Meus colegas de Aliás, Laura Greenhalgh e Fred Melo Paiva, fizeram uma estupenda e longa entrevista com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Concorde-se ou não com sua excelência, ele é uma referência política e histórica no país. Suas palavras merecem ser lidas. Quanto a Lula, FHC morde e assopra. São adversários. Mas está muito distante da intolerância meio tacanha dos críticos habituais do presidente.
O sr. deve ver algumas virtudes no presidente, não?
Quem é o fiel do governo? Quem impede o travamento do processo de modernização do País? É o Lula. Há quem diga que o Palocci entendeu o processo logo, mas quem foi o fiador do Palocci? O Lula. E não o contrário. Ele mantém o Henrique Meirelles no Banco Central, ao mesmo tempo em que lida com ministros que dão sinais contrários, como Guido Mantega. Coloca o Paulo Bernardo no Planejamento, porque sabe que a cabeça dele é afinada com o BC. Tem noção de equilíbrio. Em campanha defende o povo, no governo agrada à elite.O senhor diria que o presidente superou o partido?
Ah, não tenho dúvida. Ele não dirá isso nunca, porque vai precisar do partido, mas tem posição mais aberta. Na verdade, Lula nunca foi um quadro ideológico, o que lhe dá vantagens. Ele diz que é uma metamorfose ambulante. Isso não é negativo. A minha crítica é que Lula governa sem saber bem o rumo.Governa instintivamente?
É um grande tático. Mas estrategista nunca foi.O senhor acredita no zunzunzum sobre o terceiro mandato?
Lula é mais conservador do que inovador. É difícil que se jogue numa posição tão polêmica e controvertida como essa. O Zé Dirceu disse uma vez que, diante de duas opções, uma mais transformadora e outra menos, Lula ficará com a segunda. Por outro lado, dentro do PT sempre haverá gente pensando assim: “E nós? Sem o Lula não elegeremos governadores, não faremos a grande bancada”. O zunzunzum vem daí e será permanente.




