O Corão visto pela história

Islã · 16/01/2008 - 12h20 - 144 Comentários

Sabemos muito pouco a respeito do Corão, livro sagrado dos muçulmanos. Mas uma nova descoberta fará com que isso mude radicalmente: cientistas têm, nas mãos, a reprodução de uma versão do livro quase contemporânea a Maomé. Jamais se esteve tão próximo do texto original.

Já dá para dizer uma coisa: o texto mudou. A tradição muçulmana dá que não houve qualquer mudança, que as palavras ali foram ditadas por Deus. Talvez. Se for, alguém copidescou o Senhor.

Sobre a Bíblia, sabe-se muito. Ela é estudada por cientistas vários desde o século 19. Sabe-se, bom deixar claro, do ponto de vista histórico. Compreende-se um tanto a respeito de seus autores, como determinados livros foram escolhidos e ordenados. Do Velho Testamento, dá para reconstruir um pouco da religião que poderíamos chamar de proto-judaísmo e o que aqueles homens compreendiam por Deus – era algo diferente dos monoteísmos atuais. Nos últimos dez ou quinze anos, avançou-se incrivelmente na compreensão de quem foi o homem da Galiléia de princípios do primeiro século que hoje chamamos Jesus.

Sobre o Corão, sabemos quase nada. Temos a origem mítica. De acordo com ela, Maomé nasceu por volta do ano 570, trabalhou como mercador, era analfabeto, e quando tinha uns 40 anos o anjo Gabriel o procurou falando em nome do Senhor. Por décadas, o Corão foi ditado a Maomé.

História é outra coisa: quem realmente escreveu o Corão? Se foi Maomé, ele não podia ser analfabeto. (A poesia do livro, dizem os especialistas em árabe, é de boa qualidade, coisa que não pode ser dita a respeito de todos os livros da Bíblia.) E quais as influências imediatas do Corão?

O professor alemão Anton Spitaler foi responsável pelo melhor arquivo para este estudo: 450 rolos de filmes com as fotografias de cópias antigas do Corão, datando do ano 700 – pouco após a morte de Maomé. Os originais, se existem, estão escondidos em alguma biblioteca do Oriente Médio. As fotos, dizia Spitaler, foram queimadas quando a Força Aérea Britânica derrubou a Academia de Ciências da Baviera, em abril de 1944. O velho professor afirmou isto, sabe-se lá porque, até sua morte, em 2003. Aí descobriram que era mentira.

Outro velho professor alemão, Günter Lüling, tem a tese de que antigos hinos cristãos são uma das fontes para o Corão. Talvez. Muitos dos personagens são os mesmos, o Deus é o mesmo. Do ponto de vista estritamente histórico, que o cristianismo inspirou o Islã, não há dúvidas. O que não se sabe é como e o quanto. Outra teoria de um cientista alemão, que se assina com o pseudônimo Cristoph Luxenberg, é de que a língua original do livro não é árabe, mas siríaco. Esta é uma língua próxima do aramaico e que deu origem ao árabe, ainda falada na região onde vivia Maomé até o século 8. Era a língua da maioria das comunidades cristãs primitivas dali. (Luxenberg sugere que é um erro da tradução do siríaco para o árabe a idéia de que há virgens prometidas aos mártires; o que há são uvas.)

Uma das vantagens de ter um Corão mais próximo do original é que, partindo-se dele, é possível comparar com as escrituras cristãs e judias para ver onde há repetição de trechos. Não é uma tarefa fácil. A escrita árabe evoluiu, e as letras de então são legíveis apenas por especialistas. É ainda mais difícil por outro motivo: quem estuda a Bíblia a sério desperta a ira de cristãos fundamentalistas, principalmente nos EUA. Mas eles gritam, esperneiam, e não fazem muito mais que isso. Despertar a ira do fundamentalismo islâmico, no século 21, não é tão indolor assim.

Daí que, não à toa, alguns dos especialistas se assinam com pseudônimos. Assim como também não é à toa que a maioria dos estudiosos, hoje, se encontra na Alemanha. Também foram alemães, no século 19, que ousaram sugerir pela primeira vez que havia um Jesus histórico diferente daquele descrito no Novo Testamento.

dica do Filipe Litaiff

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