Um pesadelo de pedofilia na Colina do Sol

Brasil · 14/12/2007 - 00h15 - 51 Comentários

No início da semana, a Colina do Sol foi surpreendida com a prisão de quatro de seus sócios acusados de participarem de uma rede de pedofilia. Trata-se de uma cidadezinha naturista no Rio Grande do Sul, não longe de Porto Alegre.

Há quase três anos exatos, em janeiro de 2005, passei três dias agradáveis por lá. O resultado da passagem foi uma reportagem publicada em NoMínimo que, editada, dá corpo a um dos capítulos do Eu gosto de uma coisa errada. É a única reportagem do livro que nada tem a ver com sexo, embora estejam todos nus.

Fritz Louderback e Barbara Anner, um dos dois casais envolvidos, são personagens daquela reportagem e os conheci razoavelmente bem. O marido, no outro casal, é André Herdy, ex-presidente da Ynai-Brasil, Associação de Jovens Naturistas Brasileiros, e – até a terça-feira, quando foi afastado – presidente da Federação Brasileira de Naturismo.

Isto faz com que a acusação seja particularmente grave.

É um momento delicado. Em 2008, em Tambaba, Paraíba, acontecerá o primeiro Congresso Internacional de Naturismo fora da Europa. Virá gente de todo o mundo. Quando é inverno na Europa, no Nordeste acontece um verão paradisíaco – uma alternativa para naturistas estrangeiros, principalmente alemães e franceses, que cultivam o hábito da nudez por tradição, desapego sincero e desejo de liberdade. A Federação Brasileira estava investindo um bocado nisso. Aí veio a bomba.

É uma turma que se expõe, os naturistas. Já há muitos que olham desconfiados seu hábito de andar sem roupa. A Colina do Sol é um experimento ousado, um lugar no Brasil – e este pode não parecer mas é um país conservador – no qual as pessoas de fato moram, fazem compras, trabalham, criam famílias, têm filhos, todos nus. Um episódio de pedofilia envenena qualquer comunidade pequena; numa assim tão exposta, é particularmente doído.

A dúvida é perniciosa e cruel. Não custa lembrar o episódio da Escola de Base, no qual um episódio de histeria levou gente que trabalha em escola a ser acusado das piores barbaridades – e nada era verdade. Se pode ser o caso novamente? Evidentemente que sim. Mas a dúvida persiste.

A Comunidade Naturista tem um problema nas mãos. Precisará ser ainda mais rigorosa com seus critérios de seleção de quem entra e de quem sai. Por outro lado, não poderá se imbuir de um espírito vigilante, perseguidor, paranóico – não poderá se entregar ao macartismo. Se o fizer, terá aberto mão justamente da liberdade pela qual luta.

O NoMínimo está fora do ar, portanto republico após o link abaixo a reportagem. É a história da construção de uma comunidade utópica e dos personagens que se envolveram com ela. Entre estes, dois dos acusados.

A Colina

Está seco na Colina do Sol. A grama amarelada é quase palha, o termômetro parece não baixar dos 35 nem à noite. Nos dias anteriores, um foco de fumaça provocou uma corrida de carros pela vila à procura de sua origem. Era num morro distante, o fogo debelou-se. Mas o segundo alarme é pior: vem de uma das cabanas, todas foram construídas em madeira, o proprietário parece estar fora. Etacir força a entrada – novamente, um susto; fumaça contra insetos, um produto para afastar mosquitos ou aranhas das redondezas. O dono da casa havia chegado mais cedo para passar o carnaval.

Estão todos nus. Na Colina, há 88 cabanas e, contando o comércio, hotel, albergue e restaurante, passa de 100 o número de construções, todas seguindo um mesmo padrão. Em vinte delas, os moradores são permanentes, casais, famílias que optaram por viver nuas em comunidade. O número aumenta todos os anos. Gente como Raul e Beth, donos do mercadinho; Collins, o prefeito, e Marlene; Etacir e Verônica, que gerencia a lojinha de souvenires; Fritz e Barbara, com seu hotelzinho de um quarto. Marcelito e Iara tiveram o primeiro filho dali: Iago nasceu em março de 2000. Não há na América Latina coisa igual, uma cidadezinha onde todos andam nus. Nem na Europa. Poucas nos Estados Unidos.

