Eu tinha um amigo, o FerVil. Foi assassinado estupidamente, numa tentativa de assalto, há três anos e meio.
Fiz minha visita bimestral ao Orkut, ontem, e o dele era um dos retratos de amigos me encarando. Visitei seu perfil como não fazia desde sua morte e segui lendo os scraps. Os primeiros tantos são spams que ninguém jamais apagará. Daí, em seu aniversário de 34, alguns amigos alertados pelo sistema aparecem para registrar as saudades.
Ali por 2005, umas tantas moças escrevem para reclamar que a página que vêem quando abrem o Orkut era a do FerVil. É que por um tempo, no Google em português, quem buscasse ‘orkut’ encontraria o perfil dele nas primeiras colocações; ao invés de clicar no endereço do site, clicavam para vê-lo sem se perceberem disto. Elas estão todas indignadas. ‘O que você fez no meu Orkut que aparece sempre?’ ‘Quem é você?’ ‘Sai de mim.’
Um amigo nosso comenta: ‘inventou o ghost hacking?’ – aí ele ri consigo em smileys sucessivos. Uma moça pergunta, ‘também sou Villela, será que somos parentes?’ Não há resposta. Outra, do nada, assim gratuitamente: ‘se morreu, é?’ Este comentário me incomoda. Mais spams. Um amigo dele fala do filho, dá notícias – é um meninão, já. Um dos últimos posts do FerVil em seu blog registrava o nascimento.
Desejos de feliz Natal. Mensagens pelo aniversário de 33. Lembranças nos dois anos de seu assassinato. Lembranças no aniversário de 32. No de 31.
Ele tinha 30 quando foi morto, mas em seu perfil no Orkut lá está o 34. Por quanto tempo usaremos este site de relacionamentos aqui no Brasil? Mais cinco, seis anos? Lá estará que FerVil tem 40 anos, mas no retrato continuará o garotão, com sorriso escancarado.
Muito já se escreveu, evidentemente, sobre perfis de gente que morreu. Muito se escreveu por nada – não há o que dizer, é só uma constatação. Um dizer que a Internet existe e que nós humanos continuamos a morrer, agora deixando rastros virtuais. Era um sujeito querido, gentil e do tipo que conhecia gente à beça. Então sempre haverá quem veja seu nome em negrito no dia do aniversário, que passe por lá para falar das saudades. E, vez por outra, como aconteceu comigo, seu rosto é sorteado aleatoriamente entre os amigos registrados para uma lembrança constante.
Tínhamos a mesma idade e escolhemos uma mesma carreira na mesma época, o jornalismo na Internet. Éramos uma meia dúzia lá por 1995, 96. Impossível que não nos cruzássemos a toda hora.
Seu rosto ali, vez por outra aparecendo, traz esta sensação esquisita de vazio.
(FerVil foi assassinado em julho de 2004. Acelerou o carro para tentar escapar de uma tentativa de assalto, o rapaz com o revólver na mão não teve dúvidas: apontou, atirou a esmo contra o veículo. Por nada. No início de 2006, foi condenado a 25 anos de prisão.)




