Paquistão e o quebra-cabeças que
Musharraf arrumou para si
Aquilo que todo mundo diz sobre golpes de Estado é um clichê: sabe-se como começa, não dá nem para imaginar como termina. O Estado de emergência declarado pelo presidente paquistanês Pervez Musharraf, no sábado, é um golpe destes.
Musharraf estava por um fio. Embora reeleito num pleito de honestidade discutível, ainda pendia uma decisão da Suprema Corte sobre a constitucionalidade de ele manter-se no cargo. Antes de deixar seu uniforme para servir como presidente civil, como havia prometido, Musharraf preferiu não esperar. Alega que o objetivo do estado de emergência é combater o terrorismo no norte; a primeira coisa que fez, no entanto, foi prender Iftikhar Mohammed Chaundhry, o presidente da Suprema Corte, além de outros juízes. Pois é.
Se seu problema imediato se resolve assim, o cenário é um tanto mais complexo. O presidente do Paquistão depende de dinheiro norte-americano. Os EUA têm interesse em gente de confiança ali – afinal, é na fronteira Paquistão-Afeganistão que a al-Qaeda tem sede. Mas enquanto o interesse direto é claro, o discurso de Washington é de democratização como arma contra o Terror. Musharraf era o ditador que estava abrindo o Paquistão, então dava para engolir. Agora, é o ditador que prende juízes que não lhe convém mandando o exército para a rua. Ele não deixa para o governo de George W. Bush escolha que não condená-lo.
Internamente, seus problemas não são menos complexos. Seu poder vem de uma fidelidade canina que o exército lhe devota. A Justiça se opõe a ele, assim como uma classe influente no país – a dos advogados. Também há oposição no serviço secreto, que é o único braço do governo com abertura para conversas nos setores islâmicos. E, agora, sua principal adversária laica está em casa: Benazir Bhutto.
Hoje, Bhutto convocou protestos em massa contra o golpe de Estado para a sexta-feira. Ela é popular e provavelmente conseguirá levar as multidões para as ruas. Não faz muitas dias que fez coisa parecida, em sua chegada. Mas, enquanto bate com uma mão, oferece a outra por baixo da mesa. Em entrevista à Time, declarou que ‘não quebrará sua palavra’. Se Musharraf oferecer uma agenda para que novas eleições parlamentares aconteçam, se cumprir sua promessa de deixar o cargo de comandante em chefe do Exército no dia 15 próximo e se a normalidade jurídica for reestabelecida, ele ganha seu apoio.
Sexta-feira tornou-se um dia chave e, após oito anos de ditadura militar, o Exército não é bem visto. Se os protestos tornarem-se intensos, é com as Forças Armadas que o ditador poderá contar. Mas isto não quer dizer que os soldados – ou mesmo os oficiais – estejam dispostos a partir contra a população. Seria um banho de sangue e, provavelmente, um desastre para a instituição. Se Musharraf se vir obrigado a dar este tipo de ordem e for desobedecido, o que lhe restará? É preciso, pois, evitar o confronto.
Suspender a constituição num estado de emergência e dar um golpe é fácil. Desembaraçar os nós num país já profundamente instável é um bocado difícil.
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Há algum país realmente estável no globo? Todos parecem estar sempre à beira da hecatombe.
Rachel, realmente não existe país estável no mundo. Aliás, a própria existência de países e suas fronteiras demonstra a instabilidade permanente do mundo. Enquanto houver interesses econômicos distintos e alianças espúrias, haverá instabilidade. Os conflitos no Paquistão são a herança da própria criação do país, surgido (artificialmente) em decorrência da independência da India. A India é dividida em castas e , ainda, tem os sikhs como coadjuvantes em seus conflitos internos. O Paquistão está dividido entre fundamentalistas e laicos, basicamente, sem contar a burocracia de Estado, que constitui uma “casta” com objetivos próprios, equidistante do conflito principal paquistanês. Não é surpresa a facilidade com que Benazir Bhutto se oferece para uma composição com Musharraf. Seu pai ,Zulfikar Ali Bhutto foi executado como parte dessas disputas pelo ditador Zia Ul Haq e a família Bhutto é latifundiária no sul do país, região onde predominam relações de tipo feudal. Para essa família, interessa manter as coisas como estão, ou seja, sob conflitos insolúveis, para montar esquemas de submissão política que se assemelham, em muito, ao populismo. Benazir e Pervez são da mesma face laica da moeda paquistanesa. O complicador extra, para Musharraf, é sua aliança (e dependência) com Bush. O golpe é a tentativa desesperada de manter sob controle um país que, antes de conflitos políticos, é retalhado pela miséria.
