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O Paquistão quebrado em dois ou três

November 16th, 2007 · · 18 Comentários

Repórter veterano e Prêmio Pulitzer, Steve Coll aproveita a atual edição da New Yorker para comentar o dilema paquistanês:

O país vive duas crises simultâneas. A mais visível é a entre Musharraf, judiciário e políticos civis, que não se entendem a respeito de eleições e divisão de poder – uma disputa entre líderes incapazes de chegar a um acordo que culminou, há duas semanas, na declaração do estado de emergência, seguido por um ataque do exército a ativistas de direitos humanos, jornalistas independentes e militantes políticos. Este desentendimento se sustenta, em parte, pela competição por espaço de duas forças: os militares, que formam uma instituição ampla, de classe média e evidentemente não-democrática; e o Partido do Povo, uma instituição igualmente ampla e não-democrática (jamais houve eleições internas), um tanto mais pobre. O Partido do Povo começou como um movimento socialista rural liderado pelo pai de Benazir Bhutto, que foi enforcado pelo Exército, e governou o país por três vezes; quando Bhutto tornou ao Paquistão, no mês passado, seus seguidores foram em massa a Karachi para mostrar que ainda podem governar as ruas. A luta entre o Partido e o Exército, no entanto, dificilmente provocará uma grande transformação – as prisões, as nuvens de gás lacrimejante e as bordoadas com cassetete são apenas o episódio mais recente desta história pátria de política disfuncional.

Mais preocupante é a guerra civil de baixa intensidade na fronteira oeste do país, um conflito que envolve o Exército, dominado pela etnia punjabi, contra muçulmanos na região controlada pela etnia patane, que é tribalizada, uma gente conservadora que ajudou na expulsão da União Soviética do Afeganistão e deu origem ao Talibã. O último levante pantane, que se voltou tanto contra políticos seculares paquistaneses quanto contra seus aliados ocidentais, começou já há muitos anos. O Talibã que não se rende e proselitismo por parte de uma liderança da al-Qaeda que está se reagrupando, incluindo provavelmente o próprio Osama bin Laden, estão entre as causas. Mas contribuem para a equação antipatia aos EUA, ajuda de funcionários da inteligência paquistanesa e, talvez, até mesmo gente do exército, que sempre conteve os radicais muçulmanos, além da persistente inabilidade do próprio Musharraf de conseguir criar uma coalizão entre os patanes seus aliados que poderiam conter os islâmicos.

No Paquistão, embora ruidosos, os radicais islâmicos são franca minoria. Os serviços de inteligência podem tê-los como aliados – já que terroristas ajudam na luta contra a Índia na região fronteiriça da Caxemira –, mas são minoria. O governo Musharraf se mostrou de todo incompetente para lidar com o problema e, pior, soldados do Exército já foram obrigados a se render em batalha aos guerrilheiros patanes. É humilhante.

Musharraf está fora – só ele não sabe. A dúvida é quanto tempo terá de sobrevida. O problema, agora, é encontrar um plano B.

Tags: Islã · Terror · Ásia Central

18 Comentários até agora ↓




  • 1 Pax // 16/November/2007 às 14:04

    Bem, vejamos alguns pontos:

    - O Paquistão é a Índia muçulmana.
    - Faz fronteira com Afeganistão e Irã
    - É uma ditadura militar travestida de democracia parlamentarista
    - A política é tremendamente corrupta
    - Os EUA apoiaram o Musharraf por conta do apoio no Afeganistão
    - O Musharraf está pra terminar seu governo prorrogado por plebiscito, mas esse governo termina em 2007, agora
    - Tem armamento nuclear
    - Tem a questão da Kashimira é um calo na região, hoje meio indiana meio paquistanesa
    - A oposição é da Benazir Bhutto, uma bela corrupta à altura do Musharraf
    - Os EUA do Bush estão lá se metendo com toda a incompetente política externa americana.

    Temos um prato cheio. E um problemão. Um barril de pólvora ao lado do maior barril de pólvora. Acho que tô cansado dos muçulmanos. E dos americanos. Viva a China ! Ops, vou tentar de novo, Viva a Rússia, opa, vou tentar de novo, Viva Fidel, ops, vou tentar de novo, Viva o Chávez, ops, vou tentar de novo, Viva os Americanos, ops, vou tentar de novo, Viva Ahmadinejad e os turcos, ops, vou tentar de novo, Viva Lula !!! Melhor que Viva Alckmin.

    E a gente fica reclamando. Vivemos num paraíso.