Tuca chegou da Espanha em meados de 1995. Tinha 46 anos, estava cansado de tudo. Mal falava com a filha, já com mais de 20, cria de um namoro que desandou – na verdade, pai ausente, jamais a conheceu direito e, quando finalmente a procurou, ela não queria muita conversa. “Até hoje, parece que há uma barreira entre nós.” Seu casamento também descarrilava, a mulher tinha planos, queria ser juíza. E Tuca era um porra-louca sem rumo.

Na pilha de cartas que encontrou à porta de seu apartamento, em Porto Alegre, sacou a do amigo Celso. “Comprei uma área na Taquara para um clube”, ele dizia, “vem conhecer, vem trabalhar comigo”. Encontrou um nada: 600.000 metros quadrados a 50 quilômetros da capital gaúcha, 200 metros acima do mar, arames farpados, plantação de cebolas e gado magro. Fincou sua barraca de camping, voltou na semana seguinte para nunca mais sair.

Celso Pinto e João Ubiratan dos Santos, o Tuca, já tinham história. Dez anos antes, em 85, fizeram da Praia do Pinho, em Santa Catarina, o primeiro reduto naturista do Brasil. Era ilegal, na época. Mas quando os comboios policiais apareciam lá longe, rapidamente vestiam roupas para impedir a prisão. Tanto insistiram que o Pinho foi liberado. “Quando o Celso me escreveu”, ele lembra, “eu tinha que apostar, você não o conheceu, mas ele era esse tipo de pessoa. Este era o empreendimento dele, o olhar dele. Joguei todas minhas economias aqui.”

A Colina do Sol abriu para sócios em agosto de 95. A idéia é que fosse um clube para naturistas passarem o verão, os fins de semana, um lugar onde pudessem ter uma casinha de campo, não mais que 100 metros quadrados, de todo ecologicamente correta. No início, usavam madeira de reflorestamento crua, o que jogava para baixo o preço de construção. Os empregados do clube deveriam ser também naturistas. Tinha de ser um lugar fechado, protegido.

Aos 34 anos, nunca passara pela cabeça de Etacir Manske tirar a roupa em público. Criou-se em Águas de Chapecó, interior de Santa Catarina, de onde saiu aos 21 anos para Mato Grosso, de lá pegou o caminho de Rondônia, conseguiu emprego público, casou, teve uma sorveteria na Bahia, descasou, foi parar no Rio Grande do Sul vendendo equipamento fotográfico. Uma namorada naturista deu para freqüentar a Colina, ele achava estranho. Então, ela teve um sonho – “te vi lá”, disse, ao que ele respondeu: “trabalhar pelado? Tá louca?”

No 10 de abril, em 1996, Eta chegou, caía um temporal violento. Trabalhou com Tuca um bom tempo, na implantação da área de camping da Colina – e viveu em barraca um bocado. Só dois anos depois parou para construir a própria casa. E encontrou outras coisas para fazer. Na comunidade próxima, Morro do Céu, reuniu um grupo de meninas para formar um time de futebol que se pôs a treinar.

E os sócios vieram. Moradores de Porto Alegre, São Leopoldo, gente de mais longe até, que decidiam comprar casas. Para organizar o empreendimento, Celso e sua mulher, Paula Andreazza, optaram por um sistema de concessões. Cada pessoa podia escolher ser sócia do clube, comprar um título de propriedade com direito a terreno, ou uma concessão de serviço – o mercado, manutenção de bicicletas, telefonia, transporte. Formaram uma empresa para erguer um grande hotel.

