Reinaldo Azevedo defende Veja
das acusações do biógrafo de Che

América Latina · Blogs · Gente · História · Mídia · 14/11/2007 - 10h22 - 219 Comentários

A resposta do editor de internacional de Veja Diogo Schelp ao repórter especial da New Yorker Jon Lee Anderson foi publicada hoje por Reinaldo Azevedo em seu blog. Cá segue em tradução fornecida por ele próprio:

Caro Anderson,

Eu fiquei me perguntando, depois de lhe enviar um email pedindo (educadamente) uma entrevista, por que nunca recebi uma resposta sua. Agora sei que a mensagem deve ter-se perdido devido a algum programa antispam ou por qualquer outra questão tecnológica. Também não recebi sua ‘carta’ – talvez pelo mesmo problema. Tudo isso não tem a menor importância agora porque você resolveu o assunto valendo-se dos meios mais baixos – um email circular. O que lhe fez pensar que tinha o direito de tornar pública nossa correspondência, incluindo a mensagem em que eu (educadamente) pedia uma entrevista? Isso, caro Anderson, é antiético. Vindo de alguém que se diz um jornalista, é surpreendente. Você pode não gostar da reportagem que escrevi; ela pode ser boa ou ruim, bem-escrita ou não, editorializada ou não – mas não foi feita com os métodos antiéticos que você usa. Eu respeito a relação entre jornalistas e fontes. Você não. E mais: parece-me agora que você é daquele tipo de jornalista que tem medo de fazer uma ligação telefônica (assim são os maus jornalistas), já que tem meu cartão de visita e conhece meu número de telefone. Se você tinha algo a dizer sobre a reportagem — e já que sua mensagem não estava chegando a seu destino — poderia ter me ligado.

Eu não sei que tipo de imagem de si mesmo você quer criar (ou proteger) negando os fatos que o seu próprio livro mostra, mas está claro agora que é a de alguém sem ética. Você pode ficar certo de que não aparecerá mais nas páginas desta revista.

Sem mais,
Diogo Schelp

Anderson certamente estava a um telefonema de distância também – e o número da New Yorker não há de ser difícil de conseguir para um repórter de Veja. E Schelp quer inventar uma novidade profissional, o sigilo que a fonte deve ao repórter de não revelar jamais o que lhe foi pedido e perguntado.

Reinaldo Azevedo sugere que quem publicou a carta faz parte de ‘a canalha’. Este Weblog é a matriz, pois. Um dos argumentos é que, antes de publicá-la, não procurou ouvir de Schelp.

Publicar o que é público está na essência do jornalismo. A New Yorker é um dos dois únicos títulos tradicionais que crescem no mercado norte-americano, junto com a Economist. O motivo: credibilidade. Aquilo ali é um muro inabalável da qualidade jornalística, com uma história de quase um século e alguns dos maiores editores e autores de reportagens que passaram por esta profissão. Se um dos mais importantes repórteres de uma das mais importantes revistas do mundo acusa a qualidade da maior revista em circulação no Brasil, isto é notícia.

Houve, sim, quem tenha procurado Schelp e Veja ao longo do dia de ontem. Apenas editor e revista preferiram responder através de seu próprio veículo utilizando-se daquele encarregado de expressar a voz de Veja. É uma decisão de todo legítima. Sugerir que ninguém tentou ouvir sua versão é impreciso: assuma-se a escolha.

Azevedo – mas podem chamar pelo simpático Reinaldão – suspeita que quem divulgou a mensagem são os ‘adoradores de Che da imprensa brasileira’ e que blogs como este são ‘bloguinhos mixurucas’. Ele também afirma que a tradução deste blogueiro da carta de Anderson é petralha. O termo sempre me pareceu uma mistura de petista, do tipo ligado ao PT, com metralha – tipo os personagens Disney – ou canalha.

Não que ofenda, só que também é impreciso. Não voto no PT. Jamais trabalhei para o PT ou em governo ligado à esquerda. Meu encantamento com a figura do Che, que houve, passou lá com os 18 anos e não consigo encontrar adjetivos melhores para Fildel Castro e Hugo Chávez do que ditadores. Aliás, sim, tenho horror a qualquer governo que lida com o Congresso corrompendo-o. É que no mundo sem quaisquer nuances ideológicas de Azevedo, ou se está a favor dele ou se é ‘daquela laia’. Mas ser de imprensa é ser de oposição também à oposição.

(Mixuruca é indefensável. Mixuruca cá este Weblog é mesmo.)

Ele tem problemas com a tradução, vamos a elas. Accurate journalism, ele sugere, não é ‘jornalismo imparcial’. Ele prefere ‘cuidadoso’, ‘acurado’. Pois bem, sugiro até ‘preciso’ – acurado é termo de engenheiro. Mas lapso semântico de minha parte. Foi julgamento deste pobre tradutor amador que jornalismo cuidadoso e acurado é sempre imparcial. Imparcial não quer dizer que não possa chegar a conclusões; quer dizer que, para se chegar a conclusões, analisem-se tantos fatos e versões quanto possível. Se Azevedo tem problemas semânticos com a relação entre precisão e imparcialidade, ele há de estar certo. Aí ele reclama que flesh and blood não pode virar ‘pele e osso’. Vá. Tenho certeza de que pode pescar mais expressões mal traduzidas. Há uma penca delas espalhadas neste Weblog.

A tradução é precisa no sentido de que apresenta com clareza a intenção da crítica. Tenho certeza de que nenhum leitor teve dúvidas sobre o que pensa Jon Lee Anderson.

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