O mundo visto pelos leitores: Irã

Depoimentos · Irã · 13/12/2007 - 02h49 - 77 Comentários

De um leitor Anônimo

Teerã é meio parecida com São Paulo, uma megalópole caótica com lá seus encantos. É uma cidade limpa, muito asseada, particularmente bonita no inverno, quando neve a cobre toda e se tem uma visão magnífica dos Montes Alborz, aos pés dos quais a capital se espalha. Nem parece Oriente Médio. A parte norte, onde reside a classe média alta secularizada e ocidentalizada, é bastante arborizada, com parques e praças muito bem cuidados. É onde vivo. O antecessor do Ahmadinejad na prefeitura de Teerã, Gholamhossein Karbaschi, realizou grandes obras paisagísticas por aqui.

Por aqui, cada dia levam menos a sério o Ahmadinejad – e isso inclui o povo que o elegeu. Com a classe média urbana de Teerã, ele não é nem um pouco popular. Seu apoio vem do sul da capital e do interior, sobretudo nas cidades mais conservadoras, como Mashad e Qom. Parece que ele foi um bom prefeito de Teerã, ganhou fama de honesto, se elegendo presidente com a promessa de acabar com a corrupção e botar o dinheiro do petróleo na mesa do povão. Para mim, ele é a versão iraniana do Jânio Quadros. Mas o que está acabando com sua popularidade é a condução desastrosa da economia. Embora devamos levar em conta as restrições mais rigorosas aplicadas contra o país nos últimos meses, elas não são as únicas responsáveis pela deterioração rápida de todos os indicadores econômicos: inflação, custo de vida, desemprego, taxa de juros, nível de renda. Ahmadinejad trocou vários quadros técnicos do Governo Khatami e colocou pessoas de sua confiança, sem experiência, nos cargos.

Os iranianos são abertos e cosmopolitas, uma gente bem informada que acompanha o que se passa no mundo com interesse. O nível educacional é alto. Mesmo na parte sul da cidade, onde moram os mais pobres, não é raro encontrar famílias com cinco ou seis filhos, todos com diploma universitário. Eles se orgulham de sua civilização, que remonta à Pérsia aquemênida. Para eles, receber bem estrangeiros é um traço superior de sua cultura. Ser um bom anfitrião é quase uma obrigação civilizacional. O único vizinho com quem me relaciono é meu senhorio, um sujeito muito gente boa. E as mulheres formam boa parte da força de trabalho do Irã, inclusive no serviço público e na polícia. Dizem que elas já são mais da metade dos estudantes universitários.

Aqui na capital, onde a maioria da população é de etnia persa, todo mundo fala a língua oficial, farsi, que é o persa moderno. Mas se perguntarem alguma coisa para os peões de obra ou para os zeladores de edifício no meu bairro, eles provavelmente responderão em dari, a variante do farsi falada no Afeganistão. A maioria dos imigrantes são afegãos que vêm trabalhar como mão-de-obra não-qualificada e o segundo maior grupo é composto pelos refugiados iraquianos que se estabeleceram depois da Primeira Guerra do Golfo. Teerã está também cheia de diplomatas e expatriados como eu, que trabalham em multinacionais. O resto da população nativa é composta pelas etnias azeri, armênia, curda, turcomena e balúchi, que normalmente fala o farsi como segunda língua, e mantém sua língua materna em casa.

A vida noturna é dentro de casa. Os iranianos fazem muita festa, convidam de amigos para casa e ficam dançando até altas horas – só tomam algumas precauções para evitar problemas com a polícia. Paquera é mais complicado. O rapaz ou a garota estão caminhando na rua ou de carro no trânsito. Quando um se interessa pelo outro, o aborda e oferece ou pede o número do telefone celular. Se a coisa for adiante, eles marcam um encontro num café ou na casa de um amigo. Um dos grandes eventos sociais de Teerã são os engarrafamentos da quinta-feira à noite, quando a garotada troca números de celular adoidado.

A questão da AIDS é que é um mistério. Parece que há políticas do governo e é muito fácil encontrar camisinha. Uma vez tomei um susto ao entrar numa farmácia e me deparar com um enorme mostruário com preservativos de todas as marcas e modelos. Mas a única vez em que vi alguma campanha foi um cartaz bilíngüe farsi-inglês discretíssimo, no aeroporto, com o seguinte mote: ABC – ‘A’bstinence, ‘B’e faithful, ‘C’ondom. (A propósito, o site do programa brasileiro de prevenção à AIDS é bloqueado.)

A relação com homossexualidade é também curiosa. Pela sharia, a lei islâmica, relações homossexuais não são permitidas. Mas os transexuais são aceitos. Pelo o que entendi, a cirurgia de mudança de sexo é levada em consideração porque transexualismo é visto como distúrbio psquiátrico que requer tratamento adequado, incluindo, se for o caso, a cirurgia ‘corretiva’. Há uma agência governamental que emite um documento para os candidatos à cirurgia. Se a polícia os pára na rua por estarem vestidos de mulher, eles apresentam o papel e pronto. Parece até que existe uma justificativa de ordem teológica dentro do xiismo, mas não saberia explicar os detalhes.

