Paquistão e o quebra-cabeças que
Musharraf arrumou para si

EUA · Islã · Terror · Ásia Central · 7/11/2007 - 13h04 - 52 Comentários

Aquilo que todo mundo diz sobre golpes de Estado é um clichê: sabe-se como começa, não dá nem para imaginar como termina. O Estado de emergência declarado pelo presidente paquistanês Pervez Musharraf, no sábado, é um golpe destes.

Musharraf estava por um fio. Embora reeleito num pleito de honestidade discutível, ainda pendia uma decisão da Suprema Corte sobre a constitucionalidade de ele manter-se no cargo. Antes de deixar seu uniforme para servir como presidente civil, como havia prometido, Musharraf preferiu não esperar. Alega que o objetivo do estado de emergência é combater o terrorismo no norte; a primeira coisa que fez, no entanto, foi prender Iftikhar Mohammed Chaundhry, o presidente da Suprema Corte, além de outros juízes. Pois é.

Se seu problema imediato se resolve assim, o cenário é um tanto mais complexo. O presidente do Paquistão depende de dinheiro norte-americano. Os EUA têm interesse em gente de confiança ali – afinal, é na fronteira Paquistão-Afeganistão que a al-Qaeda tem sede. Mas enquanto o interesse direto é claro, o discurso de Washington é de democratização como arma contra o Terror. Musharraf era o ditador que estava abrindo o Paquistão, então dava para engolir. Agora, é o ditador que prende juízes que não lhe convém mandando o exército para a rua. Ele não deixa para o governo de George W. Bush escolha que não condená-lo.

Internamente, seus problemas não são menos complexos. Seu poder vem de uma fidelidade canina que o exército lhe devota. A Justiça se opõe a ele, assim como uma classe influente no país – a dos advogados. Também há oposição no serviço secreto, que é o único braço do governo com abertura para conversas nos setores islâmicos. E, agora, sua principal adversária laica está em casa: Benazir Bhutto.

Hoje, Bhutto convocou protestos em massa contra o golpe de Estado para a sexta-feira. Ela é popular e provavelmente conseguirá levar as multidões para as ruas. Não faz muitas dias que fez coisa parecida, em sua chegada. Mas, enquanto bate com uma mão, oferece a outra por baixo da mesa. Em entrevista à Time, declarou que ‘não quebrará sua palavra’. Se Musharraf oferecer uma agenda para que novas eleições parlamentares aconteçam, se cumprir sua promessa de deixar o cargo de comandante em chefe do Exército no dia 15 próximo e se a normalidade jurídica for reestabelecida, ele ganha seu apoio.

Sexta-feira tornou-se um dia chave e, após oito anos de ditadura militar, o Exército não é bem visto. Se os protestos tornarem-se intensos, é com as Forças Armadas que o ditador poderá contar. Mas isto não quer dizer que os soldados – ou mesmo os oficiais – estejam dispostos a partir contra a população. Seria um banho de sangue e, provavelmente, um desastre para a instituição. Se Musharraf se vir obrigado a dar este tipo de ordem e for desobedecido, o que lhe restará? É preciso, pois, evitar o confronto.

Suspender a constituição num estado de emergência e dar um golpe é fácil. Desembaraçar os nós num país já profundamente instável é um bocado difícil.

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