Tem início a complicada eleição dos EUA

EUA · 15/11/2007 - 09h19 - 41 Comentários

O evento mais importante do ano de 2008 está para começar: são as eleições norte-americanas. A imprensa brasileira e a de todo o mundo começa a ensaiar suas primeiras matérias aqui e ali – e não seria culpa de nenhum dos leitores imaginar que já é mais ou menos certo que teremos uma disputa entre Hillary Clinton, pelo Partido Democrata, e Rudolph Giuliani, pelo Republicano.

Não tão rápido.

A esta altura do ano, em 2003, tanto a revista Time quanto a Newsweek publicaram em suas capas o retrato do então governador de Vermont, Howard Dean, que era tido certo como o indicado pelos democratas à presidência. Foi o senador John Kerry quem disputou a campanha. Em finais de 1991, o jovem governador do estado sulista do Arkansas, Bill Clinton, era um desconhecido que tinha de lidar com um escândalo sexual que o envolvia com uma moça um tanto vulgar chamada Gennifer Flowers. Em novembro e dezembro de 91, Paul Tsongas, senador por Massachusetts, era o favorito, no topo de todas as pesquisas. Mesmo nos EUA, hoje, muito eleitor politizado sequer lembra quem foi Tsongas.

Não quer dizer, de forma alguma, que as pesquisas não sirvam de bússola. A esta altura do jogo, em 1979, nem o muito melhor preparado ex-diretor da CIA George H. Bush conseguiria derrotar o ex-governador da Califórnia Ronald Reagan. Reagan esteve no topo das pesquisas do dia em que anunciou que concorreria àquele no qual pôs os pés na Casa Branca. Era de um carisma inimaginável.

As lições das eleições passadas tampouco servem para nos guiar nesta. As regras estão mudando – e rápido. Para compreender isto, é preciso antes entender o que faz dos EUA a democracia madura mais complexa em funcionamento no lado de cá do mundo. Lá, o sistema realmente é federativo. Cada um dos 50 estados tem poder de fato – e autonomia. Não há uma eleição nacional. O que acontece são 50 eleições estaduais simultâneas seguindo regras próprias. Mas antes de haver a eleição de fato acontecem as pré-eleições, nas quais os partidos Democrata e Republicano de cada estado decidem quem indicarão para a Convenção Nacional.

Não é tão complicado: o partido em cada estado escolhe seu candidato. Cada estado tem um peso, que varia de acordo com sua população, e determina o número de delegados que envia para a Convenção Nacional. Cada delegação vota perante os convencionais reunidos. Quem tiver mais de 50% dos delegados disputa a eleição nacional.

Na maioria dos estados, estas pré-eleições são de fato eleições: os eleitores preenchem uma cédula, depositam na urna – votam. Em cada lugar, o que define os eleitores aptos a votar nestas eleições primárias muda. Nuns cantos é preciso ser registrado – ou afiliado – ao partido; noutros, é possível votar tanto nas primárias de um partido quanto nas de outro. Nuns terceiros, escolhe-se em qual primária partidária votará, mas não carece afiliação.

Ainda há os estados em que o processo de decidir o candidato não se dá numa eleição primária e sim num caucus. Em cada micro-região, os cidadãos se organizam numa escola, numa prefeitura – na praça pública – e saem discutindo. Ao final, levantam a mão até que uma decisão seja alcançada. Cada grupo destes informa seu indicado ao partido central do estado, quem leva mais votos ganha os delegados. Sim: nos caucus, a democracia alcança sua decisão à moda grega.

Tradicionalmente, a temporada eleitoral abriu sempre com o Iowa Caucus, em meados para finais de janeiro. Os candidatos a candidato passam dias – até semanas – em Iowa, conversando com as pessoas na rua, visitando certos restaurantes mais tradicionais, sendo questionados. Aos cidadãos de Iowa sempre sobrou este privilégio do contato direto. Daí, uns quinze dias depois, já fevereiro adentro, aconteciam as primeiras eleições primárias, em New Hampshire. Em 1991, Clinton ficou em terceiro em Iowa, num surpreendente segundo em New Hampshire. Só em março a temporada de primárias se acirrava, com uma atrás da outra, às vezes várias consecutivas. Há quatro anos, o favorito Howard Dean chegou num surpreendente terceiro em Iowa, soltou um grito televisionado estranho para seus cabos eleitorais e, de favorito, terminou com quase nada nas mãos no prazo de duas semanas.

