Chávez em campanha aberta

EUA · Europa · Oriente Médio · Venezuela · 18/11/2007 - 13h31 - 74 Comentários

Que ninguém negue a Hugo Chávez um mérito: ele tenta. E tenta muito, luta tantas lutas quanto são possíveis lutar ao mesmo tempo.

Na Cúpula Ibero-Americana – aquela na qual teve de ouvir o cállate do rei espanhol –, chegou pedindo que no documento final da reunião estivesse incluído apoio à reforma constitucional que quer promover na Venezuela. Os demais chefes de governo acharam por bem não se meter nos assuntos internos de nenhum país – como deveria ser evidente. Mas Chávez não deixa de tentar.

A reforma constitucional será aprovada ou não por referendo, no dia 2 de dezembro. Há uma série de mudanças em jogo: muda a estrutura política da organização territorial, muda a legislação trabalhista – a jornada cai de oito para seis horas – e muda um último pequeno detalhe, não haverá mais limites para reeleição. O referendo é só por conta disto. Chávez pinta as reformas como democráticas, mas só a questão da reeleição carece referendo, todo o resto ele poderia fazer por decreto. (Não passa pelo Congresso porque estes poderes foram transferidos ao presidente.) Como o povo terá de escolher entre Sim e Não num pacote só, o Sim diminui sua carga horária e permite a Chávez que continue no poder para além de 2012; o Não mantem o labuta no nível atual mas põe o presidente para fora de Miraflores daqui a cinco anos.

Sua Excelência não conseguiu que a Cúpula Ibero-Americana desse apoio à reforma mas saiu com o cállate que vale quase tanto quanto. Em casa, pintou a questão como opressão do Império. Chávez luta contra o Império de George W. Bush e, agora, também contra o Império espanhol, o Império colonizador. Juan Carlos, coitado, não é nenhum Carlos 5o, mas serviu de arma política. Não tem jeito.

É com esta luta contra impérios em mente, que afinal faz tanto bem à sua popularidade na Venezuela, que Chávez chegou à cúpula da semana, agora na Arábia Saudita. Perante seus pares na Organização dos Países Exportadores de Petróleo, fez uma série de pedidos e uma ameaça. Liste-se dentre os pedidos: que a Opep passe a exportar petróleo barato para os países pobres; que abandone o dólar como moeda de comércio do petróleo. A ameaça: se os EUA invadirem o Irã ou atacarem novamente a Venezuela (a primeira vez seria a tentativa de golpe contra ele), o petróleo baterá em mais de 200 dólares por barril. (Está em 100.)

A discussão sobre a mudança da moeda era para ficar apenas nos bastidores, mas o circuito interno de tevê estava ligado e os jornalistas assistiram à primeira meia hora. Só quando o rei saudita recebeu das mãos de um assessor o boletim da Reuters que relatava a discussão é que deram-se conta do problema. Aí já era tarde: Chávez, Rafael Correa, do Equador, e Mahmoud Ahmadinejad, do Irã, já haviam se manisfetado favoráveis ao ataque contra a moeda norte-americana. Na Opep, no entanto, basta um veto saudita para que nada aconteça – e, assim, nada aconteceu.

Não que Chávez esperasse resultado diferente: se é numa cúpula no Chile ou se é noutra, no Oriente Médio, seu público alvo é interno. Chávez não pretende nem de longe abandonar seus negócios com os EUA. Sustentam seu país: 70% de suas exportações vão para lá.

Mas, até o final do mês, espere-se muito mais de Hugo Chávez. Falará muito, parecerá duro, travará tantas lutas quanto possível contra impérios e tentará tirar da fome tantos pobres quanto possível. É sua permanência no governo que está em jogo.

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