John McCain: enfim um favorito no pleito dos EUA

EUA · 30/01/2008 - 08h38 - 47 Comentários

Com as primária da Flórida de ontem é possível dizer, enfim, que há um favorito na disputa pela candidatura de um dos partidos: é o senador republicano John McCain. McCain é favorito por três motivos.

O primeiro é que, no Partido Republicano, o vencedor leva todos os delegados em vários estados. A Flórida é um deles. A vitória pode ter sido apertada – 36% contra 31% – mas, para o veterano senador do Arizona, valeu muitos votos na Convenção Nacional.

A segunda questão é que Mitt Romney, seu principal concorrente, gastou em campanha na Flórida oito vezes mais do que McCain. Romney é um homem rico e McCain, cuja campanha depende de doações, estava nas bicas de ficar sem dinheiro. Se, mesmo com este gasto desproporcional, Romney perdeu, é porque não há dúvidas de para que lado se inclinam os republicanos. Além do mais, com esta vitória as doações para John McCain já estão voltando e ele estará bem financiado para a Super Duper Terça-Feira.

Por fim, a Flórida foi o primeiro estado no qual McCain venceu exclusivamente com votos republicanos. Em outros estados, mesmo quem não é afiliado ao partido tem direito de votar e havia quem sugerisse que, sendo liberal demais, McCain atraía eleitores independentes mas não gente de seu partido. A Flórida desmentiu essa teoria.

Ainda há muita disputa em jogo. Mas McCain é favorito em vários estados muito grandes que concedem ao vencedor todos os delegados, casos de Califórnia e Nova York. A próxima terça-feira, quando 24 estados da União realizam suas prévias, deve consolidar sua liderança. Se é possível sair derrotado? Claro que sim. Ficou difícil.

John McCain é favorito a sair candidato à presidência dos EUA.

Para os democratas, ele é um candidato perigoso. Não é um homem profundamente conservador que cederá em todas suas exigências à direita religiosa. Isso atrai eleitores independentes no centro e, em alguns casos, até mesmo democratas. McCain, diga-se, no distante ano 2000, foi a primeira vítima, ainda nas prévias republicanas, das táticas eleitorais sujas da campanha de George W. Bush.

Outra imensa qualidade de John McCain é sua franqueza. Ele é simpático a um projeto de anistia para imigrantes ilegais, causa que divide com muitos democratas, mesmo consciente de que o eleitorado republicano não quer nem ouvir tal idéia. Com passado militar, ex-prisioneiro do Vietcongue, ele se mantém favorável à permanência das tropas norte-americanas no Iraque. É outra posição que, hoje, é extremamente impopular para uma grande parcela da população.

Apenas franqueza não vence eleições. Mas este é o Partido Republicano de George W. Bush. Um homem íntegro como John McCain faz, neste cenário, uma imensa diferença. Ele é alguém em quem não republicanos cogitam votar e há pelo menos dois cenários que podem levá-lo à vitória.

O primeiro é que algum acontecimento imprevisto faça com que a população norte-americana volte a ver com bons olhos a intervenção no Iraque.

O segundo é caso Hillary Clinton seja escolhida a candidata democrata. Hillary é tão odiada pela base eleitoral mais conservadora do Partido Republicano quanto Bush é pela base do Democrata. Não quer dizer que isto vá acontecer, mas ódio é coisa que não se mede. Então seria assim:

A dificuldade que McCain tem, numa eleição geral, é atrair os votos dos eleitores da direita religiosa e dos setores mais conservadores da sociedade. São eleitores que, por hábito, não costumam votar sempre. Em duas eleições presidenciais muito apertadas, saíram às urnas para levar George W. Bush à presidência. E, cumprindo o que este naco do povo esperava dele, Bush sempre que pôde impediu experimentos científicos com células tronco embrionárias, propôs emendas para tornar inconstitucional o casamento gay e por aí afora. McCain não faria nada disso mas precisa mobilizar estes mesmos eleitores. A única chance que tem de fazê-lo é, mesmo incapaz de inspirar essa gente, pode apresentar uma vitória de Clinton como um pesadelo. (E, para este eleitor, seria mesmo.) O voto anti-Clinton poderia conceder-lhe uma vitória.

Mas nada é tão simples. A Guerra do Iraque é terrivelmente malvista e isso afasta de McCain muitos eleitores ao centro. Ele é franco e suas posições políticas estão distantes demais da direita profunda. Mesmo que odeiem Clinton, ainda é uma tarefa hercúlea transformar tal ódio em votos para McCain.

Esta, no entanto, é conversa para o segundo semestre, quando a campanha presidencial estiver em pleno curso. Hoje, há um favorito na corrida pela candidatura republicana. É o senador John McCain.

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