Recentemente, me convidaram a falar para um grupo sobre inovação. É um tema vago como os diabos. Aqui vão minhas notas para a palestra – o assunto é bem atual.
Não fomos sempre inovadores.
Nós, o Homo sapiens sapiens, estamos na Terra faz 120.000 anos. Desde cedo começamos a nos espalhar pelo mundo. Mas não criávamos nada. Tínhamos pedras lascadas, é verdade. Na África, no Oriente Médio, na Europa, onde houvesse um de nós encontrava-se rigorosamente os mesmos instrumentos e eram ferramentas apenas um pouquinho mais sofisticadas do que as que o Homo erectus ou o Homo habilis já usavam fazia muitas centenas de milhares de anos.
Estamos por aqui há 120.000 anos e, por metade deste período, não criamos rigorosamente nada.
Mas aí, algo entre 60 e 50.000 anos atrás algo mudou de repente: botões, agulhas de costura feitas com ossos, lanças, lançadeiras, lâminas, desenhos nas paredes das cavernas. Repentinamente começamos a inventar. Os cientistas chamam este período de o grande salto para a frente. Ninguém sabe o que houve. Uma das teorias sugere que foi quando começamos a conversar. Com a linguagem, talvez fruto de uma mutação genética, houve diálogo e, com diálogo, criação. E a criação diferia. O botão que se fazia no Oriente Médio era diferente do colar na Europa e na África faziam uma lançadeira que ninguém mais tinha. Quando surgiu a inovação, surgiu também a diferença cultural. E a esperança de compreender onde estamos e as tentativas de produzirmos um mundo melhor para vivermos.
Algo entre 20 e 10.000 anos atrás, aprendemos a plantar. Porque plantávamos, era preciso compreender as estações do ano e manter um inventário da colheita. Nasceram ciência e matemática e escrita. Bons inventários permitiram a criação de silos com comida para muitos. Armazenagem de comida deu tempo livre. Tempo livre trouxe mais inovação. O metal, então o aço. Rodas dentadas, engrenagens. Máquinas. Eficiência tecnológica permitiu que viessem as cidades. Navios, astronomia, filosofia, arquitetura, arte. Fomos aos oceanos. Descobrimos o planeta.
Leonardo da Vinci era um homem renascentista. Ele entendia de tudo. De arte, de proporções, de anatomia, de engenharia, de astronomia. Foi o último. Depois do renascimento, o conhecimento acumulado pela humanidade ficou tamanho que gente como Leonardo deixou de ser possível. Não dá para saber tudo.
Mas continuamos em busca de compreender para inovar. O iluminismo acirrou uma estratégia que já vinha ensaiada desde os gregos: a especialização. Uns foram à biologia e nos trouxeram ao DNA, ao mapeamento do código genético. Outros foram à física: o átomo, os prótons, quarks, energia nuclear. Vimos através de telescópios que construímos vestígios do início do universo.
Estamos próximos, muito próximos, de entender tudo. Próximos de criar vidas. De curar-nos de quaisquer doenças. De entender como o mundo e o universo e tudo mais surgiram. E, no entanto, já dá para perceber que quando descobrirmos todas as respostas para as perguntas específicas que temos, elas não nos explicarão o todo.
A estratégia deu errado. Nos especializamos tanto que chegamos ao ponto de enxergar os mínimos detalhes das peças de um quebra-cabeças e perdemos a noção de como essas peças se encaixam. Há quem saiba tudo de cada peça, mas ninguém é capaz de, como Leonardo, ver o todo. Nem seria possível. Estamos próximos de saber cada detalhe do universo mas não saberemos como cada detalhe se relaciona com o outro.
O resultado de mexer com estas peças sem ciência de como elas afetam o todo é que criamos desequilíbrios e coisas como o aquecimento global.
Mas há uma saída: informação. Assim como a linguagem nos lançou num mundo de informação, outro conjunto de inovações já começam a fazer grande diferença. A Internet. Telefonia celular. Todas as tecnologias de comunicação digital que se integram numa grande rede. Este conjunto põe cientistas, engenheiros, criadores – todo mundo – em contato imediato.