Luiz Marcio de Rosa Melo não conhecia a filha. Chefe de segurança de um shopping em Porto Alegre, saía tão cedo que Yanka ainda dormia e chegava tão tarde, de ônibus, que ela já adormecera. Yan, o mais velho, tinha só dois anos. Um dia, numa rodoviária, seu pai soube da Colina. Ouviu dizer que era em Taquara, saltou do ônibus, andou quatro quilômetros morro acima e negaram-lhe a entrada – homem sozinho não podia. Empreiteiro, voltou no final de semana seguinte com a mulher. No terceiro, trouxe o filho, foram contratados para erguer uma cabana. Logo que a primeira terminou e outras encomendas vieram, Marcio mudou-se com a mulher, Tati, e as crianças. Seus móveis eram tão poucos e baratos que nem valeu o transporte. Em sua casa, no início, havia colchões e só.

Para ele, foi mais fácil; em quatro dias, tirou a roupa. “Lá em casa, do jeito que fui criada”, lembra Tatiane Oliveira, “não me despia nem na frente da minha mãe.” Como o marido, conseguiu trabalho na Colina – seis dias por semana, punha-se na guarita da entrada, onde roupa era obrigatória. Demorou um ano, vivendo entre gente nua, até um dia de verão a pino de 1998. “Aí quando decidi tirar, ‘hoje tá calor, hoje vou me liberar’, uma moça gritou ‘Tati, tu tá nua!’, me enrolei na canga e custou mais uma semana.”

A experiência valeu, ela ainda trabalha na recepção e recebe os novos visitantes amarrada numa canga. “Eles chegam, ‘mas, bá, só vim conhecer’, e eu digo ‘claro’, mostro o lugar e vou sentindo como vêem e aí, lentamente, desamarro, vou me despindo, e, quando você vê, eles passam o fim de semana, vêm no outro, ficam sócios, querem também uma casa.”

“Cara”, diz Tuca, “eu vim morar aqui com 70 anos de idade e hoje tenho 56.” No peito, desenha-se uma tatuagem talvez de águia, difícil de reconhecer, esverdeada, esmaecida pelo tempo. O cavanhaque é um filete sem bigode, careca com um longo tufo de cabelo que nasce da nuca e desce até os ombros, ele gesticula de sua rede no camping. “Isso aqui é minha regeneração. E cuido mesmo, tem gente que joga ponta de cigarro no chão, eu grito. Isso aqui é minha casa, tem cara de lixeira?”

Não há lixo no chão da Colina. As raras pontas de cigarro, os moradores recolhem-nas mal-humorados e tascam numa das manilhas largas que de tantos em tantos metros servem de latas de lixo. Lá, no vídeo que os visitantes assistem com introdução às regras, alertam para quem “ainda fuma”. Vários dos moradores ainda fumam. O lugar é arborizado, no mato ouve-se barulho de bicho a toda hora, preás atravessam as ruas, gaviões ganem de árvore em árvore e, quando o céu está limpo, dá para ver cada estrela que a luz noturna da cidade esconde.

A primeira utopia a ruir foi a dos empregados. A Colina não pôde se desligar da comunidade carente próxima, e nem todos de Morro do Céu mostraram-se dispostos à nudez. O clube empregou, mas teve de habituar-se, durante as semanas, à companhia de gente vestida. A segunda utopia a cair foi a das construções biodegradáveis. Com o passar dos anos, as casas, sem cimento nas fundações, começaram a afundar. Os telhados, de madeira sem tratamento, apodreceram. Marcio viu-se obrigado a desenvolver uma técnica, erguendo as cabanas com macacos hidráulicos, injetando pilares de concreto, para pousá-las depois, niveladas. Subsidiado pelo clube e cortando a margem de lucro, faz o serviço por uns 600 reais. Ainda assim, alguns dos moradores gastaram em reformas mais do que tinha lhes custado a casa. Entre finais de 98 e 2000, a Colina aterrissou no mundo do possível.

