerra. McCain é o senador republicano que se destacou na condenação à tortura.

A essa coragem política, incluam-se integridade e honestidade. McCain foi, em 2000, o primeiro político vitimado pela máquina de propaganda mentirosa construída para destruir a imagem de adversários por Karl Rove para o então candidato George W. Bush. Aquela primária, ele perdeu. É uma questão de justiça histórica que vença esta. Ele teria sido um presidente muito mais capaz de enfrentar as muitas crises que o Onze de Setembro criou. Como ex-militar, como ex-prisioneiro de guerra do Vietcongue, como ex-vítima de tortura e da ausência de leis, teria tido respeito pelo sacrifício de soldados e de civis. Estaria atento à importância da construção de alianças políticas. Num governo McCain, dificilmente haveria Guantánamo.

Ele não foi presidente e, numa eleição tão difícil para qualquer candidato republicano, talvez jamais venha a ser. Com McCain, pode-se esperar uma eleição honestamente lutada.

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