O mundo visto pelos leitores: Índia

Depoimentos · Ásia Sudeste & Pacífico · 6/12/2007 - 05h00 - 120 Comentários

Por Ricardo

Quem chega à Índia pela primeira vez através de Bangalore, nota primeiro os suntuosos prédios da poderosa indústria de tecnologia da informação indiana. Um olhar mais apurado vai além: um simples trajeto do aeroporto ao hotel mais próximo é o suficiente para assustar pelo caos do trânsito e poluição, assim como encanta a beleza dos jardins da cidade.

Nas calçadas, as sáris vestidas pelas mulheres, roupa que cobre-lhes o corpo todo, em geral bordados à mão em cores vibrantes e com alguns penduricalhos, sempre incrivelmente belos, capturam a atenção. Mas nem todas as usam. Bangalore, no centro-sul indiano, é uma cidade bem ocidental e isso se traduz nas roupas. Não se vê moças de shorts ou saias mas, fora isso, os trajes não seriam muito diferentes daqueles no Brasil.

Ocidental é um termo chave aqui. A maioria das grandes multinacionais de tecnologia está presente – Microsoft, Google, Yahoo, Nokia, Motorola, HP. No entanto, ainda que se trate de um dos centros mais ocidentalizados do país, tudo é tão diferente. Moro na Índia, onde faço um mestrado em tecnologia da informação, desde julho. A chegada não foi fácil e mantenho um blog onde relato o choque que foi a primeira semana.

É difícil dizer se Bangalore é bonita ou feia. O que há são contrastes: num mesmo bloco, às vezes convivem prédios suntuosos e a miséria absoluta, gente que vive em tendas sem qualquer infra-estrutura. Há bairros só de casas e prédios de luxo, bem arborizados e cuidados. Não é muito diferente de uma grande cidade brasileira.

Se eu tiver que apontar um, diria que o maior problema da Índia ainda é a desigualdade social. Convive-se com a pobreza no dia-a-dia e ela é evidente por toda parte. Almoço em restaurantes onde os garçons ganham menos de 80 reais por mês. Numa construção ao lado de meu instituto, um dos mais ricos e prestigiosos do país, operários recebem 1 dólar por dia de trabalho – e é trabalho árduo, 12 horas debaixo de sol e chuva com apenas 30 minutos de intervalo. Para economizar, inclusive, muitos optam por dormir no próprio local, em casebres de madeira e telhas de alumínio, sem qualquer condição de higiene. Também são comuns casos de exploração do trabalho infantil.

(A pobreza não faz da Índia um país violento e não há tráfico de drogas. Se há um perigo que algum turista corra, não é o de assalto; é o de cair em golpes que o levam a pagar mais do que o devido numa transação.)

Não dá para falar da Índia sem mencionar que foi colônia britânica até 1947: algumas cicatrizes desse período ainda estão abertas e a principal talvez tenha a ver com o sistema de castas. Apesar de ser atribuído ao hinduísmo, alguns estudiosos defendem a idéia de que este sistema foi interpretado de maneira a enquadrar socialmente os indianos na cultura inglesa, exacerbando um conceito que, do ponto de vista religioso, nem era tão significante. (Muitas escrituras do hinduísmo sequer fazem referência às castas.)

Converso abertamente sobre este assunto, mas percebo certa resistência de meus companheiros indianos quando a pergunta é mais capciosa. É comum, por exemplo, que desconversem quando pergunto se lhes incomodaria estudar na mesma sala de aula que alunos da casta Dalits, os ‘intocáveis’. (Note que este sistema foi proibido na Índia, então o preconceito fica só nas entrelinhas.)

Logo após a independência, o primeiro primeiro-ministro Nehru, que era extremamente popular, dedicou-se a apaziguar estas diferenças e tentou colocar o país entre as grandes potências mundiais. Para isto, não mediu esforços ao investir em universidades e centros de pesquisa. Ele não tinha dúvidas de que a educação seria essencial para o progresso.

É o que explica, em parte, a falta de dedicação aos esportes. O esporte mais popular é o cricket e, dos outros, mal se fala. O que os pais acreditam, mesmo, é que seus filhos só obterão sucesso profissional com dedicação aos estudos. A maioria quer se tornar gerente ou diretor em empresas no exterior, principalmente no setor de tecnologia.

Quem é pobre tem acesso mínimo a educação, cultura, lazer. Nas escolas, para os privilegiados, além do básico ensina-se hindi (uma das línguas oficiais e mais faladas do país), inglês (herança colonial que se manteve por interesses econômicos) e a língua oficial do estado. Não há consenso quanto ao total de língua faladas no país, mas oficialmente são reconhecidas 15 (só aqui, onde estudo, escuto diariamente pelo menos quatro – hindi, kannada, tamil e inglês). O inglês dos mais instruídos é muitas vezes meio enrolado devido a um sotaque característico muitas vezes incompreensível.