Foi também quando a insatisfação começou a aparecer ligeiramente, sussurrada ao pé do ouvido entre vizinhos. Quanto mais gente vinha morar na Colina, mais o fato de ser propriedade de Celso e Paula incomodava. Afinal, o dinheiro das concessões ia para ele, que repassava para o lugar, mas controlava tudo. E como cada título rendia um voto e ele tinha bem mais que qualquer um, sempre monopolizou as decisões. “O Celso”, Marcio lembra, “tratou a colina como a um filho que só podia fazer o que o pai deixava.” Ele tinha uma rapidez de raciocínio, um carisma, capaz de convencer a todos. Certa vez, para a tevê portuguesa, deixou o repórter atônito ao dizer “aqui no Brasil, sempre andamos todos nus, foram vocês que nos vestiram.”

Aos 17 anos, Marcelito Lima era insaciável. Já vivia sozinho, tinha transado aos 14 e seguia o exemplo dos quatro irmãos mais velhos: não podia passar menina que fosse ali por Pelotas. Forte, lutava caratê, com o vago sonho nunca realizado de estudar medicina. De todo indisciplinado. Então, conheceu Iara. Ela tinha 14 anos, uma guria linda, loura, tinha a faixa de “Garota Pelotense” e era presença constante nos clipes da tevê regional. Ele chegou perto – mas ela era filha da dona Zenir, professora do Sílvia Mello, justamente seu colégio. Dona Zenir era do pior tipo de professora: austera; e ele, naturalmente, era do pior tipo de aluno.

Mas em algo encantou a menina Iara, apesar do vacilo inicial: achou que seu pai era avô. Apresentou sua mãe aos pais da moça, tudo como cabe num namoro direito da tradicional família. E as coisas já iam mais ou menos bem fazia um mês quando bateu à porta da menina. O senhor ex-padre da Teologia da Libertação, perseguido pela ditadura, professor de teologia que Marcelito um dia achou com cara de avô da namorada o recebeu nu. “Achei que era gay, né?” Mas, quando entrou, dona Zenir também estava nua. Como Zumbi, o filho caçula. E Iara.

Ela interrompe sua história, rindo, “Imagina você, chega na casa da sua namorada, e ela pelada?” Marcelito tira a roupa, fica de cuecas; “não, é tudo”, diz o sogro. “Isso era uma idéia do meu pai, mesmo. Desde pequenos, mais de metade das minhas fotos de infância a gente está sem roupa. Íamos à praia do Cassino, regiões desertas. Só que não dava para ficar falando no colégio. Quando estava ficando mais adolescente e as minhas amigas iam lá, eu falava para botar roupa. O pai e a mãe sempre falaram muito conosco, até sobre isso de começarmos a namorar muito cedo, ele sempre dizia ‘ó, vocês não se prendam’, porque ele foi padre até os 50, ele mesmo começou a vida sexual dele tarde, aí ele viu, a gente, que era novo, e achava que tinha que aproveitar porque, e depois, se passa a adolescência e descobrimos que não ia dar certo?”

Em 1998, Marcelito e Iara, como também Zumbi, seu irmão, mudaram-se para a Colina. A mãe de Marcelito já o visitou, como um de seus irmãos – “mas eles nunca se pelaram”. Os dois riem quando ela conta: “O irmão dele me vê pelada e pensa ‘bá, que cara trouxa’.” Como muitas das meninas, durante a semana Iara não anda pelo espaço de todo nua – a canga, ela a amarra na cintura ligeira qual minissaia, que um vento leve ou um cruzar de pernas expõe. É por conta dos funcionários vestidos. Eles já não olham mais, estão acostumados. “Mas o cara vestido põe um pudor, não tem jeito.”

Organizada de forma que lembra Brasília, a Colina divide-se em setor comercial, duas asas residenciais, e um grande núcleo de lazer onde há um lago artificial com praia de areia e uma piscina feita em pedra, o restaurante, o hotel e um prédio com a central de Internet, a academia, sauna e alguns quartos baratos para alberguistas. Como opção intermediária, há também o camping de Tuca.

