O petróleo do Brasil e o da Venezuela

Brasil · Venezuela · 13/11/2007 - 09h57 - 54 Comentários

Agora já está claro que o post Brasil rumo à Opep? estava apinhado de erros. Em parte, o despiste veio por conta do governo, que empacotou uma informação reciclada com pompa e circunstância para iludir a imprensa. Conseguiu.

Recebi este email de um de vocês, leitores, e achei que valia a pena compartilhá-lo. Não é um hábito comum em blogs a publicação de cartas dos leitores – afinal, a área de comentários serve a isto –, mas neste caso vale pela quantidade de informação. A única coisa que o autor me pediu foi para mantê-lo no anonimato. Não vejo qualquer problema.

Estou enviando a você algumas correções e comentários a respeito do seu post ‘Brasil rumo à Opep?’. Sou leitor do seu blog há anos, e gosto muito do seu trabalho. Entretanto, como ocorre com outros jornalistas, ao lidar com um assunto técnico-científico, erros e/ou imprecisões acontecem. Nesse post, há pelo menos dois:

1) você escreve na primeira frase ‘A Petrobras já deve estar explorando há alguns meses…’. Eu entendi que você usou o termo ‘explorar’ com o significado de ‘produzir’, ou seja produzir comercialmente, em larga escala, petróleo retirado desse campo. Para isso, seria preciso construir novas plataformas de produção, ou deslocar para lá plataformas já operando, o que não aconteceu. Entre a confirmação da comercialidade de um campo e o início da produção, pode haver um intervalo de anos. É preciso investir muito dinheiro numa plataforma de produção em alto mar, na verdade, alguns bilhões de dólares. Um trabalho de engenharia do porte de uma plataforma de produção envolve o trabalho de centenas de engenheiros e milhares de trabalhadores durante o projeto e a construção. E leva alguns anos (até uns 4). Ou seja, não há ainda produção de petróleo desse campo, até que, pelo menos, a Petrobras leve para lá uma plataforma que está hoje produzindo em outro campo. Só para esclarecer, no ramo do petróleo, ‘explorar’ significa apenas perfurar um poço para determinar a existência de petróleo, sua qualidade e as possibilidades de produção com retorno econômico. Se era isso que você queria dar a entender, está ótimo.

2) o petróleo desse campo não tem um ‘grau de pureza muito maior’ do que nada. Petróleo é uma mistura muito complexa de milhares de hidrocarbonetos diferentes, e outros compostos orgânicos inorgânicos indesejáveis durante o refino. O conceito de ‘pureza’ não encontra aplicação prática na indústria do petróleo, onde os teores de alguns compostos específicos são avaliados. Você pode pensar nesses compostos como ‘impurezas’, mas esse não é um conceito aplicado. Além disso, ninguém sabe ainda sobre os contaminantes desse petróleo. Acredito que você fez uma confusão com a declaração de que esse é um petróleo ‘leve’, de 28 graus API (segundo as declarações da Petrobras). Quando o petróleo é ‘pesado’ (como os petróleos Marlim, Cabiúnas, etc, da Bacia de Campos e os petróleos da Venezuela), o rendimento de combustíveis (gasolina, óleo diesel, etc) dele é menor, e a fração mais pesada precisa ser transformada em combustíveis através de processos físico-químicos. Quando o petróleo é ‘leve’, o seu rendimento em combustíveis é maior, e há menos compostos pesados que precisam ser transformados. Por isso, é física e economicamente mais vantajoso processar petróleo ‘leve’. E quanto maior a densidade medida em ‘graus API’, mais leve.

Além disso, essa descoberta, por si própria, não candidata o Brasil à Opep, nem torna o Brasil o 8o ou 9o produtor mundial. Talvez agora o Brail tenha a 8a ou 9a maior reserva de petróleo recuperável do mundo, mas até que a produção aumente, será preciso investir em plataformas e operá-las (como expliquei acima). Assim, até que o Brasil aumente sua importância como produtor, levará muito tempo.

Por fim, a análise geopolítica é muito mais complicada do que você faz parecer. A Venezuela não será tão afetada de imediato porque o Brasil descobriu esse petróleo, mas levará anos até produzi-lo. Nesse tempo, os demais campos de petróleo brasileiros estarão sendo progressivamente exauridos. Outra coisa, a PDVSA não apenas exporta petróleo para os EUA. Há anos, a PDVSA adquiriu uma série de refinarias e postos de combustíveis nos EUA. Assim, eles não precisam exportar todo o petróleo (mais barato) para companhias americanas. Eles mesmos refinam o petróleo nos EUA, distribuem e vendem os combustíveis produzidos lá aos americanos. Dessa forma, eles são parcialmente independentes para colocar no mercado americano o petróleo que produzem.

Por fim, não é exatamente interessante para o Brasil competir como exportador de petróleo. O interessante é refinar o petróleo e exportar os derivados. Nesse sentido, a Petrobras vai construir novas refinarias, já anunciadas, que irão aumentar em mais da metade a sua capacidade de produção de derivados. Não apenas a capacidade de produção da Petrobras será maior, mas, a partir de 2009-1010, as refinarias produzirão combustíveis com qualidade compatível com as exigências dos EUA e da Europa. Alguns grandes exportadores de petróleo estão mudando de estratégia para passar a exportar a derivados, ganhando mais. O caso mais importante é o da Arábia Saudita, que está construindo duas refinarias gigantescas, cada uma com capacidade para processar 800 000 barris por dia.

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