Para que a rede tenha eficiência máxima, para que quem precise de informação encontre quem pode informar, é preciso munir a rede de informação. De toda informação que temos. Todos os livros, todos os artigos, todas as idéias estão sendo lentamente digitalizadas e postas online. Um médico que procura a solução para um problema misterioso e complexo poderá, no futuro, entrar num Google da vida e descobrir que um físico já lidou com algo muito semelhante. Informação disponível de forma ilimitada permitirá que comecemos a montar este quebra-cabeças.
Mas há um pequeno problema.
Nem toda informação é pública ou livre. Nem toda informação estará disponível. Governos de presto vão argumentar que certas coisas são delicadas demais, devem permanecer como segredos de Estado. Empresas alegarão que investem na criação de conhecimento e que têm direito de manter controle sobre o uso deste seu conhecimento. Gravadoras ou editoras ou estúdios de cinema dirão que a arte que financiam e distribuem é propriedade privada e ponto: é preciso pagar para consumi-la, de resto o nome disso é pirataria. Sem este financiamento dos consumidores, dizem, não haverá mais inovação. Nós mesmos dizemos que há informação a nosso respeito que queremos preservar. Chamamos a isso privacidade. E todos temos razão dentro de nossas razões, evidentemente.
Mas, assim, impomos um limite às possibilidades de a grande rede global reunir toda a informação para que seja usada por todos. Nós criamos uma barreira para que funcione da melhor forma possível.
O segredo que todos já começaram a entender mas recusam a aceitar é que esta grande rede é incontrolável. Segredos de Estado vazam. A toda hora. Segredos industriais também. Pirataria nem se fala. E privacidade? A privacidade está começando a acabar. Estamos entrando numa era de plena informação, uma era na qual toda informação é acessível. Há quem argumente que eleitores ganharão com a transparência de seus governos. Ou que a indústria é gananciosa demais ao cobrar, por exemplo, dinheiro em excesso que impede gente de ter acesso a remédios que podem lhes salvar. Plena informação criou um ambiente de plena inovação em tempos passados.
Quanto tempo vai demorar para chegarmos ao tempo da informação plena? Vinte anos? 50? 150? Não há resposta mas há pistas. Há 15 anos não tínhamos celulares. Há 10, muitos ainda não ouvíramos falar da Internet. Até 10 anos atrás, países como a Líbia não tinham como conseguir acesso a informação sobre como fazer bombas nucleares. Há 7 anos ninguém imaginava que piratear música seria tão trivial e que a indústria não teria qualquer esperança de controle sobre isso. Está tudo se transformando muito rápido.
Há um mundo novo surgindo que nos apresenta a todos, pessoal e profissionalmente, um número incrível de desafios.







46 Comentários até agora ↓
1 Pax // 9/November/2007 às 9:29
Não é de graça que nos processos das grandes empresas a área de inovação é das mais valorizadas.
2 aiaiai // 9/November/2007 às 9:58
PD
Recorro a você e aos nobres comentaristas para me explicarem porque O Globo coloca na primeira pagina do site que o anúncio da nova reserva já havia sido feito “há mais de um ano” e na matéria não há nenhuma referência a tal assunto??? Foi uma barriga? Ou eles estão querendo inventar? Isso também é inovação? Que confusão! aiaiai
O Brasil tem petroleo e a petrobras ainda não foi privatizada. Essa é uma realidade dura para a rapaziada do PFL e do PSDB. Isso eu posso entender. Mas, jornalismo não é bem assim, né? Ou não deveria ser.
3 Te // 9/November/2007 às 9:59
Excelente texto! Sua palestra vai ser um sucesso!
4 proftel // 9/November/2007 às 10:09
É….
O mundo está cada vez mais ligado.
Viram o tombo que deram no Observatório da Imprensa?
5 Dom Casmurro Patriarca // 9/November/2007 às 10:18
Um texto fantástico.
Concordo com tudo.
6 joao gomes // 9/November/2007 às 10:18
pois é,
PD acho que olhando nesta escala evolucionista o homem é um fiasco em matéria de inovacao. Está apenas no IN (dentro de si mesmo, ególotra) - falta passar pelos estágios do O -(olhar/buscar compreeender/respeitar o Outro; V - (viver e deixar viver) AÇÃO.
mas o que ainda nao vejo esforço governamental é sobre:
-inovacao da lei (como encarar: bioética; eutanásia; criogenia; direitos autorais, etc.???);
-inovaçao do exercício da democracia.