  • 2 Fred Schmidt // 16/November/2007 às 14:15

    É verdade, vivemos num paraíso.

    Não entendo nada de oriente médio, mas vendo bem de cima, sobrevoando a uns 10000 metros de altura, vejo uma multitude de tribos, culturas, religiões, rancores históricos, que eu costumo chamar de caldeirão do diabo.

    É muito difícil a turma se entender, e cada vez mais acho que apesar de termos evoluído tanto técnicamente,, somos uns trogloditas em relacionamento humano, e não há nada pior que isso.
    Bomba atômica, armas químicas, e6tc na mão de indivíduos, cujo enorme prazer é ainda de rachar a cabeça do outro.

  • 3 Marcos Araújo // 16/November/2007 às 15:49

    zzzzzzzz zzzzzz zzzzzz

    Dou um picolé pra quem advinhar o que será do Paquistao…

  • 4 Luiz // 16/November/2007 às 15:54

    Marcos Araújo,

    Será m… , com quase absoluta certeza.

    Ou, pelo menos, não estaremos vivos para ver alguma melhora.

  • 5 Mr X // 16/November/2007 às 16:32

    Deus criou o mundo em seis dias, no sétimo foi pro banheiro e criou o Paquistão. :-) Heh. Desculpas aos paquistaneses que por ventura visitarem o blog, hein? É só piada.

  • 6 reiazedo // 16/November/2007 às 16:47

    Piada neo-nazista diga-se de passagem. AS IDEIAS DE HITLER VIVEM!!

  • 7 Mr X // 16/November/2007 às 16:49

    Reiazedo, tá com dor de barriga? Toma Alka-Setzer que passa.
    Na verdade, o que Deus criou no sétimo dia foram os políticos, de todo o mundo.

    Os poucos paquistaneses que conheci são tudo gente boa, simpáticos e alegres.

    O que não quer dizer que o Paquistão não seja um desastre… Por alguma razão eles não estavam em seu país.

  • 8 Bruno Mota // 16/November/2007 às 19:11

    Um dos problemas do Paquistão é a sua fronteira com o Afeganistão, a chamada Linha Durand, que foi demarcada pelos britânicos por conveniencia militar (o Afeganistão era então o estado tampão impedindo o imperialismo russo vindo do norte e o imperialismo britânico vindo do sul de se chocarem diretamente). A tal linha divide os Pasthuns (ou patanes, ou pathans) entre os dois paises, e nunca foi aceita pelo Afeganistão.

    Esta fronteira faz o Paquistão morrer de medo de pretensões irredentistas Pashtuns, que poderiam engolir 1/3 do pais em um Pashtunistão (que é o que o Afganistão se tornaria), e remover a profundida estratégica na sua luta contra a India. De fato, o apoio paquistanês às guerrilhas anti-sovieticas no Afeganistão começou quando o governo em Cabul começou a fazer ruidos a respeito de uma pátria Pashtun*. Os paquistaneses, obviamente não querendo estimular um guerrilha com motivações etnicas , optaram por uma guerra santa. Deu no que deu. A ISI (Inter Services Intelligence, o serviço secreto das forças armadas e eminencia parda de todos os governos no Paquistão, civis e militares) se tornou bastante competente em fomentar islamistas, seja nas madrassas em Peshawar, seja na Cachemira.

    Atualmente, o Paquistão se encontra na dúbia e instável situação de ser supostamente um aliado dos EUA contra o terrorismo islâmico, ao mesmo tempo em que, por ação ou inação, solapa o governo Afegão ao permitir que o Taliban treine e recrute em seu território (em uma pesquisa recente mais de 70% dos Afegãos dizem ter uma visão negativa do Paquistão).

    A única alternativa plausível, o arremedo de sociedade civil no pais, essencialemente Punjabi e Sindh, liderada por cleptocratas de base quase feudal (o marido da Benazir é conhecido como ‘Sr. 10%’), não é particularmente democrática, e e só superficialmente moderna.

    Mesmo assim, não acho que haverá uma guerra civil, exceto nos faroestes tribais pashtuns e baluchis, em que violência faz parte da cor local. A elite punjabi (militares e civis) não tem interesse em um conflito aberto, e muito menos em um triunfo dos islamistas; mas ao mesmo tempo não teve escrupulos de utilizar os islamistas contra seus inimigos no passado.

