O mundo visto pelos leitores: China

China · Depoimentos · 17/01/2008 - 07h17 - 114 Comentários

Por Zictor

O ano novo chinês é a maior festa do ano. Todos os chineses retornam para suas províncias, querem estar com as famílias. Os trens ficam impossíveis. O início das celebrações é o Festival da Primavera, dia em que soltam fogos e foguetes – eles gostam mais de barulho do que de luzes. Em 2006, passei o Festival da Primavera em Xangai. A cidade parecia cenário da Terceira Guerra. Tinha até daquelas carreirinhas de bombinhas vermelhas, que a gente via nos desenhos animados quando criança. As festas só terminam quinze dias depois, com o Festival das Lanternas. E este ano, para os que estiverem curiosos, a festa começa na noite do dia 6 para 7 de fevereiro. Entraremos no Ano do Rato.

A folga, mesmo, é só de três dias. Os feriados são sempre assim, de três dias. Além do Festival da Primavera, há também o Primeiro de Maio e o Primeiro de Outubro, data em que foi fundada a República Popular da China. Em geral, trabalha-se um sábado e um domingo para compensar mais dois dias, e assim dá para esticar cada feriado por uma semana. Recentemente, tem havido muito debate sobre acabar com as ’semanas douradas’ e transferir os feriados para datas mais tradicionamente chinesas, como forma de estimular a cultura. Ouvi dizer que o Primeiro de Maio não é mais feriado.

O restaurante preferido dos estrangeiros em Beijing é o Alameda, que serve cozinha brasileira contemporânea. Muito bom. Em Xangai, a churrascaria brasileira também faz sucesso. Nas duas cidades, você encontra uns poucos restaurantes americanos, russos, cubanos, italianos. Mas não são muitos. O que mais se come é comida chinesa, que varia de acordo com a província, comida japonesa e coreana. E bebe-se muito chá.

A bebida alcoólica preferida é o baijiu (literalmente, álcool branco), um destilado de sorgo. Horrível. Chinesada bebe adoidado. Obrigatório em celebrações e jantares de negócios. Eles também gostam bastante de cerveja, principalmente da marca Tsingtao, a maior daqui, que leva o nome da cidade onde é produzida. Tsingtao, a cidade, foi uma possessão alemã no início do século 20. Preciso dizer mais?

Nas conversas particulares, todo mundo fala o que pensa. Não há paranóia com cada palavra dita, o governo está cada vez mais especializado em atacar cirurgicamente. Se alguém escreve um livro censurado, impedem a circulação, mas nada acontece ao autor. Ele recebe uma advertência, mas quem insiste sofre punição de acordo. Em alguns casos, é mais extremo, como os estudantes canadenses com a bandeira pró-Tibet ou uma passeata em favor do Falun Gong (seita religiosa duramente perseguida e reprimida). Os estrangeiros, são deportados. Melhor não perguntar o que acontece com os chineses. Há boatos de que certos prisioneiros condenados à morte são transformados em ‘doadores’ de órgãos.

Os chineses vêem o mundo partindo de modelos. Tudo, para eles compreenderem, precisa antes ser analisado a partir de um modelo. Eles fazem um esforço para compreender os estrangeiros, mas sempre os avaliam a partir de sua cultura, a não ser que já tenham algum modelo no qual determinado comportamento se enquadre. Ficam surpresos, por exemplo, quando digo que não existe Halloween ou Thanksgiving no Brasil. Eles vêem o resto do mundo com um misto de medo, admiração, curiosidade, desconfiança, inveja e desprezo.

O desprezo é histórico. A China sempre se viu como um mundo iluminado cercado de barbárie por todos os lados. Durante quase toda sua existência, sua relação com os estrangeiros foi sujeitando-os como Estados vassalos ou com invasores bárbaros. Os únicos que conseguiram tomar o poder, manchus e mongóis, acabaram englobados pela cultura chinesa. Talvez por isso, os chineses nunca se lançaram em aventuras colonialistas. O resto do mundo não possuía nada de interessante para eles.

Aí, um dia, os ingleses chegaram. Primeiro, tentaram uma aproximação diplomática à forma européia. Foram desprezados. Aí, voltaram com canhões. O resto da história, a gente já conhece. Foi um golpe duro na auto-estima nacional chinesa. Mas perder para os misteriosos brancos era uma coisa (vale lembrar que o ideal chinês de beleza é a pele mais branca possível), perder para os japoneses na Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894/95) foi péssimo. A seqüência de derrotas levou à concessões de protetorados às potências estrangeiras que gerou mais desconfiança com relação aos estrangeiros que humilharam a China.

Foram os comunistas que trouxeram alguma estabilidade de volta, mas fecharam o país para o resto do mundo. E encheram o povo com todo tipo de histórias sobre os estrangeiros. Logo após a reabertura, os estrangeiros exerceram um certo fascínio sobre os chineses, que nunca haviam visto essa gente diferente. Diante da consciência de que esse pessoal branco vem de países mais ricos, existe a admiração e a inveja (é uma inveja diferente, de querer alcançar o mesmo patamar).

