Bali, Aquecimento Global e
EUA e Brasil como vilões

Brasil · EUA · Energia e Aquecimento global · Europa · 17/12/2007 - 11h16 - 78 Comentários

São duas as histórias para serem contadas a respeito da reunião da ONU para discutir o aquecimento Global, que terminou em Bali no último fim de semana.

A primeira é a virada de mesa que China, África do Sul e Brasil lideraram contra os EUA. Os três lideram o grupo chamado G77 + China, que reúne incontáveis países em desenvolvimento. O plano norte-americano era não assinar nada e como qualquer decisão viria apenas por consenso, a atitude dos EUA tornaria a reunião inútil.

A pressão começou por parte da União Européia. Os países membros ameaçaram boicotar o MEM, reunião que acontecerá em setembro, nos EUA, para tratar de que tipo de tratado sucederá o de Kyoto. Esta reunião, proposta por Washington, é a tentativa de George W. Bush mostrar alguma liderança na questão. Sem a Europa, não haveria encontro.

Mas o que virou mesmo foi, ao longo do dia de sábado, a série de discursos por parte de países em grande parte do hemisfério sul, o G77 + China, que tinham por mensagem, simplesmente, ‘não quer liderar, então não atrapalha’.

Se a diplomacia dos EUA não mudasse de posição, o Partido Republicano cairia em cima de Bush. A última coisa que precisam, num ano eleitoral que já parece difícil, é de seu país, sozinho, obstruindo qualquer acordo para lidar com o aquecimento global. Ainda mais porque, na defesa de que o homem não tem nada a ver com o aquecimento global, Bush está cada vez mais isolado perante seus eleitores.

A segunda história serve para derrubar um pouco do ufanismo pátrio pela habilidade de nossa diplomacia. O Brasil não pode ser chamado de herói, neste caso. Em Bali, pela primeira vez, enfrentou-se uma questão importante, que é a da preservação de florestas tropicais.

A questão não é complicada. Mais carbono no ar faz com que o calor do Sol fique preso na Terra, o que gera aquecimento. O carbono em excesso vem de várias fontes. Combustível fóssil – petróleo, por exemplo – estava preso, mineralizado, nas profundas do planeta. Tinha saído do sistema. Quando o homem o traz de volta e joga boa parte no ar, dá problema. Mas há outra fonte igualmente importante, que é a queima de florestas. Seres vivos são feitos, basicamente, de carbono, hidrogênio e oxigênio. Queime uma árvore e dois males são cometidos. O primeiro é que parte daquele carbono do tronco se manda para a atmosfera; o segundo, e mais grave, é que uma árvore consome carbono em seu processo de alimentação. Ela tira carbono da atmosfera. Queime hectares e hectares de uma floresta e o resultado é sentido pelo planeta. Em números: 20% das emissões humanas de carbono vêm do desflorestamento.

Isto quer dizer que, embora a indústria brasileira seja razoavelmente inocente e o impacto atmosférico da geração de eletricidade em hidrelétricas – nosso caso – seja mínimo, as queimadas na Amazônia fazem do país um dos maiores emissores de carbono. A Indonésia, que vem logo depois de nós em tamanho de florestas e biodiversidade, é o terceiro maior emissor do mundo, seguido de EUA e China.

O governo brasileiro se propõe a agir contra queimadas mas não quer um tratado internacional para obrigá-lo. Ele é contra, particularmente, um programa chamado REDD – Redução de Emissões por Desflorestamento e Degradação. A proposta do REDD é tecnicamente complexa pois envolve mensurar a degradação, mas pode ser resumida da seguinte forma: o mundo paga a países que tem muitas florestas para mantê-las intactas. Muitos países pobres alegam que a preservação de suas florestas atrasa seu desenvolvimento e, portanto, a melhoria de vida de sua população. Pagos num sistema de créditos de carbono, tudo é compensado.

O argumento da diplomacia brasileira é que mensurar o desflorestamento é complicado demais. E que os reais vilões são países como EUA e China que queimam carvão para gerar luz. Na verdade, Brasília não quer parecer a vilã da história. E, junto com a Indonésia, o Brasil seria, sim, o maior vilão desta história. Nossa incapacidade para preservação das matas é notória. Há quem argumente que a posição do Brasil é tola. REDD, junto com etanol, são maneiras de o país faturar alto com o problema do aquecimento global. Só precisa agir, na Amazônia, com a mesma competência que age na produção de biotecnologia agrícola e de combustíveis.

Esta, em Bali, o Brasil perdeu. Como no caso da derrota – maior – dos EUA, não quer dizer muito. Só o que se decidiu, em Bali, é que todos os países do mundo vão sentar e discutir um novo tratado para além de Kyoto. O que está decidido são só os temas da agenda de discussão.

Ainda sobre o assunto:

  1. Dez formas de combater o aquecimento global A Wired tem uma lista um tanto polêmica de coisas a fazer para diminuir a emissão de carbono e, portanto,...
  2. George W. Bush e sua derrota
    para o aquecimento global
    Para quem está no poder, ano eleitoral é sempre difícil. Quando a reeleição não é mais permitida, ano eleitoral é...
  3. Califórnia, Schwarzenegger e o aquecimento global A Califórnia tem uma das legislações mais rigorosas para a contenção da emissão de carbono que provoca o aquecimento global....
  4. São Paulo, Rio e o aquecimento global Prestem atenção nestas duas imagens – a primeira é o mapa do litoral imediatamente próximo de São Paulo; a segunda...
  5. Vamos nos entender sobre
    aquecimento global/mudança climática?
    Vamos ter um debate inteligente a respeito de mudança climática? O Darwinista, em seu blog, faz um desafio interessante e...