Há exato um ano, me mudei do Rio para São Paulo. Esta, aqui, não era uma cidade que eu realmente conhecesse. E, na verdade, ainda não a conheço de fato.
Às vezes, no Rio, me perguntam assim: ‘e São Paulo?’ – e, para isso, costumo responder com um clichê à mão, ‘muito trabalho’. Não é que não seja verdade, é; mas trabalhava igualmente no Rio. É só porque um clichê serve a isto mesmo, para ocupar com uma coisa qualquer o espaço de informação. Informação carece ser processada.
São Paulo tem charme: um charme que está nos detalhes. Ele está, por exemplo, nas pedrinhas coloridas com um desenho aqui, umas frases simpáticas ali, que se misturam ao calçamento de pedras portuguesas na Paulista. É tão inusitado que numa das principais avenidas do país, lugar de sujeitos sisudos de terno e gravata além de uma penca de prédios horrorosos como o da Fiesp e o da Gazeta, exista ali aquele gesto de humor. São pedrinhas, apenas. O desenho infantil de uma casa, umas flores, tudo num espaço de 3 centímetros de, sei lá, 100 em 100, 200 em 200 metros; no lugar onde devia estar uma pedra branca ou uma preta, uma mensagem nonsense em cores. São pedrinhas tão discretas e me pergunto quem as pôs ali. Comento com uns e outros de sua existência, quase ninguém reparou. Com o tempo passaram a ser minha metáfora pessoal de São Paulo. Uma coisa que de relance é assim feia, concretada, mas que para o olho atento tem essa pequena surpresa colorida.
A primeira vez em que São Paulo não me foi inóspita aconteceu numa segunda-feira de maio às 10h. O dia estava estupendamente bonito mas eu não o havia reparado no caminho. Então saí de um prédio escuro na rua Jericó, quase esquina com a Rodésia, em Vila Madalena. Ali próximo fica um bar do qual gosto, mas era cedo demais e buscava um café da manhã umas ruas abaixo. Há um bocado de árvores nas redondezas e num relance – é sempre num relance que se flagra a beleza de São Paulo – vi o sol entre as árvores, e o céu azul, o ambiente era agradável e me senti de volta há coisa de uma década atrás, quando fui morar no Baixo Gávea solteiro. Sentia assim, próximo ao bar de manhã, ver o sol de outono pelas árvores da Praça Santos Dumont. Como a árvore de Sampa era uma leguminosa dessas muito brasileiras de folhas picotadinhas e compridas e a iluminação era a mesma que há no Rio, me senti familiar daquele canto e entendi que São Paulo e minha cidade não são assim tão distantes.
É que são tantas as coisas que parecem estrangeiras a um carioca. Roda de samba com o sotaque errado e em lugar fechado. Prédios todos com portão duplo – o carro ou a pessoa entra, uma porta se fecha, aí a outra abre. O rapaz da pizza nunca pode subir, é você que tem de descer. Mas, quando tudo parece uma terra paranóica, os automóveis circulam com as janelas abertas. Aqui, as calçadas dos bairros ricos são bem cuidadas, nada como as trilhas esburacadas de Ipanema ou Leblon. As ruas são mais limpas e, quando o trânsito está lento e ali à frente há um cruzamento, ninguém o interrompe. Ninguém o corta violentamente. E as pessoas são incrivelmente educadas até mesmo quando são 7h50, a plataforma rumo Jabaquara na estação da Sé é um mar de gente e o metrô de 30 em 30 segundos permanece incrivelmente lotado. Em São Paulo, a vogal e eles chamam de ê; a o aqui se chama ô. E, assim, a CET que multa os carros não é cét, como no Rio, chama-se cê-ê-tê. O guarda de trânsito, chamam-no psiu.
Os paulistanos não o percebam, mas além de uns dois ou três sotaques completamente diferentes uns dos outros, eles têm um vocabulário próprio que requer iniciação. Na faixa quer dizer de graça. Lanche é palavra para sanduíche. Supermercado é só super. Churrasco é churras. Padaria é padoca. O café fraco é carioca – embora cariocas não bebam café fraco; o feijão marrom, que é só o que se come, é feijão carioca – embora cariocas só comam feijão preto; e barbeiragem no trânsito é cariocada, mas esta lhe compreendo a origem. Bebe-se em qualquer espelunca um chope melhor tirado do que no Rio com apenas duas ou três exceções cariocas. Mas, aqui, fala-se no geral um português pior – ‘quer que eu tiro uma foto’, ouvi duma menina bonita e bem vestida, no GP Brasil, há pouco mais de um mês. O paulistano médio se perde com a concordância de formas, muitas vezes, surpreendentemente criativas.
Em São Paulo a gente percebe que com o passar do tempo o carioca foi assim aceitando as coisas meio de segunda: o chope ruim mas que ao menos é gelado; a calçada esburacada, mas que ao menos tem umas árvores; um trânsito agressivo; a pizza vagabunda; a comida de restaurante simplesmente mal feita e ainda assim mais cara; a fila para comer num lugar mais ou menos; os banheiros imundos. Uma sujeira – como é sujo o Rio de Janeiro. Talvez seja porque o ambiente externo em Sampa é tão mais agressivo que a civilidade se fez necessária. Mas ela torna evidente o que falta ao Rio.