Mas a mesma mao que aciona o click para doar uns dólares para mitigar sede e fome é a mão que aciona o botao vermelho do Armagedon.
Mas ainda precisa se falar de contra-informação e pseudo-informação.
A sutileza é que a nave dos eleitos esá sendo preparada no deserto de Nevada.
O novo planeta descoberto receberá os mil justos.
7 Mr X // 9/November/2007 às 10:30
“Repentinamente começamos a inventar. Os cientistas chamam este período de o grande salto para a frente. Ninguém sabe o que houve.”
Alguns dizem que foi um monolito gigante preto. ;-)
8 UruBU Perchée // 9/November/2007 às 11:10
É realmente vai ser um sucesso.
E o blogueiro Doria é um otimista. Ouvi falar de uma coisa chamada web2, ou algo assim. Parece que andam querendo melar a tal da informação total para todos. Lendo o dossier sobre pirataria da uol, descobri que posso ser acusada de pirataria e processada. Emprestei CDs a meu marido. E também descobri que a elevação do preço do milho está diretamente ligada à pirataria. As pessoas só comem pipoca no cinema. Como ninguém mais vai ao cinema (dixit o diretor presidente de uma RIA daquelas) então o cultivo do milho está em crise. Chamem a galinha Mariquinha.
Sei lá… os meninos do Leblon não olham mais prá mim e quando olham me chamam de Senhora.
9 proftel // 9/November/2007 às 11:19
Mr X:
Aquele que está em Meca?
kkkk rsrsrsrsr
:-))))
10 Pax // 9/November/2007 às 11:21
Bem, as três grandes áreas de inovação da moda são, na crença do inculto comentarista, Energia, Transportes e Informação.
E essas inovações vêm ao encontro da exaustão dos recursos naturais que temos - apasar do Petróleo de Ubatuba.
O assunto é sério.
11 proftel // 9/November/2007 às 11:22
Ô Pedro Doria, sei não, nesse trecho aqui:
“O metal, então o aço. Rodas dentadas, engrenagens. Máquinas. Eficiência tecnológica permitiu que viessem as cidades”
Eu acrescentaria carvão, petróleo e energia elétrica, sem isso máquina não funciona.
Desculpe aí minha intromissão.
:-)
12 proftel // 9/November/2007 às 11:30
Ah Pedro Doria, também dava um tapa nas invenções chinesas, bússola, pólvora e outros troços que de uns tempos prá cá o povo tá falando que foi chinês que inventou, tem coisa que é mais antigo que andar prá frente, como a tecnologia de velas e casco estanque nas embarcações.
13 JW // 9/November/2007 às 11:48
McLuhan uma hora dessas??? ;-)
Mas é isso mesmo: o futuro agora é um caminho com vias infinitas e imprevisíveis. O lance é arranjar um mapa…
14 Diego // 9/November/2007 às 12:01
Ótimo texto. Seria legal colocá-lo sobre uma apresentação em video, como aquelas que o Marcelo Gleiser fez para o Fantástico.