Este tempo folgado entre Iowa e New Hampshire e todo o resto foi responsável por determinar o ritmo das primárias. Candidatos se fizeram, ganharam cheiro de que subiriam, ou se destruíram, entre Iowa e New Hampshire. Mas, em 2008, as coisas serão diferentes.

Vários estados estão antecipando suas primárias – e a situação está confusa. Iowa trouxe seu caucus para logo o dia 3 de janeiro – o ano virou e, sem descanso das festas, a temporada já começa. O secretário de Estado de New Hampshire ainda não anunciou a data de suas primárias. Acontece que Michigan quer realizar as suas no dia 15 de janeiro – pende decisão judicial, por ser anunciada esta semana, para decidir se conseguirá ou não. Se Michigan o fizer, New Hampshire deverá convocar seus eleitores lá pelo dia 8. E uma penca de estados importantes devem tomar decisões ainda em fevereiro.

Diminuindo o tempo de absorção e definição das tendências, estes estados querem aumentar sua importância na escolha dos candidatos. Mas o resultado é que o jogo estratégico muda. Talvez não permita que algumas candidaturas amadureçam; ou, pelo contrário, pode contribuir para uma não definição de candidato.

Sim: nada é tão simples. Se, passadas todas as primárias, nenhum candidato alcançar os 50% dos delegados, a Convenção Nacional – lá por junho – se inicia aberta. Os delegados votam, ninguém ganha; conversa-se muito nos corredores, nova votação vem. Candidatos inesperados podem se anunciar como nomes unificadores do partido – a confusão impera. No final de três dias, alguém sairá vencedor. Democracia direta em ação.

No campo democrata, Hillary Clinton tem franca vantagem no pleito nacional. Mas veja-se nas pesquisas locais de Iowa e New Hampshire e a equação não soa tão precisa. Nos números do Instituto Strategic Vision, ela tem 29% em Iowa, contra 27% de Barack Obama – empate técnico – e 20% de John Edwards; na pesquisa do New York Times, Clinton tem 25%, Edwards 23% e Obama, 22%. Não há nada de definido por lá. Na mesma pesquisa do New York Times, em New Hampshire, a senadora tem 37% de vantagem contra 22% de Obama e 9% de Edwards. Não há definição do quadro democrata. Se, até o início de janeiro, algum dos candidatos conseguir vantagem grande em Iowa, pode criar momento de virada para um segundo lugar encostado em New Hampshire e produzir o efeito Bill Clinton de 1991.

Para os republicanos, o jogo é ainda mais imprevisível. O ex-governador mórmon de Massachusetts Mitt Romney está com 30% contra 19% do governador Mike Huckabee, do Arkansas, 12% de Giuliani e 11% do senador John McCain. Por conta de suas mudanças de posição tão freqüentes, Romney vem apanhando tanto que, sugerem os analistas, deve perder posições até janeiro. Giuliani, embora tenha o carisma do prefeito solucionador de problemas de Nova York que enfrentou o Onze de Setembro, é tolerante demais com os costumes: pró-gays, pró-aborto, casamentos em excesso e um dia foi travestido para uma festa. É um pacote duro de engolir para a base conservadora dos republicanos. E, bem, Huckabee tem a vantagem de ser novo no jogo, pouco conhecido. Novidade, às vezes, eleitores gostam. Em New Hampshire, a pesquisa do Times coloca Romney com 34%, Giuliani e McCain empatados com 16%. Isto: o governador do Arkansas sequer aparece.

O calendário eleitoral está em aberto e ele, provavelmente, definirá o rumo que a primeira fase da eleição que decidirá o sucessor de George W. Bush tomará.

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