    A longo prazo, é difícil imaginar como esta situação pode se sustentar. A sociedade paquistanesa tem se tornado mais islamista (não necessariamente mais islâmica) nestas últimas décadas. Em parte devido à difusão de doutrinas wahabis vindas da Arábia Saudita, mas pelo uso meio cinico que os generais, politicos e espiões locais fizeram dos islamistas. Particularmente preucupante é a crecente tensão entre xiitas e sunitas. O plano da AQ e Taliban parece ser o mesmo: incitar o odio sectario para tornar o pais ingovernável. Mesquitas xiitas são atacadas; soldados xiitas (e cristãos) capturados são decapitados, sermões e programas de rádio pregam a morte aos ‘hereges’, etc.

    O Musharaf é um fanfarrão, como diriam alguns. Mas não parece disposto a pedir para sair.

    ___________________
    * O objetivo Sovietico seria, imagino, conquistar um acesso livre ao mar, em Karachi ou vizinhanças; não muito diferente dos objetivos do império Russo no Sec. XIX, que levaram ao conflito com os britânicos e a demarcação da Linha Durand. De fato, acesso irrestrito ao mar (e.g. o Mar Negro, contra os turcos, ou Mar Báltico contra os suecos) tem sido um dos grandes imperativos da politica externa russa a mais de dois séculos.

  • 9 frt // 16/November/2007 às 19:18

    O texto saiu na New Yorker? Então deve ser porcaria. Só acredito no que sai na Veja. E no Coelho da Páscoa.

  • 10 Brancaleone // 16/November/2007 às 22:34

    Noves fora a presença dos EUA por lá, parece mesmo que o uso maldoso (e certamente lucrativo para alguns) da fé islâmica é o maior problema paquistânes.
    Nem falar dos pervertidos do Talibã - estes sim a face mais abjeta e alucinada do Islã. Mas sunitas e xiitas matam-se ainda com mais ardor, prazer e lucro nestas horas.
    Russos, Indianos e americanos tem mais é que se aproveitar da situação…

  • 11 WORMGUS // 16/November/2007 às 23:53

    Não sei pq mas tenho a nítida sensação de que vcs não sabem o que dizem.
    É muita experiência e conhecimento de causa.
    Eu sou mesmo um verme.

    e vcs estão todos na profissão errada, para prejuízo do mundo.

  • 12 WORMGUS // 16/November/2007 às 23:56

    os “paquistões” de dentro do seu país não merecem tamanha atenção e estudo.

  • 13 Andre Fucs // 17/November/2007 às 1:44

    Fred Schmidt,

    … a começar pelo fato de que o paquistão não fica no exatamente no oriente médio mas na ásia menor. :-)

  • 14 Luiz // 17/November/2007 às 9:03

    André,

    Também não é na Ásia Menor (região da Turquia).
    A parte norte do país dá pra considerar Ásia Central, e o resto Subcontinente Indiano.

  • 15 nada será como antes // 17/November/2007 às 9:57

    Assim como já comentei outro dia, um dos comentários acima trata do fato de que trogloditas não se entendem. Neste blog, onde os assuntos poderiam ser comentados com distanciamento crítico, apto a fortalecer mentes e exercitar o diálogo franco e educativo, parece que algumas pessoas encontram apenas espaço de dinamismo neurótico. As estrelas do blog são os temas propostos, muito mais que seu autor e os comentaristas. O que se vê, no entanto, são ataques grosseiros aos comentários e seus autores, muitas vezes podando textos que trazem importantes subsídios à discussão. Parece que certas pessoas não conhecem a civilidade do debate aberto ou são adeptos militantes da censura vigente na ditadura. As piadas de mau gosto são meros disfarces dos fascistas.

  • 16 Esprit de porc // 17/November/2007 às 13:50

    ” (…) como um movimento socialista rural liderado pelo pai de Benazir Bhutto, que foi enforcado pelo Exército (…)” - Puxa, Mr X, como você pode não gostar do Paquistão?

    frt, muito boa!

  • 17 Andre Fucs // 18/November/2007 às 10:01

    Luiz,

    É verdade. Escrever sem rever dá nessas.

  • 18 nada será como antes // 19/November/2007 às 19:14

    A falta de seriedade na discussão dos assuntos por grande parte dos internautas mostra o descaso com a própria sociedade por que é debochado grande parte desses comentários, o deboche é fácil não e´preciso defender necessariamente nada , só atacar .È cômodo. Aliado a esse comportamento está a crescente individualização das discussões quando são levantados vários argumentos todos discutidos exaustiva e superficialmente .Nesse quadro o único caminho parece ser a angústia .

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