Cheguei do trabalho, trabalhava na Editora Delta, era assessor econômico para projetos industriais, jantei rápido. O clima no centro do Rio estava super-pesado; rumores que tinha gente sendo presa, deputados dizendo que o “governo ia reagir” contra a derrota que sofrera no pedido de licença para processar o Marcito. Papai tinha comprado uma tv pequena (era 68: portanto, tv em preto-e-branco) onde assistíamos ao jornal. Bate 8 e meia. Entra no ar o Gaminha, ministro da justiça, com as desculpas esfarrapadas habituais do governo, e aí aparece o Alberto Cury, locutor oficial, vomitando sobre nós o horror ditatorial do Ato 5.
Memórias paternas de como foi 1968: Parte 1, Parte 2 e outras virão.






41 Comentários até agora ↓
1 Pedro Doria // 28/January/2008 às 10:09
Ricardo Anselmo: te peço que republique sua pergunta no Open thread, onde o assunto é livre, acima.
2 Rachel // 28/January/2008 às 10:11
Então o primeiro comment é meu?!
IUUUUPI!!!
E… bom assunto. Ótimo assunto.
3 confetti, uma carioca // 28/January/2008 às 10:12
fala rach ! guardando meu lugar ? :))
alo pd
4 Rachel // 28/January/2008 às 10:26
CONFETTI!!!!!!
FINALLY! Sentindo mto a sua falta, menina…
5 confetti, uma carioca voltando pro inverno europeu // 28/January/2008 às 10:28
vem me ver no riodeja rach, tou aqui ! :)))
alias, onde vc mora ?
6 Rachel // 28/January/2008 às 10:37
ahueahueae tô longe, Confetti, tô no interior de SP, em São Carlos.
Tentando - sem conseguir, infelizmente - impedir que meu chefe me enlouqueça.
E até qdo vc fica por aqui?!
7 Rachel // 28/January/2008 às 10:37
PD, desculpe, isso é assunto para o Open Thread, desculpe.
Vamos para lá, Confetti..
8 Darwinista // 28/January/2008 às 10:50
Pois é, 1968 não terminou mesmo. E ainda bem! Vou aguardar e acompanhar ansioso os relatos do Dorião. Valeu pela dica, PD.
9 Rachel // 28/January/2008 às 10:57
Como assim, ‘68 não terminou’??
Tipo de expressão q eu não entendo. Será q pq não estava viva em 68??
10 Darwinista // 28/January/2008 às 11:07
Rach,
Essa expressão vem de um livro: “1968 - O ano que não terminou”. Olha a resenha dele aqui:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=1372297&sid=00211982091126465825431325&k5=3477DB43&uid=
11 Alba // 28/January/2008 às 11:16
Superinteressantes as memórias do seu pai, PD!
Pois é, essa coisa do ano que não terminou, suponho que venha do livro do Zuenir Ventura, que traz dados interessantes como os relatórios da CIA sobre a situação política do momento e aquele diálogo inesquecível que precedeu a assinatura do AI5, como a fala do Jarbas Passarinho recomendando mandar “às favas, os escrúpulos de consciência, sr. presidente!”.
Mas o tom geral do livro, me pareceu frívolo demais, de alguma forma. É verdade que o pretexto para a assinatura do AI5 foi aquele pronunciamento do Márcio Moreira Alves, pedindo às esposas dos oficiais que fizessem greve de sexo e classificando os quartéis como “valhacouto”. O que era engraçado passou a ser pretexto para o sinistro..
12 Elias // 28/January/2008 às 11:24
“Às favas, senhor presidente, com os escrúpulos de consciência.”
Com uma frase curta, contrariando seu estilo, Jarbas Passarinho cunhou o melhor subtítulo para o ano que não acabou.
É bem verdade que, de lá pra cá, o Brasil jamais sofreu por falta de gente que manda às favas os escrúpulos de consciência e de gente que nem sabe o que é isso.
13 Elias // 28/January/2008 às 11:29
Alba,
O Márcio Moreira Alves fez pior.
Além de pedir que as esposas dos militares deixassem de fazer sexo com os maridos, ele também recomendou que, nas festas, as moças se recusassem a dançar com militares.
Aí o regime concluiu rápido: perigoso subversivo, comunista, lacaio de Moscou!
14 Alba // 28/January/2008 às 11:33
Putz, Elias, é verdade! rindo…
Sujeito perigosissíssimo!
15 Chesterton // 28/January/2008 às 11:58
naquela época havia respeito…
16 Será? // 28/January/2008 às 12:06
Havia respeito, sim. Ou se ‘respeitava’ o ditador de plantãO (ou mesmo um sabujo qualquer) ou caía no cacete…
17 Elias // 28/January/2008 às 12:17
O Chesterton apreciaria muito (ou apreciou, sei lá…), viver naquela época.
