Palestina, Israel e Bush:
a paz é possível?

EUA · Israel e Palestina · 26/11/2007 - 13h49 - 80 Comentários

Preparem-se: George W. Bush está para sair de cena. Ele apareceu no plano nacional norte-americano prometendo união e um ‘conservadorismo compassivo’. Na Casa Branca, mostrou-se um presidente divisivo, polarizante, legítimo representante do conservadorismo cristão mas sem direito ao charme de Ronald Reagan. Quando janeiro chegar, Bush sumirá, ninguém prestará atenção no que ele faz. O que ele fez, no entanto, será o assunto central da discussão eleitoral, enquanto os holofotes se voltam para aqueles que querem ocupar sua cadeira no Salão Oval.

E, enquanto ninguém presta atenção, surge uma imensa oportunidade.

George W. tenta a partir de amanhã fazer o que Bill Clinton quase conseguiu, em 1999. Dedicará seu ano de invisibilidade à paz entre Israel e Palestina. Para ele o caminho será bem mais difícil do que foi para seu predecessor. Mas ele já tem algumas vitórias garantidas. Entre elas, representatividade. Para o encontro de Annapolis, além do premiê Ehud Olmert, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, além dos sempre presentes egípcios e jordanianos, estarão também representantes da Liga Árabe e, o que é o melhor sinal, da Síria.

Não é ninguém do primeiro escalão: quem estará em Annapolis é o vice-ministro das Relações Exteriores sírio Faysal Mekdad. Mas sua presença é indício de que Israel concorda em incluir as Colinas de Golã nas discussões. Estar disposto a discutir é um excelente sinal.

A presença da Liga Árabe, sauditas à frente, tem outro motivo. Com o aumento da influência iraniana na região – veja-se o Hezbolá, no Líbano, o Hamas, em Gaza, e vários movimentos no Iraque, além da Bomba que provavelmente está sendo criada – é hora de aceitar Israel. Sim, Israel continua sendo um ótimo inimigo externo para distrair populações oprimidas por ditaduras. Mas quando as principais forças que geram instabilidade na Palestina favorecem o Irã, o jogo muda de figura. Melhor não alimentar.

A discussão não mudou em nada desde que Bill Clinton reuniu Yasser Arafat e Ehud Barak em Camp David. Israel precisa interromper e reverter ao máximo o processo de colonização da Cisjordânia e precisará dividir a autoridade sobre Jerusalém. Ambos os países terão de se contentar com as fronteiras pré-1967. E palestinos terão de abrir mão do direito de retorno.

Essa discussão em Annapolis marcará o compromisso da Liga Árabe com a tentativa de acordo – mas que não se espere um aperto de mãos entre sauditas e israelenses –, a entrada da Síria na história e não muito mais. Se tudo transcorrer bem, talvez 2008 seja um ano promissor.

Talvez.

Apenas talvez porque, por mais que haja vontade de ambas as partes, não dá para esquecer que a Palestina está rachada e que Mahmoud Abbas não a representa. O Hamas controla Gaza e ainda tem, ainda que frágil por conta de sua própria atitude golpista, a legitimidade do voto. De que, afinal, serviria a assinatura de Abbas? Esta não é uma conversa possível sem trazer o Hamas à mesa.

Mas George W. Bush precisa de algo de positivo para garantir sua memória. Está incrivelmente mais difícil, agora, do que esteve em 1999. Não quer dizer que seja impossível.

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