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Um velho amigo no Orkut

December 7th, 2007 · · 30 Comentários

Eu tinha um amigo, o FerVil. Foi assassinado estupidamente, numa tentativa de assalto, há três anos e meio.

Fiz minha visita bimestral ao Orkut, ontem, e o dele era um dos retratos de amigos me encarando. Visitei seu perfil como não fazia desde sua morte e segui lendo os scraps. Os primeiros tantos são spams que ninguém jamais apagará. Daí, em seu aniversário de 34, alguns amigos alertados pelo sistema aparecem para registrar as saudades.

Ali por 2005, umas tantas moças escrevem para reclamar que a página que vêem quando abrem o Orkut era a do FerVil. É que por um tempo, no Google em português, quem buscasse ‘orkut’ encontraria o perfil dele nas primeiras colocações; ao invés de clicar no endereço do site, clicavam para vê-lo sem se perceberem disto. Elas estão todas indignadas. ‘O que você fez no meu Orkut que aparece sempre?’ ‘Quem é você?’ ‘Sai de mim.’

Um amigo nosso comenta: ‘inventou o ghost hacking?’ – aí ele ri consigo em smileys sucessivos. Uma moça pergunta, ‘também sou Villela, será que somos parentes?’ Não há resposta. Outra, do nada, assim gratuitamente: ‘se morreu, é?’ Este comentário me incomoda. Mais spams. Um amigo dele fala do filho, dá notícias – é um meninão, já. Um dos últimos posts do FerVil em seu blog registrava o nascimento.

Desejos de feliz Natal. Mensagens pelo aniversário de 33. Lembranças nos dois anos de seu assassinato. Lembranças no aniversário de 32. No de 31.

Ele tinha 30 quando foi morto, mas em seu perfil no Orkut lá está o 34. Por quanto tempo usaremos este site de relacionamentos aqui no Brasil? Mais cinco, seis anos? Lá estará que FerVil tem 40 anos, mas no retrato continuará o garotão, com sorriso escancarado.

Muito já se escreveu, evidentemente, sobre perfis de gente que morreu. Muito se escreveu por nada – não há o que dizer, é só uma constatação. Um dizer que a Internet existe e que nós humanos continuamos a morrer, agora deixando rastros virtuais. Era um sujeito querido, gentil e do tipo que conhecia gente à beça. Então sempre haverá quem veja seu nome em negrito no dia do aniversário, que passe por lá para falar das saudades. E, vez por outra, como aconteceu comigo, seu rosto é sorteado aleatoriamente entre os amigos registrados para uma lembrança constante.

Tínhamos a mesma idade e escolhemos uma mesma carreira na mesma época, o jornalismo na Internet. Éramos uma meia dúzia lá por 1995, 96. Impossível que não nos cruzássemos a toda hora.

Seu rosto ali, vez por outra aparecendo, traz esta sensação esquisita de vazio.

(FerVil foi assassinado em julho de 2004. Acelerou o carro para tentar escapar de uma tentativa de assalto, o rapaz com o revólver na mão não teve dúvidas: apontou, atirou a esmo contra o veículo. Por nada. No início de 2006, foi condenado a 25 anos de prisão.)

Tags: Blogosfera · Tecnologia

30 Comentários até agora ↓




  • 1 Nassau // 7/December/2007 às 12:36

    Caro Dória,

    Meus sinceros pesares. Há uns três também perdi um grande amigo, não chegava a ter trinta anos, mas foi por causas naturais. Ele e sua esposa dormiam em nossa casa, nós na dele, saímos juntos com muita frequência. Ele também tinha um perfil no Orkut. Enquanto você narrava a sua perda, eu me lembrava dele. No entanto as circunstâncias em que seu amigo perdeu a vida é mais do que desconcertante. Fica o meu registro e a minha empatia
    Abraço.

  • 2 mone // 7/December/2007 às 12:55

    Realmente lamentável a morte do rapaz.

    E visitar o perfil de alguém que já se foi é estranho. Dá uma sensação de fragilidade….
    Nunca concordei com os rituais que acompanham a morte. Parece uma maneira de curtir a dor até não poder mais. Agora passamos ao virtual.