Havia um cara na tevê chamado Imoral Neto (ou Amoral Nato), que adorava dedurar.
Era uma espécie de Olavo de Carvalho sem veleidades intelectuais. Ia direto ao ponto, vendo conspirações comunistas nos próprios fundilhos.
Nos quartéis, a milicada se deleitava. Se bem que, entre a média oficialidade, também se cultivava um discreto, porém sólido, desprezo por essas vivandeiras. Pra ser mais exato, não era desprezo. Era nojo mesmo.
18 anrafel // 28/January/2008 às 12:28
Elias, o “teu” Jarbas Passarinho era uma vivandeira híbrida, já que era coronel com vida civil.
19 Elias // 28/January/2008 às 12:44
Anrafel,
O “meu” Jarbas não era híbrido, até porque deu crias. Infelizmente, muitas.
A gente chamava de “anfíbio” (à boca pequena, de “batráquio”).
20 Zé Bush // 28/January/2008 às 12:50
well…..apenas lembro do meu pai, que ficou uns 15 dias sem sair de casa. Ex-capitão do exército, passou um tempo em cana por ter baleado um coronel no governo do Juscelino.
21 anrafel // 28/January/2008 às 13:18
Consta que numas das sucessões militares (acho que de Médici), o nome de Jarbas Passarinho foi aventado pelo seu caráter anfíbio (agora, sim). Orlando Geisel, no entanto, liquidou a candidatura com uma argumentação sólida e irrespondível: “Eu não bato continência para coronel”.
22 anrafel // 28/January/2008 às 13:26
De todas aquelas vivandeiras (civis que rondavam os quartéis “sugerindo” levantes para derrubar governos que eles não conseguiam derrotar no voto), o mais célebre chamou-se Carlos Lacerda.
Nas décadas de 50 e 60 não houve um golpe ou tentativa de que não contasse com ele à frente das articulações. Bem sucedido em 64, levou o troco logo depois.
Os militares, conhecedores da história do cabra, comunista radical outrora virou adversário full time de tudo o que marcou o programa do Partido Comunista Brasileiro ou do Brasil, inclusive o ideaário nacionalista (pois é, por aqui o comunismo era nacionalista).
É claro que um sujeito desses não era nada confiável, julgaram, corretamente, os vencedores de 64. E desceram-lhe o sarrafo.
23 Elias // 28/January/2008 às 13:27
E, Anrafel,
Jarbas Passarinho também não era vivandeira, até porque era fardado, até o momento do golpe. Foi pra reserva ao assumir o governo do Pará.
Antes do golpe, ainda fardado, Jarbas era objeto do desejo das vivandeiras. Depois, continuaria a ser cortejado por elas.
Logo após o golpe, o sistema se deu conta que não precisava das vivandeiras, exceto para os papéis de puxa-saco ou bobo-da-corte.
Lacerda, o decano das vivandeiras, ficou uma fera… Aí passou a ser oposição, começou a articular a frente ampla, etc.
As vivandeiras achavam que poderiam usar a milicada pra dar o golpe mas, logo em seguida, elas, as vivandeiras, assumiriam o poder.
Era aí que morava um engano, chamado ledo…
24 Elias // 28/January/2008 às 13:29
Anrafel,
Postei meu comentário # 23 antes de ler o seu # 22.
25 anrafel // 28/January/2008 às 13:47
Elias,
Obrigado pelo esclarecimento a cerca de Jarbas Passarinho, e já falamos demais nesse cidadão hoje.
Este post entrelaça-se com o sobre o assassinato de Jango, daí que eu pergunto:
Onde estava JK no último ano do governo João Goulart?
Apesar dele ter declinado a famosa frase “Deus poupou-me o sentimento do mêdo”, sua atitude foi, na verdade, de omissão. Explica-se, acho: torcendo para uma intervenção militar, ele achava que esta seria rápida e cirúrgica (eliminaria os janguistas e comunistas) e o país voltaria à normalidade, pelo menos eleitoral.
E aí seria barbada para ele a eleição presidencial. Hoje sabemos que a miopia política atinge também os supostos “maiores políticos da história brasileira”.
Mesmo não sendo um golpista ostensivo e exibicionista como Lacerda, também caiu na navalha.
CURIOSIDADE HISTÓRICA (desculpem as maiúsculas): Vocês sabiam que na eleição de JK o vice, Jango, teve 300 mil votos a mais que o presidente? Pois é, naquela época votava-se separadamente para presidente e vice.