15 nada será como antes // 9/November/2007 às 12:05
Pedro Doria , se me permite, seu texto está bom mas gostaria de fazer algumas ressalvas. Seguinte : ” entre 60 mil e 50 mil anos atrás algo mudou de repente: botões, agulhas”… Que eu tenha conhecimento, há 50 mil anos atrás não havia objetos desse nível de sofisticação, a não ser porretes e similares e nem haveria maneira de encontrar instrumentos tão antigos, pois o material de que são (teriam sido) feitos não resistiriam tanto tempo sem degradação. Objetos encontrados por arqueólogos têm, quando muito , de 15 mil a 20 mil anos, segundo testes com Carbono 14. Segundo ponto: ” Entre 20 mil e 10 mil anos atrás (…) Nasceram ciência e matemática e escrita .” É claro que as coisas não surgem num passe mágico, elas evoluem . Como força de expressão, apenas, pode ser dito que as primeiras contagens representam o surgimento da matemática ou, melhor ainda, da aritmética. Também não surgiu a ciência naquela época, quando muito pode ser dito que o conhecimento passava, a partir de mais ou menos 10 mil anos atrás, a ser acumulado e repassado às gerações seguintes pelas práticas cotidianas e pela incipiente linguagem. Também não há provas de que o surgimento da escrita tenha tal idade. Há 20 mil anos atrás só havia, ao que se sabe hoje, inscrições rupestres, que são simbólicas , mas não com força de escrita. A escrita, para ser criada, necessitou de simbolismo e codificação, o que ocorreu há pouco mais de 6 mil anos e não poderia ser diferente, pois a linguagem, como a entendemos hoje, só adquiriu certo grau de padronização por essa época. Terceiro : Ciência , entendida como sistematização do conhecimento, só surgiu a partir de Galileu, com o método da experimentação, com Francis Bacon e seu método das “coincidências constantes’ e, mais à frente, com Descartes e o racionalismo. Portanto, ciência é algo da Idade Moderna. Por essa razão, não é possível a nenhum humano ..”ver o todo” como você disse que fazia Leonardo. Realmente Da Vinci foi um expoente de seu tempo em suas múltiplas atividades, mas sua obra, não por acaso, é marcadamente artística que era, na época, o canal de comunicação dos geniais, que não dispunham de base científica. É justamente a inexistência de sistemas e métodos científicos que possibilitou a Leonardo e outros seus contemporâneos passar a imagem de conhecedores múltiplos, que supostamente detinham amplo espectro de saber ; acontece, na realidade, que o saber acumulado até os séculos XV e XVI era relativamente pequeno e de teor marcadamente filosófico e artístico, mas ainda não científico.
16 confetti e o dentista cruel // 9/November/2007 às 13:10
pd, que barato esse papel !
parecendo que vc tomou um ecsta e fumou um bagulho por cima ! kk
17 Conselho // 9/November/2007 às 13:11
Melhor texto que li por aqui. Parabéns!
18 joao gomes // 9/November/2007 às 13:39
talvez estamos enfeitiçados com a velocidade da informação.
talvez estamos enfeitiçados com a ubiqüidade da informação.
Talvez estamos confundindo a rede com o mar.
Talvez estamos estamos supervalorizado a informacao em detrimento do conhecimento.
Lembrem-se do Filme Proteus?
Timeu?
19 Mr X // 9/November/2007 às 13:43
Nada,
uma observação à sua observação, se “não resistiriam tanto tempo sem degradação”, não há como provar que “há 50 mil anos atrás não havia objetos desse nível de sofisticação”. Podia haver como não haver… É como a existência de Deus, não dá pra provar..
20 josef mario // 9/November/2007 às 13:43
Companheiro nada será como antes
Eu, josef mario, devo dizer que, em relação a este texto mediano do companheiro pedro doria, o seu comentário foi muito melhor.
Muito obrigado.
21 Ana Lígia // 9/November/2007 às 13:48
Berthalanffy, já havia previsto a necessidade de se entender a parte e o modo como ela se comporta com o todo. Criou uma disciplina, Teoria Geral dos Sistemas, isso lá nos meio do século XX, mas ianda não conseguimos.
Valeu, PD, esse post vai me ajudar com a disciplina na Facul.
22 anrafel // 9/November/2007 às 13:55
Pedro colocou a palestra quase toda e disse que eram apenas notas. Grande post.
O lance “nasceram a matemática e a escrita” se deve ao que à época pode ser entendido como tal. Não há como comparara níveis de sofisticação.
A escrita, escrita mesmo, foi inventada pelos sumérios. Que de quebra inventaram também a cerveja.
23 nada será como antes // 9/November/2007 às 14:01
josef mario , humildemente agradeço suas palavras sem, no entanto, merecê-las.
24 josef mario // 9/November/2007 às 14:14
Companheiro pedro doria
Eu, josef mario, devo dizer que discordo totalmente da afirmação do companheiro de que “não fomos sempre inovadores”. O ser humano sempre foi e sempre será inovador. O que tem variado, ao longo dos séculos, é a velocidade em que se processa esta inovação.
Muito obrigado.
25 UruBU // 9/November/2007 às 14:28
Nem me perguntem a razão, mas acabei de fazer uma descoberta prenhe de significados.
Se algum curioso doentio colocar qualquer palavra da família de INOVAÇÃO na busca do site do Paul Rabbit adivinhem o que aparece?
Preparados?
Nada. Não aparece nada. A idéia de renovação, inovação, transformação, enfim… esse campo semântico é inexistente no “pensamento” coelhiano.
