E quem afinal está certo na
Guerra Civil Espanhola?

Alemanha · Europa · História · Igreja Católica · 22/11/2007 - 05h54 - 98 Comentários

Boa a discussão aí abaixo esta a respeito da Guerra Civil Espanhola. E como é polarizado este tempo em que vivemos: dê um assunto e, rapidamente, dois bandos se formam sem vontade de ceder um palmo de terreno ao adversário. Não faz muito tempo, dizia-se que esquerda e direita eram conceitos ultrapassados. Aí, de repente, duas visões absolutamente distintas da história recente e da ética que deve nos conduzir em sociedade estão sob a mesa.

E qual será a correta?

No caso espanhol, há um livro precioso do ensaísta Juan Eslava Galán. Chama-se Una historia de la guerra civil que no va a gustar a nadie; Isto mesmo: Uma história da guerra civil da qual ninguém gostará. A sua versão, fascinante, é uma na qual só há vilões e incompetentes.

Espanha, 1931. Um país agrário quase falido, pobre, com alto índice de analfabetismo, 24 milhões de habitantes. Crise. O Partido Republicano vence as eleições municipais em todas as grandes capitais. Temendo um golpe, o rei Alfonso 13 parte para o exílio. No vácuo do poder, os vencedores das eleições vão às ruas e nasce a Segunda República. Tinham um projeto de modernização: reforma agrária em primeiro lugar. A terra era má gerida, fazendas falidas existiam às pencas. Daí, a reforma do exército, incompetente e corrupto, com mais caciques do que índios, que havia sofrido derrotas no Marrocos. Na seqüência, a reforma da Igreja, que tinha o monopólio da educação e das cerimônias civis e sempre arranjava um jeito de se meter mais nas coisas do Estado. Por fim, descentralização e autonomia para Catalunha, País Basco, Valência, Galícia, verdadeiros países dentro do país, com língua e cultura próprias, que há muito cobravam alguma liberdade.

Nada é tão simples. Latifundiários, Exército e Igreja tinham problemas evidentes com o plano. Não só eles. Comunistas – que não eram muitos – e anarquistas – uma multidão forte e com poder sindical para emperrar qualquer governo – acusavam os republicanos de planejarem um Estado burguês.

Em janeiro de 1936, a Frente Popular – um pacote desigual de agremiações de esquerda menos os anarquistas – vence a CEDA, coligação de direita da qual só não participou a Falange Española. Eleição apertada à beça, 4,6 milhões de votos contra 4,5 milhões. O país em crise agora era também o país rachado em dois. Temendo um golpe, o presidente Manuel Azaña manda para longe os generais mais perigosos, Francisco Franco entre eles. Foi para as Canárias. Mas a conjuração vem. Apóiam os militares golpistas: monarquistas, latifundiários, industrialistas, banqueiros e a Igreja. Enquanto isso, a maioria parlamentar não adianta de nada que os partidos de esquerda não se entendem.

No dia 12 de julho, o deputado socialista José Castillo é assassinado por militantes de direita; no dia seguinte, o monarquista líder conservador no Parlamento, José Calvo Sotelo, é assassinado em represália por um militante socialista.

Os militares se aquartelam e o governo reage: ‘Ficam desde já licenciados os soldados cujos quadros de comando se levantam contra a legalidade republicana.’ Mas alguém pergunta: se o exército sai todo de licença, quem defende a República?

Em Barcelona, defendem-na os anarquistas; em Valência, gente leal ao governo. Madri não cai perante o golpe. Esta turma são os Republicanos. Terão, durante a Guerra, o apoio da União Soviética, do México, da Internacional Socialista e de militantes anti-fascistas de 53 países, incluindo uma penca de norte-americanos que formam a célebre Brigada Abraham Lincoln, que inclui o escritor Ernest Hemingway.

Mas o país racha. No lado Nacionalista, está o exército, a Igreja, a Alemanha Nazista, Portugal e, alguns meses mais tarde, a Itália Fascista, e estes dominam a Galícia, metade de Castela e Aragão, Andaluzia, Mallorca e Ibiza. Os golpistas comandam território com 10,5 milhões de habitantes. Mas o governo legal tem as regiões industriais e mineradoras. Tem também quase toda frota aérea e naval.

A Inglaterra fica neutra – ’se fascistas e bolchevistas querem se matar, que o façam’.

Não fora o apoio alemão, o jogo militar estaria decidido. Ou quase. Os comunistas se debatem se é melhor ficar fiel ao lado republicano ou se o ideal não seria partir para a Revolução. Internamente, trotskistas e stalinistas não se entendem. Por sua vez, os anarquistas não querem saber de comunistas. Socialistas acham todos radicais demais. E, desesperados por união em suas forças, os republicanos de centro no governo formal que já não governa de todo buscam um entendimento impossível.

Em meio a tanto ódio, a matança. No lado Republicano do território, grupos de militantes vão às ruas. Vizinhos denunciam quem é de direita. Detenções, tortura, fuzilamentos. Fraco, o governo tenta impor ordem. Quer impedir a violência, a matança, decretos são publicados e ignorados. Na Catalunha, em 1937, anarquistas e comunistas chegam a travar uma grande batalha pelo comando de Barcelona entre si. Do lado Nacionalista, falangistas vão a cada pequena aldeia e batem na porta da Igreja. Perguntam ao padre quem é sindicalizado, os padres têm a lista já completa. São os delatores. Os falangistas juntam todos – prendem, torturam, fuzilam. Raivas acirradas por anos vêm à tona. Gente tenta se bandear para o lado onde viverá em segurança, famílias são separadas.

Os números da Guerra Civil Espanhola são controversos mas a violência e a brutalidade vieram de ambos os lados. Atualmente, o governo reconhece uma estimativa de 500.000 vítimas. Um quarto vítimas dos Republicanos, três quartos dos vencedores Nacionalistas. (Mas há quem conteste esta proporção e não há documento que sustente com segurança um lado ou o outro.) Em fevereiro de 1939, Inglaterra e França reconheceram o governo de Francisco Franco, encerrando a guerra oficialmente. Mas, aí, a Alemanha invadiu a Polônia e essa já é outra história.

Atualização – fiz uma mudança no número de vítimas; quando, no ano passado, a Guerra completou 70 anos, o El Mundo publicou um especial na web com os rostos de quem lutou nas diversas frentes.

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