Os pais – o pai, principalmente – exercem grande influência sobre qualquer escolha de um filho. Ninguém se casa, por exemplo, sem aprovação paterna. O caso da mulher é ainda mais rigoroso: Se ela não encontra namorado até certa idade, os pais arranjam um, sem que ela tenha muito direito a escolha. Me dizem que isso já não é mais tão comum nos grandes centros, mas não é a impressão que tenho quando converso com casais amigos. Os mesmos não podem morar juntos nem casar sem a aprovação dos pais. Aliás, a própria menção da namorada aos pais é tratada com cautela pelos filhos. Fiquei na casa dos pais de um amigo e não pude mencionar sua namorada em nenhum momento.

Não faz calor em Bangalore, o que é raro na Índia. No inverno a temperatura chega a um mínimo de 15 graus e no verão não passa dos 30, 35. Delhi, no outro extremo, chega a bater os 50 graus no verão é extremamente úmida.

Os indianos são atenciosos e extremamente educados. Meus vizinhos responderam com paciência minhas perguntas mais esdrúxulas, independentemente do tópico. Certa vez perguntei a um o porquê dos casais não se beijarem em público. ‘Você faria sexo em público no Brasil?’, me perguntou de volta. ‘É a mesma coisa, porém com grau maior de rigor’. Grau de rigor bem maior: o homem corre o risco de ser apedrejado se for pego aos beijos em público e a mulher periga ser considerada prostituta para o resto da vida. Num caso recente veiculado na TV aqui, um homem beijou a força uma mulher e a mesma cometeu suicídio por conta disto.

São todos também muito religiosos. A principal religião é o hinduísmo, difícil de explicar em poucos parágrafos. Ela tem origem na religião Védica e acredita-se que, quando Brahma tomou ciência de que o mundo existia, todo o resto então passou a ’ser’. É uma religião com inúmeras divindades, lendas e festividades vinculadas a ela; a mitologia hindu é interessantíssima. A maioria dos feriados são religiosos e todos os celebram rigorosamente. Presenciei dois festivais ricos em sons hipnóticos, cores vibrantes e cheiros fortes dos incensos queimados. Mas há divergências de uma região para outra: uma festa religiosa no sul pode ter significado bem diferente no norte.

Dada a imensa quantidade de pessoas que vivem por aqui, o país acaba abrigando também grandes quantidades de mulçumanos e católicos, além claro de outras religiões locais como budismo e sufismo.

Para encerrar, alguns fatos breves. O governo é tão ou talvez mais corrupto que o brasileiro. Subornos são comuns, principalmente como forma de acelerar a burocracia. Um detalhe positivo é que a Índia possui no momento um governo de minorias: A presidente, pela primeira vez, é uma mulher, e o primeiro-ministro é o primeiro membro da religião Sikh a ocupar tal cargo. As televisões que assisti possuem canais do mundo todo e vários locais em línguas que ainda não consigo distinguir. A Índia é também grande produtora de filmes e a reprise de produções nacionais é comum na tevê. Novelas também são comuns: só o canal de maior audiência exibe 9 novelas diárias. Finalmente, festas, no melhor estilo brasileiro de virar a noite, não existem em Bangalore. A cidade tem restrições quanto a horários e tudo fecha a meia-noite. Parece até Cinderela.

Este post é o primeiro da série O mundo visto pelos leitores. Para compreender o que é, leia o post Este Weblog quer ouvir você.

Ainda sobre o assunto:

  1. O mundo visto pelos leitores: Austrália Por André Fucs A saga do índio judeu na ilha de Croc Jamais irei esquecer os debates que se seguiram...
  2. O mundo visto pelos leitores: Irã De um leitor Anônimo Teerã é meio parecida com São Paulo, uma megalópole caótica com lá seus encantos. É uma...
  3. O mundo visto pelos leitores: Angola Por Caco Angola é um país em obras divididas por empreiteiras brasileiras, nas quais a Odebrecht aparece como a principal...
  4. O mundo visto pelos leitores: Israel Por Gabriel Todo ano, em Israel, há um dia no qual é tocada uma sirene no país inteiro para relembrar...
  5. O mundo visto pelos leitores: Itália Por Sabrina Modena é uma bela cidadezinha medieval encravada no coração da Bassa Padana (uma parte da Planície Padana) que...