26 SmiR // 9/November/2007 às 14:41
Evolucionismo demais, positivismo demais… me veio Comte a cabeça, mas tudo bem, o texto está bacana. Só não concordo com tudo que você disse.
27 Eu // 9/November/2007 às 15:05
PD,
bom, mas acho que seu texto está mais para “invenção” ou “criação” do que para inovação.
28 joao gomes // 9/November/2007 às 15:47
Facul.
ai,ai,ai, …sera Tabajara University…
29 Gustavo Timm de Oliveira // 9/November/2007 às 17:35
Pedro,
Texto está sensacional. Meus parabéns!
Abraço!
30 Zé Bush // 9/November/2007 às 18:41
well….o que podemos entender por “plena informação”? Entendo que estamos vivendo o nascimento da informação “consentida”, ou da informação produzida especificamente para ser compartilhada e “consumida”.
Com tanto volume de informação ao alcance do mouse, qual o filtro que pode regular e separar a “boa” da “má” informação? A verdadeira da falsa? A real da fictícia? A útil da inútil? A construtiva da descartável?
Concordo com Mr. Doria ao supor que o homem começou a “dar certo” quando começou a falar (ou grunhir) e se fazer entender em grupo.
Ou quando viu alguma coisa que o ameaçasse. Mêdo faz milagres.
31 Alba // 9/November/2007 às 18:47
PD,
Muito bom o texto, mas realmente parece um tanto evolucionista demais, como notou o SmiR. Além do mais, parece improvável que alguém, por mais genial que seja, consiga processar toda a informação disponível, até porque pressupõe em muitos casos, conhecimento bastante especializado.
Sem falar nas contradições que estão presentes em todo o processo, como no caso da pirataria.
Nada será como antes,
Parabéns pelos seus comentários! :)
32 Alba // 9/November/2007 às 18:50
Zé Bush,
Você levantou boas, excelentes, questões.
33 Antonio // 9/November/2007 às 21:07
Doria, caro:
Faço uma breve pausa cá com os meus botões apenas para elogiar o belo texto — e também criticá-lo um pouquinho. (Talvez crie alguma polêmica aqui, e o pior é que ando tão sem tempo que não vou conseguir acompanhar a discussão depois…)
Discordo de que “estamos muito próximos de entender tudo”. Porque isso pressupõe duas coisas. A primeira é que existe algo como uma Verdade, e a segunda é que se formos hábeis o suficiente poderemos chegar a ela.
Não existe consenso na comunidade científica quanto a isso. Há, por exemplo, a prova da incompletude na matemática (Kurt Godel), o princípio da indeterminação na mecânica quântica (Heinseberg)… A discussão é cabeluda.
Uma das tentativas mais ilustres de lidar com essa cabeleira toda foi a de Popper. Popper reconheceu que nunca conseguiremos chegar à Verdade última — mas que podemos ir afastando os erros sucessivamente, até chegarmos ali bem próximo a ela. Ok, só que há um problema nisso. Este argumento só faz sentido se o número de alternativas a nosso dispor (”tentativas” de verificação de uma determinada afirmação), for finito. Mas, a priori, não temos nenhuma evidência disso. Não há nenhuma prova de que nossas alternativas de pensar uma certa questão tenham “vindo ao mundo” em um número pré-determinado, fixo, limitado. Novos desdobramentos (tecnológicos, filosóficos etc.) podem sempre criar novas possibilidades.
O homem sempre se utiliza de um determinado vocabulário para pensar a si e o mundo. Por exemplo: na Idade Média, todo o conhecimento era atravessado por Deus. Aí veio as revoluções científicas, Bacon, Descartes, o iluminismo — enfim, toda aquela rapaziada — e mudou radicalmente o vocabulário que se utilizava para pensar o homem e sua relação com a natureza. Deus o cacete, é a razão quem está com tudo. Mas aí veio uma outra rapaziada — Nietzsche, Freud… — que colocou as coisas em outros termos, e o vocabulário mudou novamente. Bem, resumindo: os homens foram expostos a vocabulários que eram considerados “finais” em suas épocas, mas que depois, com a emergência de novos vocabulários, se viram substituídos. E quem ou o quê nos garante que este nosso vocabulário de agora é o último, o definitivo, o mais apropriado para chegar à Verdade, para descobrir “tudo”? Nada. Não há nenhuma garantia disso. E o mais curioso é que só perceberemos isso quando um outro vocabulário romper com o atual… Então a gente poderia dizer o seguinte: se você acredita que este vocabulário de agora é o final, é aquele que vai te permitir saber tudo, você é claramente um metafísico. Se, por outro lado, você não acredita nisso, então você é um… digamos… irônico. Não no sentido de “sacana”, ou niilista, ou relativista; irônico no sentido de reconhecer que todo conhecimento é contingente, transitório, e que está destinado a ser superado, mais cedo ou mais tarde.