  • 3 Ricardo Cabral // 7/December/2007 às 13:07

    Mone, boa parte desses rituais são justamente para que a morte fique por lá, no passado, e para que os que permanecerem vivos consigam “virar a página” e seguir em frente. Não ritualizar nada consegue ser bem pior, porque dificulta ainda mais a elaboração dessas perdas… Ter uma ou duas datas específicas para lembrar, funciona tb como uma maneira de vc não ter que ficar grudado naquele que se foi durante o resto do ano…

  • 4 Rachel // 7/December/2007 às 13:41

    Em 2006, em Londrina, durante um congresso brasileiro de zoologia, uma laje caiu sobre o salão onde eram realizadas as inscrições e matou 2 univesitários da USP de Ribeirão Preto. Outros 2 perderam as pernas e 4 ficaram bastante feridos.
    Eram todos meus calouros.
    Ver as fotos dos que morrerão do orkut e ler as mensagens de amigos e familiares foi das coisas mais terríveis que esse site de relacionamentos incitou. Era-me impossível não entrar na página de cada um, diariamente, e ler o que haviam postado, as comunidades das quais faziam parte, os amigos em comum.
    Mórbido. E triste.

  • 5 Rachel // 7/December/2007 às 13:54

    “morrerAM”… desculpem.

  • 6 Gabriel // 7/December/2007 às 14:01

    Conversei com meu pai pelo ICQ 2 dias antes dele morrer repentinamente. Nunca tive muita cabeca para entrar la e ler aquela conversa, que depois de mudar de computador umas 10 vezes, mantive guardado o backup dessa trolha, so porque eu sabia que o chat estava ali em algum lugar. Outro dia tentei ler, mas o arquivo truncado so abre com o ICQ versao 2000. Li trechos entrecortados por um monte de figurinhas incompreensiveis do codigo do arquivo.

    Acho que a gente tinha que ter a chance de teclar antes de se mandar.

  • 7 Gabriel // 7/December/2007 às 14:20

    digo, teclar &lt/LIVE&gt

  • 8 Ingrid // 7/December/2007 às 15:14

    Fomos colegas de faculdade - acho q faco parte do “gente a beca”. Simpatico e querido, lembro-me sempre do seu sorriso largo.
    Morte estupida.

    Tambem me incomoda o perfil fantasma no orkut.

  • 9 Ricardo Alexandre da Silva // 7/December/2007 às 15:27

    PD:

    Perfis fantasmas no orkut…Perturbadores e mórbidos…

    Mesmo assim, por algum motivo, não gostaríamos de apagá-los….São como as cartas dos amigos que morreram. Mas, por algum motivo, ainda mais intensos.

    Meus pêsames.

    RAS.

  • 10 Bodhi // 7/December/2007 às 15:38

    Mas então, é ou não possível pedir a retirada de alguém que faleceu do orkut?

  • 11 Rafael // 7/December/2007 às 16:11

    odeio o orkut

  • 12 Rafael // 7/December/2007 às 16:11

    odio o orkut!

  • 13 proftel // 7/December/2007 às 17:11

    Bom, pêsames aí Pedro Doria.
    Já me veio na cachola uma situação dessas, deixo sempre um arquivo .doc com senhas de tudo, se bater as botas alguém com certeza enterrará minha vida virtual também, pedido meu.
    É coisa cá comigo, se ficar, só fotos em papel, CD ou o que o valha.

    :-/

  • 14 Gustavo Timm de Oliveira // 7/December/2007 às 17:37

    Pedro,

    Estórias como esta que tu relatou são mais comuns do que imaginamos. Passei algo semelhante, mas com um conhecido.

    Com um amigo, imagino que seja muito mais desconfortável - para não dizer triste. Meus pêsames.

    Mas lendo os depoimentos, notei que alguns foram autorizados depois do falecimento do seu amigo. O seja, há alguém mantendo o Orkut dele.

    Não seria o caso desta pessoa deletá-lo?

  • 15 Radical Livre // 7/December/2007 às 17:46

    PD,

    eu sinceramente não consigo visitar perfil de gente morta. Tem um livro (ou filme?) que li que havia uma profissão chamada “apagador de rastros”. A firma era contratada para que, caso o cliente morresse, apagasse todos os rastros do cliente pelo mundo afora: ia na sua casa e jogava fora a pornografia que não deveria ser encontrada pela esposa, raspava as contas de banco secretas e mandava para as amantes e, finalmente, entrava na internet e apagava todas as entradas possíveis sobre o cliente nos diversos sites.

    acho que quando morrer eu quero um serviço assim para mim.

  • 16 bitt // 7/December/2007 às 17:53

    Parabéns, PD.

    Um dos textos mais comoventes q já vi, em anos após anos de internet. Bela homenagem ao seu amigo ido.