Há alguns anos, quando a tevê portuguesa esteve lá, Marcelito e Iara ganharam popularidade internacional. O documentário, que os apresentou como Adão e Eva da Colina, estourou a audiência e atiçou polêmica por semanas pelo fato de o repórter ter-se despido, vindo a ser obrigado a enfrentar a ira conservadora em programas de auditório. Seu patrão gostou tanto que o promoveu.

Aos 30 anos, Marcelito é o conselheiro de ética da vila. Às vezes, precisa resolver o tipo de problema que naturistas consideram gravíssimos. Uma vez, flagrou um rapaz e sua namorada, visitantes de fim de semana, enlaçados aos beijos, ele ereto, camisinha ao lado, próximos à piscina. Foram expulsos, seus nomes caíram numa lista negra, banidos de todos os recantos naturistas do Brasil. Casais naturistas não se beijam e não se abraçam a não ser dentro de casa com porta fechada, contato físico mais próximo não é possível. E há crianças circulando. Esse tipo de situação é rara, na maioria das vezes as disputas são entre vizinhos que, para evitar o bate-boca, dirigem-se a Marcelito para a intermediação.

E discussão, na Colina do Sol, como na aldeia de Astérix, não tem nada de raro. Junte-se dois gaúchos e, como na piada dos dois judeus, surgem três opiniões. Todo gaúcho é do time vermelho ou do branco, queira isto dizer maragato ou pica-pau, colorado ou gremista, petista ou anti-petista – e defende com verve suas opiniões.

Mas a maior verve não é de nenhum gaúcho, é a de Jürgen Wendscheck, que todos conhecem por Jorge, um alemão de 63 anos, radicado há décadas no Brasil e que bem preferia viver no sol nordestino, mas não há lugar como aquele no litoral norte. Tem fama de quem não pára de reclamar. Careca, olhos puxados, invariavelmente acompanhado da bela Solange, 23 anos, uma negra retinta que é a segunda baiana com quem casou – “não gosto de brasileiras, gosto de baianas” – é dos que como Eta e Tuca andam sempre nus. No caso dele, em quem casca alemã substitui a pele, isso vale mesmo para quando a temperatura cai. Não suporta inverno. Passa o verão na Colina e o inverno num resort naturista de seu país, onde é verão. E vocifera, ergue-se, faz discurso na roda de cerveja e cachaça do mercadinho.

“Naturismo não é natural. Todo nudista tem que ser masoquista, você tem que ficar se reprimindo sexualmente o tempo todo, porque não dá para ser diferente. Só uma minoria é nudista e a minoria sabe que há algo de errado com isso, fica insegura. Eu não tiro a roupa só por tirar, isso de os nudistas vestirem-se, mesmo que pouco, é uma tendência muito chata no mundo todo. Os outros estão vendo? Não tiram o olho? Ver não tira pedaço, que vejam. Hoje, tem praia nudista na França a que alemão não vai mais, porque as pessoas estão com camisa, querem mostrar o Lacoste no peito. Quando você está nu, é só você, ninguém sabe se tem dinheiro ou se não tem, mas, quando bota a roupa nos campos naturistas, está cedendo à cultura têxtil e ao status e à moda que vêm junto.”

Na virada do século, o SBT Repórter fez um especial sobre a colônia e suas imagens, no dia seguinte, foram aproveitadas no Programa do Ratinho, que se largou a ridicularizar as pessoas. Rendeu processo – havia uma permissão de uso de imagem específica para o programa de reportagens – e também uma grande desconfiança por parte dos moradores com jornalistas.
Uma das pessoas que assistiram ao programa era Raul de Oliveira, na época dono de uma padaria em Igrejinha, uns 30 quilômetros longe, no caminho para Gramado. Raul é o gaúcho arquetípico, com bigode espesso e cuia de chimarrão sempre próxima. Em 1999, vivia tenso, com revólver na cintura, dado o número de assaltos ao comércio local – jamais precisou da arma, mas o estresse era suficiente para que perdesse o sono, tentando captar qualquer ruído estranho no lado de fora. Beth, sua mulher, tinha se aposentado como professora do estado fazia pouco tempo.