26 josef mario // 28/January/2008 às 13:58
Companheiro pai do companheiro pedro doria
Eu, josef mario, devo dizer que achei muito interessante o seu relato e, mais do que isso, me fez recordar a grande figura que foi o companheiro jorge cury, grande locutor esportivo, rubro-negro fanático e meu amigo particular. Para quem não sabe, o companheiro jorge cury era irmão do companheiro alberto cury, citado no texto e, também, do companheiro e cantor ivon cury. Todos estes companheiros já estão mortos, enquanto, eu, josef mario, permaneço firme e forte. Grande abraço.
Muito obrigado
27 Zé Bush // 28/January/2008 às 14:12
well…..como lembrado no texto,o AI-5 foi o “golpe dentro do golpe”. A situação estava beirando o caos,anarquia total e parece que Costa e Silva não estava dando conta do recado conforme a ala dura queria. Costa e Silva era pouco mais que um banana, diante do bom governo anterior de Castelo Branco.
O discurso simplório e patético de Márcio Moreira Alves foi a gota d’água pra chutar o balde. O que poderia ser um discurso folclórico foi tomado como ameaça à segurança nacional e deu motivo para o “golpe do golpe”.
28 HRP Mané Reloaded // 28/January/2008 às 14:13
Jarbas Passarinho está aí forte e rijo!
O mesmo monstro de sempre…..um dos mais torpes sujeitos da inteligentsia da ditadura, junto com Golbery, Figueiredo e acho, ainda ,pior que o monstruoso e nojento Fleury!
……..vai ter muito que penar……que Deus o receba bem??????
Duvido…….
29 HRP Mané Reloaded // 28/January/2008 às 14:15
Olha áí em cima a já manjada divinização do Castelinho sem pescoço…..iiiiiii
Tá cheio de “saudosos” por aí…..
Que m…….
30 Elias // 28/January/2008 às 14:34
Não sei se “banana” é o termo que se aplica ao Costa e Silva.
Tudo faz crer que ele se inclinava mais para a declaração do Estado de Sítio. A própria CIA achava que a crise era administrável, e que endurecimento do regime levaria — como de fato levou — à radicalização da oposição, o que provocaria um endurecimento ainda maior do regime, e assim por diante.
Lá pelas tantas, até o Jarbas Passarinho passou a dizer que o Decreto 477 era uma “Lei de Newton depravada” (referindo-se à 3ª Lei de Netwton, JP considerava que, no caso, a reação era desproporcional à ação que lhe dera causa, e que o 477 estava sendo usado “até pra achar cavalo roubado”, etc e tal).
Aparentemente, Costa e Silva via mais longe que boa parte das pessoas que sentaram à mesa com ele, no dia em que se decidiu pelo AI-5.
Ele e Pedro Aleixo.
31 Rodrigo // 28/January/2008 às 15:31
Tudo bandido! O Castelo Branco, o Costa e Silva e renca de facínoras que assinou aquele maldito AI-5
32 Zé Bush // 28/January/2008 às 15:54
well….apenas lembrando que o Castello Branco teve uma morte prá lá de suspeita. Logo após terminar seu mandato,teve seu avião “abalroado” acidentalmente por um caça da Aeronáutica. Era mal visto pela ala dura e por setores civis conservadores da época, por ser considerado liberal.
33 Elias // 28/January/2008 às 17:01
Isso mesmo, Zé Bush.
Castello ainda tentou fazer com que seu sucessor fosse um civil. Foi tragado pelas mesmas forças que o levaram ao poder. A essa altura, o sistema já estava pra lá de azeitado.
De qualquer modo, acho que o AI-5 foi o início do fim da ditadura militar. Com ele, deu-se início ao isolamento político da ditadura, que só aumentaria nos anos seguintes.
Os militares continaram no poder e com mais poderes, porém com apoio político cada dia menor.
Em 1974, com a miragem do “milagre econômico” ainda visível, o MDB surrou a Arena nas urnas. A classe média começara a mudar de lado, abandonando os fardados. A crise econômica que viria a seguir selou o destino da ditadura.
34 anrafel // 28/January/2008 às 17:32
O AI-5 talvez tenha sido o argumento definitivo a convencer Marighela e outros da ala radical do comunismo brasileiro a partirem para a luta armada, a guerrilha urbana.
Opção também para os líderes estudantis de antes do golpe e para quem estava iniciando-se na luta política naquele momento. Compreensível, estava tudo fechado, mesmo.
Agora algo tem que ser dito: nunca, em nenhum momento pareceu que a guerrilha urbana (ou a do Araguaia, do PCdoB) estava prosperando ou incomodando seriamente o regime.
Se o governo passava essa informação para a embaixada americana ou a CIA e para os empresários financiadores de troços como a Oban era por pura má-intenção ou para justificar os atos selvageria e canalhice de militares e policiais.
Utilizava-se o aparato da repressão para combater os grupos subversivos, que tinham o seu poder de fogo superstimado. Na verdade, as organizações guerilheiras, logo após a sua formação, reduzia-se a poucos militantes, homiziados em aparelhos que logo eram descobertos, e sem muito poder de manobra.
