Proer à americana & o insustentável dólar

China · EUA · Mundo · 30/11/2007 - 11h46 - 65 Comentários

Muitos norte-americanos de baixa renda adquiriram empréstimos para a compra de moradia – muitos, neste caso, são muitos mesmo, uma quantidade atordoante – durante os anos 1990. A avaliação destes empréstimos foi mal feita e honrá-los parece impossível: é a bolha imobiliária norte-americana.

Agora ficou claro, na calada da noite, o Fed, banco central dos EUA, deu à financeira Countrywide um belíssimo empréstimo – 51 bilhões de dólares – para salvá-la da falência. O argumento é que trata-se de uma empresa de capital aberto e, se quebrar, o prejuízo estará nas mãos de milhões de pequenos acionistas. (O norte-americano médio costuma investir na Bolsa o dinheiro da aposentadoria.). É um Proer à americana.

Em casos nos quais uma quantidade enorme de dinheiro público é necessária para salvar uma instituição insolvente, a penalidade justa para os acionistas é limpar suas ações e promover uma tomada de comando pública – isto mesmo, uma nacionalização do banco. Tal nacionalização deve ser temporária, apenas para limpar a bagunça, deve servir para se livrar dos sócios e gerentes incompetentes, reestruturar o banco e então revendê-lo para o setor público. Capitalismo sem punição para empréstimos mal feitos traz a peste à tona.

Quem fala é Nouriel Roubini, o blogueiro de origem turca responsável pelo Departamento de Economia e Negócios da Universidade de Nova York. A crise no mercado imobiliário dos EUA faz desconfiar da segurança do dólar – e o valor da moeda norte-americana começa a se distanciar do valor do euro. Não é a única coisa que faz derrubar o dólar. A economia norte-americana está em baixa, diz a Economist, que dedica a capa de sua edição desta quinta-feira ao assunto. E o Fed continua a cortar os juros. A economia dos EUA desce, a do resto do mundo sobe. E esta divergência pode provocar uma recessão interna.

Daí, um perigo: economias emergentes – o Brasil dentre elas – têm grandes reservas em dólar. Isso vale particularmente para a China. Se estes países, preocupados com a desvalorização de seu capital armazenado, vão ao mercado trocar os papéis em dólar por outros, a enxurrada de verdinhas a venda empurrará ainda mais para baixo o valor da moeda norte-americana. Não são apenas os EUA que sofreriam com uma operação destas. Todo mundo tem dólar embaixo do colchão. A virada brusca para uma outra moeda base na economia mundial – digamos, o euro – jogaria o mundo numa recessão.

A receita sugerida pela Economist? Que os bancos centrais do mundo agüentem o tranco. Sem pânico, deixando os dólares bem guardados, espera-se que os EUA levantem-se novamente.

Um Clinton, diga-se, já se mostrou capaz de resolver a bagunça econômica que os republicanos provocaram. (Em sua autobiografia, Bill Clinton comenta o ódio que sentia, ao ouvir falar nostalgicamente da ‘economia nos tempos de Reagan’, por ter de lidar com as conseqüências.)

Mas o Clinton de 1992 não tinha o que Hillary – ou Obama, ou Edwards ou algum possível vencedor republicano – terão de lidar em 2009. Bill Clinton não tinha que sustentar duas guerras no exterior e fazer, simultaneamente, os investimentos adiados porém necessários para combater o aquecimento global e substituir a dependência do país por petróleo. O próximo presidente terá o déficit George W. Bush – como Bill teve o déficit Reagan-Bush – e dificilmente terá um boom da indústria de tecnologia que puxou para frente, e à toda, a economia da Califórnia e, consigo, dos EUA.

Ainda assim, os EUA sempre se provaram, ao longo do século 20, uma máquina insuperável de produção de riquezas. Por enquanto, não há porque achar que deixarão de ser.

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