A idéia de visitar a Colina foi dela. Um dia, vieram, entraram, nunca mais saíram. Ele vendeu a padaria em Igrejinha, comprou de Marcelito a concessão do mercado, ampliou o espaço, variou a quantidade de produtos. Os primeiros dois anos foram difíceis até conquistar freguesia e convencer os moradores de que não era preciso descer a Taquara para comprar o que precisavam. Hoje, quando sai às compras, liga para cada cabana e pergunta se querem algo de especial. Suas duas filhas adultas moram nas redondezas e até se despem quando visitam, mas tocam suas vidas à distância.

Outra que assistiu ao programa, também nas proximidades, era Verônica Domingos, então com 20 anos, operária da indústria de calçados, casada. Seu pai morava em Morro do Céu, o que lhe chamou a atenção para a história. Ao ver Etacir na tevê, com cabelos compridos, atiçou o marido: “Ainda vou conhecer este cabeludo.” Ele retrucou: “Então vai.” Não foi. Com o passar do tempo, separaram-se, Verônica pediu acolhida ao pai e soube que havia um time de futebol feminino por ali. Conheceu Eta como técnico e, quando ele a convidou depois de um tempo para conhecer a Colina, ela respondeu: “Achei que nunca ia convidar.” Em janeiro de 2003, juntaram-se e ela foi morar na comunidade. A essas alturas, Eta era veterano de 8 anos na Colina. Juntos, os dois tocam a lojinha de souvenires e exploram a logomarca do lugar, vendendo camisetas, chaveiros, o que for. E muitas cangas – todos andam com canga pendurada no pescoço, homens e mulheres, por uma questão de higiene, para proteger na hora de sentar.

Ao longo do tempo, mudanças estruturais foram ocorrendo na gerência da Colina do Sol. Foi a mudança do Código Civil em 2004 no entanto, que finalmente forçou uma mudança nos estatutos, abrindo para cada residente ou sócio um voto e não mais que isso. Um brasileiro residente nos EUA já havia comprado um bom naco da parte de Celso e Paula, para distribuir os poderes e fazer com que mais dinheiro viesse para a administração. Quando o investimento do casal foi reposto, eles decidiram deixar a comunidade. A Colina virou de todos.

Era um rompimento traumático, mas a presença dos fundadores continua em todas as conversas e talvez nunca deixe de estar. Depois de tanto tempo, são lembrados mais com admiração do que rancor. Foi com sua saída que o Conselho Deliberativo, formado por eleição com sete titulares e dois suplentes, ganhou mais poderes. O mais votado, Colin Peter Collins, foi escolhido para coordenador, o que equivale mais ou menos ao cargo de prefeito.

Collins tem 61 anos, é um inglês alto e magro que, mesmo há quatro décadas no Brasil, casado com a cearense Marlene há 18 anos, ainda mantém um porte aristocrático britânico, sua fala pausada – pensa antes de encaixar cada palavra numa frase e não se priva de reformular um argumento em prol da clareza. Quando criança na Inglaterra do pós-guerra, não sabia que havia algo como naturismo mas, se tinha a oportunidade de deixar as paredes do colégio interno, caminhava na floresta até algum canto remoto onde se despia. “Era algo totalmente espontâneo que eu não ousava contar nem para minha mãe, mas assim me sentia bem.” É obsessivo com regras de conduta.

“Você veja, parece que o clube tem muita norma, mas as normas daqui são as mesmas normas que existem lá fora, embora nem sempre sejam seguidas. Na colina, tomamos muito cuidado com nossos vizinhos, precisamos nos respeitar até por estarmos mais expostos. Se há uma criança na rua, sempre alguém está observando para que não se machuque. À noite, não ouvimos barulho de uma cabana vizinha. A roupa serve para camuflar a pessoa que temos dentro. Após certo tempo, você não vê mais a pessoa nua. É igual militar, sempre com a mesma roupa. Se tomamos cuidado com qualquer conotação sexual, não pode dançar junto a não ser vestido, não pode trocar carícias, é porque, principalmente, não pode haver qualquer mal-entendido. Conservadores. Esta é a palavra adequada, devemos ser conservadores.”