Ações como o assalto à amante de Ademar de Barros ou a fuga do Vale do Ribeira, prestavam ao super-dimensionamento que a ditadura dava à oposição armada, a fim de justificar, entre outras coisas, a eliminação física também de opositores que não se juntaram à luta armada, a exemplo de Rubens Paiva.
35 Brancaleone // 28/January/2008 às 18:11
Eu ia até postar, mas vou ficar é bem quietinho.
Nem neutro dá prá ser nesse caso, que dirá do lado “dêles”. As hostes a serviço de Moscou ainda reunem-se por aqui e ainda temem as hostes de Washington.
Agora que aquela musiquinha não me sai da cabeça, eu ofereço com afeto para o Genoíno e prô Zé Dirceu pelo prometeram no passado e pelo que fazem hoje e ao Lula, pelo que deixa fazerem hoje…
” Hoje eu sei que quem me deu idéia duma nova conciência e juventude, está em casa guardado por deus, contando o vil metal…”
Belchior sabia o que ia acontecer…
36 Elias // 28/January/2008 às 18:58
Menos, Brancaleone, menos…
É exatamente aí que os extremos confluem para o mesmo ponto, e se tocam.
Um e outro lado superestimam o que houve, pra que a coisa pareça maior do que realmente foi.
A esquerda armada jamais ameaçou a ditadura.
Eram grupinhos mal armados, mal treinados, sem estratégia nem tática, sem apoio da população e sem fronteira de apoio.
Mesmo na Guerrilha do Araguaia, o que passa por ser a “derrota” dos militares (1ª campanha) é, na realidade, uma baita forçada de barra.
É só ler o “Relatório Arroyo”. Na primeira campanha, os militares destruíram toda a infraestrutura dos guerrilheiros. Lá se foram a oficina de armas, o paiol de munições, o depósito de víveres, etc.
Os guerrilheiros jamais repuseram suas perdas, materiais e humanas. Não tinham com quê nem como… Só fizeram encolher e encolher, até o aniquilamento total.
Brigaram bem, mas jamais tiveram a menor chance. Antes de começar, já haviam perdido.
37 Brancaleone // 28/January/2008 às 19:24
Elias:
Eu sei, eu sei.
É que a cada post sob os “anos de chumbo” que o PD põe aqui, aparecem combatentes de ambos os lados, tanto os que foram machos suficientes para pegarem em armas quanto os que ficaram nas “idéias” e todos, sem exeção querem fazer parecer que são hérois não reconhecidos, que a civilização deve a eles alguma coisa porque optaram por este ou aquele lado.
Nossos “guerrilheiros”, aos quais faltou muito, mas muito treino e sobrou romantismo e nossos militares, aos quais faltou inteligência e sobrou truculência - se bem que lá no quartel aprendi que a truculência é apenas uma tática…
68 foi um aninho ruim. As barricadas de Paris não deram em nada e não vamos esquecer que por aqueles anos, tanques russos passevam por Praga, esmagando as florzinhas da Primavera …
Seguido alguem quer atribuir aos nossos insurgentes do passado o presente democrático que temos e há os que atribuem aos da ” situação” de então a mesma coisa.
A história ( e as estórias) ainda é muito recente para se ter a verdade. Alguns atores da época ainda estão vivos - alguns bastante ricos e influentes e tem-se que esperar mais um pouco…
38 Elias // 28/January/2008 às 20:34
Brancaleone,
Também não chego ao extremo de dizer que as “jornadas” de 1967 e 1968 não deram em nada.
Nos EUA, os negros conquistaram os direitos civis. Lá, ainda, disparou-se o gatilho da mobilização da opinião pública contra a Guerra do Vietnã. De quebra, também ganhou força a luta pela preservação do meio-ambiente que, hoje, tende a se tornar “política de Estado” em quase todo o mundo.
Enfim, tem muita coisa de 1968 que ainda está rolando…
Daí porque aquele ano nunca terminou.
39 Brancaleone // 28/January/2008 às 21:14
Tirando o matiz ideológico do ano de 68, de um certo modo é bom que ele jamais termine. Concordo que foi um ano de ações e reações. Excedi-me quando disse que não deu em nada, mas assevero o restante…
40 Ricardo Cabral // 29/January/2008 às 9:58
PD, as memórias do teu pai são iguaria fina. Obrigado pela dica, já li a parte 3 e a curiosidade fica querendo uma parte 4 antes mesmo que o dia de hoje acabe, hehehe!
41 Magrello // 31/January/2008 às 16:33
Alguem sabe de imagens (video, youtube) do AI-5 na TV ??
Alias que falta faz uma FOIA no Brasil.
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