E se o Islã não existisse?

Cristianismo · Europa · História · Igreja Católica · Iraque · Irã · Islã · Israel e Palestina · Judaísmo · Oriente Médio · Ásia Central · 9/01/2008 - 08h52 - 85 Comentários

Graham Fuller, ex-diretor do Conselho Nacional de Inteligência da CIA, é o autor do artigo de capa da última edição da revista Foreign Policy. (O artigo no site da revista exige registro pago para leitura; mas há uma cópia solta na web) Ele propõe uma provocação interessante: e se o Islã não existisse?

Compreender este cenário é importante para analisarmos o argumento tipicamente neoconservador de que existe algo chamado islamofascismo e que nele estaria a raiz do Terror. Alguns, mais radicais e religiosamente dogmáticos, levam esta convicção à idéia de que é preciso converter o Oriente Médio ao cristianismo.

O raciocínio é todo de Fuller.

Se não houvesse Islã, o que haveria no Oriente Médio e Ásia Central? Bem, por certo as questões étnicas continuariam lá. Árabes, persas, turcos, curdos, judeus e até mesmo berberes e patanes ocupariam a região. Os persas (iranianos) teriam ainda suas tendências expansivas – porque já as tinham antes do Islã, e portanto haveria conflitos. As tribos árabes resistiriam aos persas e já se espalhavam por todo o Oriente Médio no período imediatamente anterior a Maomé. A invasão mongólica teria acontecido no século 13, assim como nada teve a ver com o Islã o império turco, que até o século 19 chegou às portas de Viena.

São disputas por mercados, territórios e influência – elas não dependem de religião, elas ditam a história humana. E o professor continua:

Evidentemente, é arbitrário excluir totalmente a religião da equação. Se nunca houver Islã, a maior parte do Oriente Médio teria permanecido predominantemente cristã, em várias seitas diferentes, como era logo antes de Maomé. Além disto, também haveria alguns zoroastristas e um pequeno número de judeus e nenhuma outra grande religião presente.

Mas haveria harmonia com o Ocidente se o Oriente Médio tivesse permanecido cristão? É difícil acreditar. Para chegar a esta conclusão, teríamos de supor que a incansável e expansiva Europa medieval não teria tentado projetar seu poder e hegemonia no oriente em busca de conquistas econômicas e geopolíticas. Afinal, as Cruzadas foram uma aventura ocidental movida por necessidades econômicas, sociais e políticas. A bandeira do cristianismo foi pouco mais do que um símbolo forte, um slogan de guerra para inspirar os objetivos seculares dos europeus. Na fundo, a religião dos nativos jamais esteve entre as grandes preocupações européias em sua caminhada imperialista pelo globo. O ocidente pode ter falado de levar ‘valores cristãos’, mas seu objetivo mundial sempre foi estabelecer colônias como fontes de riqueza para a metrópole, além de bases para a projeção de seu poder.

Nesta toada, é difícil que os habitantes cristãos do Oriente Médio tivessem recebido de braços abertos as frotas européias e seus mercadores apoiados por armas ocidentais. O imperialismo teria prosperado no mosaico étnico da região – afinal, serve à tática de dividir e conquistar. E os europeus teriam instalado os mesmos reis fantoches para atender a seus desejos.

Vamos à frente para a era do Petróleo. Os países cristãos do Oriente Médio se transformariam sem resistência em protetorados europeus? Não. O Ocidente teria criado e controlado os mesmos pontos de gargalo, como o Canal de Suez. Não foi o Islã que motivou os países do Oriente Médio a resistirem ao projeto colonial com seu drástico redesenho das fronteiras de acordo com as preferências geopolíticas européias. Tampouco os cristãos do Oriente Médio receberiam bem as empresas petroleiras imperialistas do ocidente, apoiadas pelos vice-reis europeus, diplomatas e agentes secretos.

Assim como aconteceu na China, na Índia, no Vietnã e na África, movimentos nacionalistas e anti-colonialistas aconteceriam no Oriente Médio ao longo do século 20. E, sempre seguindo o raciocínio do professor, basta ver os exemplos de Espanha e Portugal, ditaduras até meados dos anos 1970, ou da América Latina, ou mesmo de nações cristãs africanas, para saber que democracia e cristianismo não andam necessariamente juntos, bem o contrário. Desta forma, um Oriente Médio cristão poderia muito bem ser formado pela mesma penca de ditaduras.

A perseguição por mais de um milênio que os cristãos impuseram aos judeus, na Europa, nada tem a ver com o Islã. Assim como nada tem a ver com o Islã que esta perseguição tenha, em meados do século 20, culminado com o Holocausto. É perfeitamente razoável pressupor que haveria um movimento Sionista e que este movimento de busca judaica por uma nação onde pudessem se proteger por conta própria os levasse para os arredores de Jerusalém, a terra onde surgiram. A implantação de Israel provavelmente terminaria com o deslocamento dos mesmos 750.000 nativos árabes da Palestina mesmo que fossem cristãos.

(O Partido Baath é a essência do movimento pan-árabe nacionalista, existe em vários países da região, está no governo sírio e esteve, nos tempos de Saddam Hussein, no governo iraquiano. Foi fundado em 1940 na Síria por Michel Aflaq, árabe e cristão.)

Para Graham Fuller, o Oriente Médio de hoje seria um bocado parecido com o que é mesmo se Maomé jamais houvesse nascido.

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