  • 17 Zé Bush // 7/December/2007 às 18:51

    well….e porque deveríamos esquecer dos que se foram? O que nos incomoda nessa percepção da ausência definitiva de alguém? A nossa fragilidade? A incerteza do momento seguinte? A possibilidade de ver algo que não existe mais e que já foi parte da nossa vida? Ou a sensação de culpa de não ter feito ou dito algo para alguém antes que ele partisse?

  • 18 Nat // 7/December/2007 às 18:54

    Eu tenho uma carta com as minhas senhas e instruções para o que fazer com elas se eu morrer. Não deixo um arquivo no computador porque uma das coisas que peço é para formatarem sem dó, mas sem ler nada. É tudo muito pessoal. As pessoas acham loucura quando eu conto isso, mas elas se esquecem que ter consciência da morte é um dos primeiros passos para se viver melhor.

  • 19 Maína // 7/December/2007 às 19:16

    Algumas pessoas próximas tem minha senha do orkut. Caso ocorra o meu falecimento, a ordem é apagar imediatamente o meu perfil no orkut. Só de pensar que estarei ‘pairando’ no orkut, tenho arrepios.

  • 20 Helô // 7/December/2007 às 19:59

    Pedro

    Sou sua leitora desde o “no mínimo”, mas nunca comento. Embora não conhecesse pessoalmente o Fervil, tínhamos um amigo comum que é o Carlos Alberto Teixeira, o CAT. Fervil, para quem não sabe, foi um dos pioneiros da internet no Brasil e da implementação de tecnologias de conteúdo móvel. Foi também editor da revista Internet.br e trabalhou em sites Cadê, iG e Super iG. Mais um vítima da estúpida violência do Rio. Parabéns pelo post.
    Abraços.

  • 21 vitor // 7/December/2007 às 22:49

    Porra. Saudades do Fervil. Lembro bem da ultima vez que encontrei ele quando fui em uma reuniao no ig e esbarrei com ele pelo corredor e ficamos papeando, Foda essas coisas.

  • 22 Leila Ferreira // 7/December/2007 às 23:35

    Uma pessoa ‘comum’ - e a maioria esmagodora é ‘comum’- , em duas gerações será esquecida. Lembramos no máximo dos avós. Dos bisavós ninguém fala.
    Esse post Pedro, me fez pensar profundamente na questão da internet, de sua premência e de como devemos ser gentis com aqueles que nos importam de verdade. Se é que me entende.

  • 23 HRP Mané Reloaded // 8/December/2007 às 8:41

    “Atirou por nada”…….Rapaz em que mundo nós estamos?
    O que leva alguém a cometer um ato asim contra um desconhecido?
    Alguém me explicaria?
    Senão a vontade de ser ruim?

  • 24 HRP Mané Reloaded // 8/December/2007 às 8:49

    assim!

  • 25 Kct // 8/December/2007 às 15:28

    Gente, estou sumido… mas vivo! :-)

  • 26 [¬¬] // 8/December/2007 às 22:58

    Eu tenho que admitir, talvez seja o meu cansaço, mas chorei ao ler… Uma tristeza tomou conta de mim por mais que eu não tenha recordações de caso semelhante… Talvez seja o simples reconhecimento da morte, da fragilidade… Mais que isso da banalidade de nossas vidas. Tão repletas de futilidades invariavelmente inúteis… Acho que vou desfazer meu orkut.

  • 27 mone // 9/December/2007 às 9:56

    Ricardo Cabral:

    Concordo que, de maneira geral, os rituais ajudam na fase de aceitação da morte.
    Mas, falei do meu ponto de vista, de como sinto.
    Das pessoas queridas por mim, que já se foram, lembro com carinho daquelas que não participei do velório-missa-enterro-missa e com dor daquelas que participei.
    As pessoas são realmente diferentes…

  • 28 TIago Paixão // 10/December/2007 às 2:12

    É muito pesado visitar o orkut ou o blog de alguém que já se foi e que pareci ser tão legal. Fiquei muito mal.

  • 29 Nathalia Villela // 11/December/2007 às 19:23

    Pedro, sou irmã do Fervil e gostaria de agradecer o carinho e a lembrança dele no seu blog. Com certeza ele está sorrindo pra gente lá de cima como sempre fez aqui embaixo. Abraços, Nathalia.

  • 30 bernardo mortimer // 14/December/2007 às 2:41

    Minha primeira entrevista de emprego (estágio) foi com ele. Me lembro bem do sorrisão. Acabei não trabalhando com ele, mas bateu uma tristeza agora. Me lembro bem do sorrisão.
    Nathalia, um abraço.
    bernardo

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