Alguns são muito amistosos e hospitaleiros, outros tentam sacanear você em cada curva (como em qualquer lugar do mundo). Tirando Beijing e Xangai (verdadeiras cidades cosmopolitas), estrangeiros são vistos como atrações de circo. Pessoas gritam ‘Hello’ pra você todos os dias (é aquela história, uma parcela significativa dos chineses acredita que todos os brancos falam inglês). Percebeu que falei brancos? Isso mesmo, chineses são muitos racistas. Já ouvi alguns dizerem que os negros são uma raça inferior e esse tipo de comentário não gera olhares reprovadores.
A população chinesa é volátil e impaciente, quer tudo para ontem. É uma gente sempre pessimista. Revoltas estouram todos os dias e por qualquer motivo. De sua parte, no melhor estilo 1984, o governo volta sua energia para os ‘inimigos’ externos que são, nessa ordem, Japão, Taiwan e (às vezes) EUA.

A maioria da população de Taiwan quer continuar no status quo. Faz parte da China mas não quer a administração do Partido Comunista. Se for obrigada a voltar, vai querer independência. Se Taiwan declarar independência formal (material já tem faz tempo), a população chinesa não vai gostar e a China precisará ir à guerra. Isso não vai dar muito certo, então vão levando. Isso para não falar das minorias reprimidas dos países invadidos – Tibet e Turquestão Oriental – que precisam ser administradas.

O mercado acionário chinês apresenta muitos sinais semelhantes àqueles dos EUA pré-29 e pré-87. As ações das companhias locais sobem em níveis absurdos nas Bolsas de Xangai e Hong Kong e os chineses acreditam realmente em toda a propaganda governamental sobre desenvolvimento. Ou, ao menos, fingem que acreditam e tentam lucrar o máximo possível enquanto podem. Tenho amigos num curso de MBA que dizem que o WiFi da sala foi cortado porque os alunos chineses ficavam jogando na bolsa. (Sim, jogando mesmo.) Na verdade, eles aqui já abandonaram o comunismo faz muito tempo, a única coisa que mantém o Partido no poder é o crescimento econômico, ajudado pelo nacionalismo. A China cresce porque o Partido empurra o crescimento a qualquer custo. Se parar de crescer, não quero nem pensar nessa possibilidade.

Assim como no Brasil, a maioria dos imigrantes na China vieram do próprio país. Quem vive nas regiões mais pobres busca as cidades ricas. As semelhanças param aí: não há liberdade de ir e vir. Esses ‘retirantes’ continuam registrados nas cidades de origem e não têm direito a qualquer tipo de saúde ou seguridade social. Eles trabalham nas construções por salários mais baixos, são iguaizinhos aos imigrantes estrangeiros ilegais nos EUA e na Europa.

Nas ruas, os chineses ainda estão se descobrindo, não possuem um estilo próprio. Em geral, copiam o Japão e a Coréia, ou fazem alguma aberração totalmente diferente.

Já os estrangeiros se dividem em três tipos: a) expatriados, enviados por suas empresas para trabalhar aqui ou profissionais estrangeiros contratados para fazer trabalhos que os chineses não conseguem fazer por um motivo ou outro; b) vagabundos em geral que vivem como professores de inglês, ou qualquer outro bico, já que estrangeiros (brancos) ganham sempre um salário muito alto para padrões chineses; c) estudantes de chinês, que chegam aos montes porque pensam que vão aprender chinês em alguns meses, já que o chinês é ‘a língua do futuro’.

Antes que eu me esqueça, não é impossível aprender chinês, mas dá trabalho. Quando se fala da dificuldade do chinês, muitos citam os quatro tons da língua. Os tons podem ser aprendidos com a prática, a dificuldade está mesmo nos caracteres. Se você perguntar, um chinês vai dizer que existem mais de 60.000 caracteres, mas você só precisa saber 3.000. Eu sou capaz de reconhecer mais ou menos 1.500. Sobre meus tons, consigo pronunciar todos com perfeição, só não me lembro muito bem quais os tons corretos de algumas palavras. Muitas vezes acerto a pronúncia mas erro o tom, e digo uma coisa totalmente diferente. (Pense em alguém dizendo que vai dizer côco, mas acaba dizendo cocô. É bem por aí.) Para aprender chinês, são necessários persistência e interesse pela língua.

Aqui, a gente ouve línguas que não acabam mais. Moro numa área onde ficam duas das três melhores universidades da China. Há milhares de estudantes de todas as partes do mundo. Grosso modo, o inglês é, de uma forma ou de outra, a língua ‘oficial’ das grandes comunidades estrangeiras. É com ela que a maioria nós nos comunicamos, entre nós ou com os chineses. Fora isso, há também os grupos que se comunicam dentro de suas próprias línguas nacionais e as línguas marjoritárias: Francês, alemão, espanhol, japonês, coreano, russo, árabe etc.