Collins lidera cautelosamente a Colina por um período de transição, até que uma segunda revisão estatutária eleve para nove o número de conselheiros, será aprovado. É um momento crítico para que salte finalmente de clube para cidadezinha auto-sustentável. A área toda é coberta por acesso à Internet com banda larga sem fio, wi-fi, um sistema organizado pelo gaúcho Sergio Quednau, 40 anos, que revende licenças de uso por 99,99 reais ao mês. Agora, planeja oferecer também um sistema de voz sobre IP, com interface no computador, mas também, para quem quiser, pelo telefone, o pesadelo de toda companhia de telecomunicações. “Mas não basta esta conexão virtual”, ele explica, “precisamos também de transporte, como já houve, entre a Colina e Porto Alegre, para que as pessoas possam trabalhar e voltar à noite.” Vários trabalham na capital e usam suas cabanas na Colina como casa de fim de semana, mas, aumentada a infra-estrutura, cogitariam mudar-se de vez.

O empurrão para o crescimento é disparado em parte por Fritz Louderback e Barbara Anner, um casal de californianos que se mudou para a Colina em 1999. Na época, ambos se aproveitaram de mudanças nas regras, que permitiam a compra de mais de um lote para que as cabanas, embora seguindo o mesmo padrão, pudessem ultrapassar a cota de 100 metros quadrados, erguendo casarões confortáveis.

Foram dos primeiros a construir na segunda asa residencial, onde bichos de estimação são permitidos. “Americanos gostam de bichos, então é por isso que eles costumam vir para cá.” Embora nem todos sejam estrangeiros ali, o canto ficou conhecido na comunidade como Vila dos Americanos e, com seus largos gramados interrompidos por casas espaçosas, bem lembra a organização de um típico subúrbio dos EUA dos anos 50.

Os pais de Fritz, que hoje tem 61 anos, eram naturistas, como são seus filhos e os de Barbara. Dedicou-se durante 24 anos como piloto de caça à Marinha norte-americana, trouxe do Vietnã uma medalha Purple Heart, concedida aos feridos em batalha, e, ao entrar na reserva no posto de comandante, comprou uma empresa de software que prestava serviços ao Pentágono. Depois de 15 anos, vendeu o negócio para a British Aerospace e aposentou-se com Barbara, então diretora da Associação Norte Americana de Naturistas. Ao requerer no Consulado de Palm Beach o visto de residente aposentado, decidiram alistar também o tio de Fritz, Barney, 89 anos, que, no último aniversário, largou enfim sua motocicleta. Comprou um buggy.

Na cabana do casal, funciona o Dois Amigos Bed and Breakfast, albergue que recebe um casal ou dois por vez, às vezes americanos que não falam português, outras tantas alemães, mas também escoceses, israelenses, franceses. Eles enviam DVDs sobre a Colina do Sol para todos os que procuram seu site, uns 40 ou 50 todo ano. Destes, pelo menos metade faz uma visita, dez entram de sócios para o clube e, todo ano, Fritz termina construindo duas casas para quem quer se aposentar ali. Com a escalada do custo de vida nos EUA e Europa e o achatamento das aposentadorias pagas pelos sistemas públicos de previdência, a moeda forte que vale pouco no exterior tem grande peso no Brasil e, principalmente, na Colina, onde as coisas são muito baratas. Por toda a parte há casas em construção.

O dinheiro arrecadado por Fritz e Barbara é reinvestido na Colina, na constante reforma da estrada de terra e no cuidado de crianças das redondezas com problemas físicos que requerem atenção nos EUA, concedida pela rede de hospitais maçônicos Shriners. Para uma menina que vive na Colina e não tem as mãos por conta de um problema de nascença, Fritz certa vez conseguiu carona num avião da Força Aérea norte-americana.