São Paulo não é o paraíso. Aqui engordei já oito quilos – bati os 90 faz uma semana. Mais uns dois e a barriga proeminente começa a se instalar na camisa. Em São Paulo não tem ciclovia e só uns bravos pegam a bicicleta. Uma vez, num fim de semana, atravessei a quadra e meia que me distancia do Minhocão, corri num sentido, voltei pelo outro, e não houve prazer na corrida duns 40 minutos. Tentei por um tempo numa academia bacana, equipamentos de última geração. Na esteira, headset, de cara para uma tevê. Fui umas dez vezes àquela academia – se tanto. Aí, nessas horas, bate uma saudade de atravessar a quadra e meia não para dar no Minhocão e sim para encontrar a Lagoa, ver aquela gente bonita correndo, encontrar conhecidos no seu ritmo mais forte ou mais fraco, dar um adeus muito curto, ter aquele bando de árvores todas e o espelho d’água. Marina, esses dias, começou a nadar no Pacaembu. É um estádio bonito que só – arquitetura boa, em Sampa, a gente coleciona com gosto, não é comum. (No Rio, também não é.) Marina gostou. Talvez seja ali que eu me encontre. E, se não for, é continuar procurando.
A coisa que São Paulo não é, e carioca sente falta, é exuberante. O Rio tem esse hábito de às vezes tirar seu fôlego. Você vira uma curva e o céu esta rosa numa iluminação que dura exatos dois minutos enquanto o sol se põe entre os picos do Dois Irmãos; você caminha nas Paineiras, choveu há pouco, o cheiro de terra molhada é forte, as cigarras trinam sinfonicamente, e o sol faz uma luz dourada que só existe em setembro; você está naquela lerdeza de quem bebeu a noite toda, e no lado de fora do Jobi o dia está nascendo e as pessoas começam a deixar suas casas para comprar o jornal; ser verão e caminhar à noite, pela Avenida Atlântica, entre turistas, putas, travestis, garçons em bares vários, velhinhos aposentados todos com cara de que você um dia os conheceu, como pode ser tão cosmopolita e libertário assim um lugar como é Copacabana, e aquele calor abafado de dezembro que dá vontade de chegar logo em casa para tomar uma chuveirada fria. (Que vontade de sentir esse calor agora; mas ele não existe por aqui.)
Nós, os cariocas, vivemos nosso humor em função de se o tempo vai mal ou se vai bem, estamos acostumados a um ambiente no qual a exuberância natural se impõe sobre a cidade feita pelos homens. São Paulo é o contrário: aquilo que é natural foi apagado, vê-se apenas vestígios do ambiente ao qual um dia chegaram Nóbrega e Anchieta.
Há poucos lugares que gosto mais do que o Colégio dos Jesuítas, que chamam de Pátio do Colégio. E, no entanto, desde que moro aqui, nunca o visitei. O Rio é uma terra que conheço e compreendo. Aqui preciso descobrir São Paulo. Sei que ainda há vestígios da terra pela qual andaram Anchieta, Borba Gato, ou o velho Prudente de Morais. Estão escondidos, esperando aquele olhar de relance que os flagre. Quando me mudei para cá, ganhei de presente do pai uma medalhinha que sua mãe ganhou, como enfermeira, tantos anos atrás. Numa face, se lê ‘Tudo por um S Paulo forte no Brasil unido’; na outra, ‘9 de julho 1932, Aos heróicos soldados da lei, defensores da mais alta aspiração nacional, homenagem do povo de S. Paulo’. Procuro vestígios desta São Paulo de minha avó, mas ainda não encontrei. Assim como busco nos corredores do Estadão, esta antiqüíssima instituição paulistana na qual trabalho, rastros de meu tio-avô Neco, que trabalhou ali por tantos anos. (Uma vez encontrei por acaso a coluna que ele assinava com o pseudônimo Pedro Dantas, num antigo microfilme; passei o dia todo feliz.)
Todas as vezes que fiquei muitos meses ou até um ano distante do Rio e atravessei o Rebouças para rever a Lagoa pela primeira vez, o coração bateu forte. Ainda não tenho essa relação com Sampa. Penso nessa gente toda que o Rio adotou: os mineiros, os baianos, tantos paulistas, que foram ficando, ficando, e são cariocas na essência. Penso se isso não pode acontecer comigo aqui em Sampa. Se não posso um dia, daqui a vinte ou trinta anos, ser aquele paulista de adoção. Carlos Drummond sempre manteve Itabira bem próximo de si, Fernando Sabino sempre retornou à Belo Horizonte dos anos 40, Caetano é baiano de modos até hoje e, no entanto, os três foram, e são, essencialmente gente do Rio. Será que não poderei vir a ser gente de São Paulo um dia?
Tenho cá meus amigos que viraram paulistas. Cariocas sempre se dividem entre estes dois tipos. Os que voltam, os que ficam. O Zé Paulo, o Zobaran, o Erick, o Villela, ficaram. Eles gostam da organização, da seriedade. Eu os entendo completamente. Talvez, pessoalmente, eu ainda seja, no fundo, carioca demais na alma – e no pior dos sentidos. Viciado em exuberância e, por conta, tolerante com uma cidade que entre serviços públicos e privados oferece um produto de segunda categoria.
(Mas, cá entre nós, ao menos numa coisa que os paulistas perdoem: português, a gente fala melhor e mais bonito.)