Quando eu estava na faculdade, durante o verão os estudantes chineses namoravam escondidinhos pelos cantos escuros dos jardins, à noite. A situação lembra a dos países ocidentais pré-Revolução Sexual. Mas existem também aqueles que são tão avançadinhos como nós. Nas regiões agrícolas é que o conservadorismo é maior. E, diga-se, eles sofrem uma concorrência desleal dos estrangeiros, que são mais experientes no jogo da sedução, além de serem partidos melhores para as meninas chinesas, doidas para sair da China ou driblar a política do único filho.

Já vi cartazes nas ruas com campanhas sobre Aids, mas o governo evita tocar em sexo. A população ainda é ignorante em relação à doença. Uma amiga minha trabalhou num documentário de curta metragem chamado Blood of Yinzhou Province, que ganhou o Oscar. Em algumas regiões do interior, ela me disse, pessoas muito pobres vendiam o sangue para ganhar um dinheirinho. Quando o sangue era vendido, as instituições retiravam o plasma e devolviam o resto para que a recuperação dos doadores fosse acelerada. Como o sangue, antes de ser devolvido, era misturado em grandes processadores divididos apenas no sistema ABO, muita gente se contaminou. Essa minha amiga contou histórias horríveis de vilas onde toda população adulta tem AIDS. Tudo abafado pelo governo.

As mulheres da China vivem em relativa igualdade com os homens, numa situação bem melhor do que a da Coréia ou do Japão. Quanto aos gays, não existe uma política oficial de Estado a repeito deles, mas discriminação rola solta. Não há leis contra preconceito. Aqui, você poderia ouvir da maioria dos chineses aquilo que o Ahmadinejad falou a respeito do Irã: ‘não temos desse problema’.

O Estado é ateu, mas a maioria da população chinesa é budista e/ou taoísta. Sempre tem alguém rezando nos templos. E há também cristãos, muçulmanos e judeus. Além da religião, há uma filosofia predominante, o confucionismo. Um de seus ensinamentos é que estudar é o melhor caminho para subir na vida. Então, os chineses investem em educação. Mas é uma educação que não estimula a iniciativa, a criatividade ou o raciocínio crítico. Funciona através da memorização e de repetições. O nível daquilo que chamamos de cultura geral aqui e de conhecimento fora da própria área de especialidades é muito baixo.

Recentemente, tive uma conversa com um cara que trabalha na embaixada francesa. Ele disse que há um ‘círculo interno’ no Partido (no melhor estilo 1984), com mais ou menos 200 pessoas. E que, dentro desse círculo, há pessoas dos mais diferentes matizes políticos – incluindo democratas. Acho meio difícil de engolir essa teoria totalmente, mas há fundamento. Da boca para fora, o Partido diz que ainda segue os ideais comunistas, mas fala de um ‘comunismo chinês’, de uma mistura com o melhor do comunismo e do capitalismo. Fala isso simplesmente para manter uma face de coerência. Na real, todo mundo sabe que o Partido só quer mesmo se manter no poder, e usa o desenvolvimento econômico para isso.

A melhor maneira de definir o governo eu ouvi de meu pai, quando esteve por aqui: ‘comunismo de resultados’. Se você é um jovem político, além de ser bem conectado, a melhor maneira de avançar na carreira é apresentar resultados, desenvolver bem o distrito, cidade ou província que administra. O congresso do Partido Comunista se assemelha muito a uma Assembléia de Acionistas de uma empresa cujo objetivo é se manter o controle do país através do desenvolvimento. O governo tem aberto vários setores da economia para investimentos privados, mas isso não significa que abriu mão deste controle.

Todos os dias, leio jornais e revistas internacionais. Meu chinês não é bom o suficiente para ler em chinês e os jornais que os chineses publicam em inglês são lixo. Os sortudos têm TV a cabo, a maioria só tem as TVs chinesas. E como poucos de nós falamos chinês suficientemente bem, ficamos restritos à CCTV 9 (China Central Television). Que é em inglês, mas tem uma programação pior que ruim. A Internet nem é rápida, nem estável e tem um monte de site legal bloqueado. Claro que sempre existem os proxies, mas não é a mesma coisa. Em geral passa.

Quanto ao pôr do sol, se é bonito ou se é feio, é bonito, por trás das montanhas de Beijing. Mas só quando dá para vê-lo através da grossa camada de poluição.

Ainda sobre o assunto:

  1. O mundo visto pelos leitores: Angola Por Caco Angola é um país em obras divididas por empreiteiras brasileiras, nas quais a Odebrecht aparece como a principal...
  2. O mundo visto pelos leitores: Irã De um leitor Anônimo Teerã é meio parecida com São Paulo, uma megalópole caótica com lá seus encantos. É uma...
  3. O mundo visto pelos leitores: Austrália Por André Fucs A saga do índio judeu na ilha de Croc Jamais irei esquecer os debates que se seguiram...
  4. O mundo visto pelos leitores: Itália Por Sabrina Modena é uma bela cidadezinha medieval encravada no coração da Bassa Padana (uma parte da Planície Padana) que...
  5. O mundo visto pelos leitores: Argentina Por Mr X Faz uns bons seis meses que estou em Buenos Aires. Já conhecia a cidade, mas é a...