Outro destino do Fundo Dois Amigos, engordado por doações de entidades e indivíduos naturistas de toda parte, é o natal das crianças de Morro do Céu. Uma caravana puxada por Tuca do camping e Raul do mercado, no último dezembro, levou 2.000 brinquedos e um Papai Noel.

O pulo do gato para a sustentabilidade da Colina é reconhecer a vocação turística. Para isto, é preciso que o Hotel Ocara seja terminado – apenas uma ala, de trinta quartos, está pronta. Segundo o projeto, ele terá forma de U, ganhando um segundo braço de mesmo tamanho e, no miolo, funcionará uma área coberta para recreação de inverno, como piscina de vôlei aquático, um dos esportes favoritos entre naturistas no exterior. As obras, no entanto, estão empacadas por conta das dificuldades brasileiras de financiamento.

Na segunda-feira, último dia de janeiro de 2005, pouco antes do carnaval, o repórter Pedro Doria, 30 anos, chegou à Colina para fazer um perfil da única cidadezinha da América Latina onde as pessoas andam nuas. À época colunista do site “NoMínimo” e da revista dominical da Folha de S. Paulo, Pedro estava já há pouco mais de seis meses dedicado a uma série de reportagens sobre comportamento sexual. Foi numa destas, entrevistando o fotógrafo norueguês Petter Hegre, que soube da existência da comunidade. Custou-lhe um mês negociando, telefonemas constantes e um longo email de apresentação.

Estava apreensivo. Sabia que, na área residencial, a nudez não era obrigatória, por conta de os moradores receberem visitas que não necessariamente são nudistas. Mas sabia também que para conhecer todo o lugar, despir-se seria inevitável. E o prefeito local, Colin Peter Collins, já havia deixado claro no primeiro telefonema que, se ele esperava conversar com as pessoas e ouvir suas histórias, deveria comportar-se como todos.

Ao aterrissar no Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, foi recebido por Fritz Louderback, que coincidentemente esperava dois hóspedes norte-americanos que chegariam aproximadamente no mesmo horário. Na Colina, após registrar-se na recepção, Pedro seguiu ao hotel e decidiu vestir um short, colocando máquina fotográfica, blocos de notas, canetas e lapiseira numa mochila. Collins o recebeu menos de uma hora depois, para guiá-lo num tour a pé pela propriedade. Ao entrarem numa área onde as placas vermelhas exigiam nudez total, o coordenador não lhe pediu nada – só após alguns minutos é que o jornalista achou por bem perguntar se devia livrar-se da roupa. “Seria conveniente”, ele respondeu com altivez britânica. Mas foi tornarem à área residencial que Pedro de presto vestiu-se novamente.

A primeira entrevista, com Eta e sua mulher Verônica, à porta de sua lojinha de souvenires, ele conduziu-a vestido. Conversaram por mais de hora sem que o casal mencionasse o fato. Quando a história que contavam chegou ao ponto da primeira vez, o repórter comentou com Eta que havia de ser difícil o auto-controle, afinal, “com tanta mulher circulando por aí”. O entrevistado riu e respondeu que todo mundo acabava se acostumando. Verônica completou, confiante, “você vai ver”. Após um novo tour, no qual foi apresentado a diversos moradores, Pedro tornou ao hotel para um chuveirada – estava seco e quente, muito quente, na Colina. Ao sair do banho, calçou meias e tênis, pegou a mochila e prosseguiu com seu trabalho. Fazia pouco mais de quatro horas que havia chegado.

Ao anoitecer de seu segundo dia de trabalho, quando finalmente uma chuva miúda veio salvar os gramados e derrubar a temperatura, ele quase lamentou a necessidade de vestir-se por conta do frio. Só Jorge, o alemão, continuou nu na Colina do Sol.

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