A comida nacional é o kebab, um churrasquinho que apresenta variantes. O mais clássico é o kebab koobideh, espetinho assado na brasa de carne de ovelha moída com cebola, acompanhado de arroz com manteiga e açafrão além de tomate, também assado na brasa. Há uma bebida tradicional chamada doogh, uma espécie de soro obtido da produção de iougurte ou coalhada. Toma-se adicionando algumas ervas e até sal. Embora o Irã seja um país islâmico, onde o álcool é proibido, há muito contrabando de bebidas. Eu arriscaria fazer um top five: Johnie Walker, vodka Absolut, rum Bacardi, gim Bombay Saphire e cerveja Tuborg.

Este não é um país que passaria no ‘teste do caixote’ (aquele do sujeito ir para o meio da rua, subir no caixote e fazer um discurso contra o governo; se o cara não for preso, então há total liberdade de expressão no país), mas é impressionante a quantidade de jornais que circulam. E todo mundo faz piada sobre o governo, muitas vezes sofisticadíssimas.

Leio os jornais locais em inglês: Khayan International, Tehran Times, Iran News e Iran Daily. São todos meio chapa-branca, mas é possível identificar a posição de cada um no espectro ideológico. Além disso, leio a Economist, que chega meio atrasada. Não há tevê a cabo, então sobram os sete canais locais, todos em farsi. A solução é antena parabólica, que pega canais de tudo quanto é lugar. É proibida mas todo mundo tem. Meu canal preferido é a Al-Jazeera em inglês: excelentes reportagens e linha editorial. Os iranianos, desconfio, gostam mesmo é de assistir à Voice of America em farsi. Aqui tem banda larga, mas Internet é severamente controlada. Muitos sites são bloqueados, incluindo os brasileiros Casseta & Planeta, Kibeloco, Paparazzo e todos os do Terra. Mas, curiosamente, já acessei várias vezes o jornal israelense Haaretz, e, uma vez, até o site do Mossad.

A maioria da população é muçulmana xiita. A revolução de 1979 instituiu um sistema político em que a leitura da vertente xiita do Islã desempenha papel fundamental em todos aspectos da vida dos cidadãos. A constituição da República Islâmica se baseia numa premissa fundamental. O período que vivemos atualmente, entre o ocultamento do 12º sucessor de Maomé (o ‘Mahdi’) e o Juízo Final é uma era de trevas e grandes iniqüidades. Na ausência do Mahdi, a legitimidade política repousa sobre ‘Jurisconsulto Supremo’ (o aiatolá Ali Khamenei), que faz as vezes de ‘vigário do Mahdi’ na terra. De qualquer forma, a constituição assegura a proteção das principais minorias religiosas — cristãos armênios e assírios-caldeus, judeus e zoroastrianos.

Este regime político é um animal raro. A definição mais utilizada é ‘república teocrática. Certamente não é um parlamentarismo, mas está longe de ser presidencialista. O governo está muito presente na vida diária das pessoas. Embora a República Islâmica não tenha nada contra a propriedade privada, mais de 80% da economia está nas mão do estado ou de cooperativas semi-estatais. Eleições parlamentares ocorrem periodicamente, e, bem ou mal, todas as regiões estão representadas no parlamento. É difícil falar em direita e esquerda, ainda mais hoje nesse refluxo conservador (outro denominação que não é muito exata) pós-Khatami. Vários dos ditos conservadores defendem políticas econômicas semelhantes às que eram aplicadas na União Soviética.

A maior parte das festas populares são de cunho religioso e a mais importante e famosa delas é a Ashura, celebração do martírio do Imã Hussein, na batalha de Karbala. É festa em que os fiés se penitenciam e praticam a caridade. Mas, por questões de saúde pública, ninguém mais no Irã se flagela na Ashura até sangrar, como era comum ver na TV brasileira dos anos 80.

O maior problema, evidentemente, é a inserção anômala do país no sistema internacional, em decorrência de seu regime político. O projeto político da República Islâmica enfrenta uma profunda crise, inclusive interna, com conseqüências imprevisíveis para o resto do mundo. Mas o iraniano médio gosta dos EUA, ou pelo menos não lhe dirige grande antipatia. Quase todo mundo assiste a filmes e ouve músicas americanas, e é difícil achar alguém na classe média que não tenha pelo menos um parente morando por lá, quase sempre na Califórnia. O negócio de ‘Morte à América’ é coisa das paradas militares, só.

Quem eles odeiam mesmo são os ingleses; tudo o que acontece de ruim, para os iranianos, é culpa da Inglaterra.

O pessoal de classe média educado que viveu a Revolução Islâmica está convencido de que o grande catalisador do processo revolucionário foi a BBC. Um dia conversava com um amigo iraniano e ponderei se essa paranóia com os ingleses não era meio exagerada. Perguntei se não era meio absurdo achar que a Inglaterra estaria por trás da eleição do Ahmadinejad, ao que ele respondeu: “Mas é claro que foram os ingleses que o elegeram!”

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