Juan Carlos, Zapatero, Hugo Chávez
e uma aula de democracia

Espanha · Venezuela · 12/11/2007 - 09h35 - 125 Comentários

O rei Juan Carlos e o premiê José Luis Zapatero, da Espanha deram ontem uma aula de diplomacia e de como a democracia funciona num país parlamentarista. Perante todos os chefes de Estado da região reunidos para a Cúpula Iberoamericana no Chile, o venezuelano Hugo Chávez desatou a falar mal do ex-premiê espanhol, José Maria Aznar.

A teoria de Chávez é que os espanhóis incentivaram de alguma forma o golpe frustrado que sofreu, em 2002. Aznar, do Partido Popular de direita, governava a Espanha de então e, em Caracas, o embaixador espanhol chegou a se movimentar para reconhecer o novo governo venezuelano – o mesmo que não chegou a durar dois dias.

Este tipo de acusação não se faz com ironia ou insinuações. Faz-se, prova-se ou, para a boa relação entre nações, é melhor ficar quieto. Até porque a ofensa a Chávez não vem pelo rompimento que um golpe de Estado impõe ao fluxo da democracia. O próprio Chávez foi golpista frustrado noutros tempos e, como concentra os três poderes e tem reeleições infinitas, exerce a função da presidência com os limites de um tirano.

‘¿Será que el Rey sabía del golpe contra mí y por eso se enfurece porque digo que Aznar es un fascista?’, perguntou Chávez à mesa.

No momento em que acusou o ex-premiê espanhol de fascista, armou-se a crise. Zapatero procurou interceder, mas Chávez não parava de falar. ‘¿Por qué no te callas?’, lançou o rei Juan Carlos.

Não é a primeira vez que Chávez lança acusações contra Aznar e, por isso mesmo, é bastante razoável presumir que o premiê espanhol e sua majestade estavam combinados. Juan Carlos, que não exerce função política mas representa a imagem do país no exterior, mostrou-se indignado. Zapatero, com o espaço aberto pelo cala-boca real, encaminhou a discussão.

É possível, ele disse, discordar ideologicamente, no campo de idéias, de qualquer outro político. E isto certamente é verdade no caso de Aznar e Zapateiro. Mas a falta de respeito a um governante da Espanha é falta de respeito com a Espanha. José Maria Aznar foi eleito pelo povo espanhol, o mesmo que no pleito seguinte pôs José Luis Zapatero no cargo. Desrespeite um e desrespeita-se a instituição.

Chávez foi pego de surpresa. ‘Por qué no te callas tú, Rey?’, indagou lançando mão do ao invés do respeitoso vos. Esboçou um discurso de que latinoamericanos não se curvam mais à Coroa espanhola e de que Zapatero não devia se ofender, afinal é socialista. É bem possível que Chávez não tenha entendido mesmo o que lhe ocorreu. Mas políticos espanhóis discutem sua política interna dentro de casa – aí o jogo é limpo. Fora, representantes eleitos são o rosto público da Espanha e, portanto, são todos os espanhóis.

O gesto foi no ponto: nenhuma sanção diplomática oficial mas um cala boca real duro complementado por uma pequena aula de democracia. Tudo transmitido pela tevê.

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