Pra finalizar, cito Richard Rorty: “Nós não podemos imaginar um momento no qual a raça humana poderia olhar para trás e dizer: ‘bem, agora que nós finalmente chegamos à verdade, podemos relaxar’. (…) O fim da atividade humana não é o repouso, mas antes uma atividade humana melhor e mais rica”.
Grande abraço,
ACT
34 De La Silva // 9/November/2007 às 21:22
PD,
Não leio todos os assuntos do blog. As guerras entre nações, e por religião, por exemplo, não me atraem.
Mas ao ler esse texto sobre atualidades, tecnologia, história, ciência, inovação…, tão didático, agradável e bem escrito, posso dizer que o sr. presta, assim como uma publicação jornalística de valor, um grande serviço público ao seu leitor.
Obrigado.
Ps. Minha contribuição ao blog vai por meio da visita àààà àà publicidade.
35 Pax // 9/November/2007 às 21:32
O De La Silva é um cara didático. Com ele aprendo, mesmo com minha dislexia, usar crase.
36 De La Silva // 9/November/2007 às 21:35
Os comentarios 15 e 33, apesar de terem contribuido para enriquecer o debate, contestando algumas afirmações e aprofundando outras, não tiram o mérito do texto, e sua idéia central.
Muito interessante a perspectiva da linguagem ter sido o estopim para o desenvolvimento cultural da raça humana.
37 De La Silva // 9/November/2007 às 21:42
Olha o Pax aí.
Pax, conta uma daquelas histórias legais, de experiência de vida, que costuma colocar por aqui. O encontro com as blogueiras, o acidente de moto, a Heide, o desabafo sobre a morte de “índio” (equino), a história do menino ladrão (Jean Valjean), etc.
Sobre ààà crase, é apenas uma brincadeira. Se eu fosse corrigir todos os acentos e erros gramaticais,que cometo, ia ser chato escrever aqui. Mas é importante escrever com correção.
38 tipuri // 9/November/2007 às 22:47
Delicioso texto Dória!! E me permito aqui escrever um montão, já que vi que outros fizeram o mesmo e já que são várias as questões que eu queria colocar. Vamos lá: #1# Teu excelente artigo me fez lembrar de outros artigos meus que escrevi lá por 2001. Um é o linkania (http://tzatziki.wordpress.com/linkania/) que sei que conheces bem, pois discutíamos disso na lista metáfora (pré-metareciclagem) e te chamava carinhosamente de doritos, lembra? O outro artigo, citado (linkado) no próprio linkania, é o “informação é pública” (http://buzzine.info/46/node/2) que publiquei na mesma época no saudoso novae mas esse não sei se leste. E também não importa, porque o legal disso tudo é como as idéias se “confluenciam” (neologizei?) e como estamos realmente num processo inevitável, que as vezes dá medo e as vezes dá prazer. Bom saber que escreves pra mais gente pra falar dessas coisas, porque como te disse já, esse teu artigo tá delicioso #2# Tem uns chatos aqui nesses comentários né? (eu me incluo, haha) gente que fica só vendo o detalhezinho, a picuinha pra importunar quem escreveu… mas isso é o preço pra se ter outras boas supresas. Fiquei animado ao ler comentários que troxeram ainda mais luz ao tema. Acho que a equação é meio que essa mesma: pra se ter riqueza de informação, temos que aturar no meio algumas chatices… #3# Tem um livrinho que mudou minha vida (não! não é a bíblia! haha), chama-se Ismael, do Daniel Quinn, conhece? Ponho aqui um link em inglês, porque apesar do livro existir no Brasil através da Editora Peirópolis, o próprio comentário deles é fraquinho, este é melhor: http://en.wikipedia.org/wiki/Ishmael_(novel) O livro daria um blog inteiro, por isso não me prolongo sobre ele mas o recomendo fortemente. Tem um outro livro do Quinn (esse sim está virando um blog inteiro, sendo entregue em posts aqui: http://alemdacivilizacao.blogspot.com/ ) que não é uma história, mas complementa e muito essa mistura entre arqueologia e civilização, que tratas no artigo. #4# Tudo isso me faz lembrar também um video, chamado “Dancem, macacos, Dancem” (veja-o aqui: http://www.youtube.com/watch?v=DRJqrLd7MrE ) Não comento muito, o video fala por si. # Por último (teria muito mais pra falar mas não quero chatear a você e os demais leitores, farei isso no novo blog que estou montando), queria que nos contasses como foi a repercussão dessas idéias na palestra. Imagino que devem ter surgido outros pontos, mas muito me interessaria que compartilhasses conosco. Forte abraço a você e (como diz a xuxa) a todo mundo que está me assistindo nestes comentários. :) Tipuri - Marcelo Estraviz
39 Pax // 10/November/2007 às 8:16
Marcelo Estraviz,
Belíssimo comentário. Realmente aqui se paga um preço para se ter as pérolas. E quem está no dia-a-dia também acaba chegando ààà chatice de quando em vez. É o papo de ser humano, demasiado.
Mas é bom e também, pra não fugir do post, inovador. Tanto pela dinâmica, quanto pela variedade e pela competência do blogueiro, que não nos ouça pois cariocas costumam ser metidos. Anuncie teu novo blog aqui, gostaria de conhecer.
De La Silva,
Cara, primeiro agradecendo de novo as aulas sobre crases. Obrigado, vero. Quem sabe um dia chego àaaa competência nesse item de nossa língua. Histórias particulares de comentaristas é inovador? Sei não, mas aqui nós colegas nos dividimos tanto que dá até pra chegar àaa taxionomia. Alguns gostam de contar, outros gostam de inventar, alguns acham que os que gostam de contar são uns narcisos, outros adoram ler e conhecer melhor os colegas, alguns se jogam àaas escuras, outros planejam, alguns criticam abrir demais e se expor demais, outros ajudam, alguns atiram pedras e outros beijos. Eu curto. Mas acho que essa inovação fica melhor na inovação do Pedro Doria, nos Opens Threads, um acerto do carioca que está aprendendo a dose, no dia-a-dia do blog. Você mora em Belem? Se sim, tenho histórias daí também. Abraços !
40 tipuri // 10/November/2007 às 21:51
ukma correção: O link correto inclui o (novel): http://en.wikipedia.org/wiki/Ishmael_(novel)não se trata de evangelismos aqui.. :)
Sobre meu novo blog: em breve, poucos dias. avisarei!
abs,
me
41 Éd Lascar // 12/November/2007 às 21:53
Gostei da palestra! :o)
No entanto, “plena informação”?!
Never gonna happen!
42 Legal » Blog Archive » Inovação e compartilhamento da informação // 13/November/2007 às 13:11
[…] esses trechos foram pinçados lá do blog do Pedro Dória e compartilhado na íntegra pelo Bicarato - desta vez não pelo Marcelo, do Johnnie Blunder, mas […]
43 Lucia Malla // 27/November/2007 às 17:58
Que texto, Pedro! Muito bom.
Acrescentando a ele, acho q foi o Hermenauta quem disse outro dia que no futuro a informação mais valiosa será aquela que NÃO estará na rede, disponível às pessoas. Acho q concordo com ele, já que o caminho que parece ser o natural é de cada vez mais a informação aumentar e se tornar plena em algum momento futuro.
Será um desafio delicioso de se viver: aprender a lidar com essa completude da informação e a necessidade de inovação e criação, acima de tudo.
44 Marcelo Estraviz // 17/December/2007 às 15:20
e aím doritos? como foi a palestra? conta pra nós!
45 Fashion Bubbles » Nós, inovadores // 28/January/2008 às 16:05
[…] deixe de ler o restante do texto Nós, Inovadores, no site do Pedro Dória. Filed under Moda e Estilo by Fashion Bubbles Permalink […]
46 Nós, inovadores // 11/August/2008 às 22:00
[…] deixe de ler o restante do texto Nós, Inovadores, no site do Pedro […]
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