Ninguém deveria fazer analogias impunemente. Mas eu diria que há um paralelo, hoje, com o qual deveríamos nos preocupar. Como no final dos anos 1920, a impressão de que se tudo for deixado ao desejo do mercado, o laissez-faire, se o governo largar a mão, há uma tendência divina para que tudo dê certo. Laissez-faire, laissez-passer, é mais que um fato, está além dos governos, é um compromisso teológico com o fazer nada partindo-se do princípio de que a economia não falhará – uma idéia neoclássica com raízes clássicas que originam em Adam Smith e David Ricardo.
Fui editor da Fortune sob o comando de Henry Luce, o fundador da Time, que foi um dos mais duros editores que jamais conheci. Henry via um texto e dizia ‘Isto sai, e isto, e isto’ e sobrariam oito ou dez linhas que diziam tudo que você disse antes em vinte. A segunda coisa a respeito de texto é óbvia que é ter noção da música, a sinfonia das palavras, fazer com que a expressão soe bem aos ouvidos. Como ter sucesso nisso, não sei.
Kennedy tinha um instinto para a realidade. Ele se mantinha em contato com a realidade, ou ao menos tentava. Se sentia obrigado a isso. Reagan é o primeiro presidente vindo de nossa maior tradição teatral, que é Hollywood. E, para ele, há tanto o script quanto a realidade. Ele não se sente confinado à realidade. Ele lê um discurso como se fosse um script. Nós somos um povo sensível a esta teatralização. Preferimos o script, é sempre mais agradável do que a realidade.
John Kenneth Galbraith, 1986.