“Depois de as coisas irem de mal a pior, o ciclo se repete”.
Well, não existem países 100% estáveis, mas 99% das pessoas, incluindo os paquistaneses, provavelmente preferiria morar em Paris do que em Islamabad.
Claro, até eu preferiria morar em Paris. Mesmo a Paris com os carros queimados e a baderna de uns tempos atrás.
Paris é sempre Paris.
“Aliás, a própria existência de países e suas fronteiras demonstra a instabilidade permanente do mundo. ”
???????? cuma?
“Enquanto houver interesses econômicos distintos e alianças espúrias, haverá instabilidade”
?????? cuma?
entao, pelo visto, a estabilidade entres os paises so sera alcancada quando o mundo acabar…
eh isso?
nada será como antes,
Muito bom texto! Trouxe dados que eu não sabia sobre Benazir, por exemplo. E, até prova em contrário, acho que a sua análise está bastante precisa.
Com mais essa encrenca explodindo numa ditadura amiga, chego quase a ter uma certa piedade do George Walker. Abriu uma Caixa de Pandora, tsc, tsc..:(
O Musharraf está realmente numa sinuca de bico.
Se mantiver a repressão (e até ampliá-la) pode encarar uma revolta popular, que uniria a oposição laica e os grupos fundamentalistas.
Se resolver retroagir e encaminhar o país para eleições minimamente livres, corre o risco de virar alvo dos setores mais duros dos militares, especialmente dos serviços secretos. No caso, alvo pra assassinato mesmo.
Tão importante quanto à posição dos EUA nessa confusão, é preciso reparar qual será a posição da Índia. O governo indiano deve estar pisando em ovos, com medo de que qualquer ato seu seja mal interpretado pelas forças políticas no Paquistão, e aí é que a porca torceria mesmo o rabo …
Para quem se interessar eis o link para a cobertura da crise pelo jornal indiano The Times of India:
http://timesofindia.indiatimes.com/specialcoverage/2057708.cms
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
so rindo mesmo….
Alba
eu tenho aqui comigo umas redacoes que eu fazia quando cursava a 4 serie ginasial
os textos tem la uns raciocinios meio obvios, eh cheio de cliches e o lugar comum toma conta das minhas historias…
deveras gostar….
Abstrato,
Fico encantada em aceitar a sua oferta. Pensei que só escrevesse por aqui pra achincalhar um ou outro. Que tenha produzido raciocínios, mesmo clichês, é ótima notícia! :)
Desconfio de quem ri em “kkkkk” e “rsrsrs”.
Que elegância, Albíssima
sim, sim…eu sou bom nesse negocio de raciocinio…so me da “raiveira” eh de nao ter pensado antes que a culpa pela instabilidade no mundo, eh da existencia dos paises…
droga!
kkkkkk nao eh rir…eh gargalhar ;)
abstrato, não é preciso acabar o mundo para alcançar a estabilidade ; as fronteiras (e os países) são o resultado histórico de lutas permanentes que estão, de certo modo, longe de acabar ; a humanidade é bem anterior à exis tência de países ; o que se vê, atualmente, é um quase retorno às cidades-estado do passado, com países se fracionando em regiões dispersas e autônomas ; a quebra da Iugoslavia e as lutas na Chechênia são exemplos, assim como as lutas dos curdos, que se espalham pela Turquia, Irã e Iraque ; a África, que ainda tem componentes tribais e étnicos, está sempre a um passo de implodir em pequenos territórios ; aqui perto, a Bolívia tem problemas semelhantes, com a província de Santa Cruz visando o separatismo devido à sua superioridade econômica ; o Brasil tem relativo equilíbrio territorial, apesar do tamanho, graças a uma certa homogeneidade cultural, mas mantém terrível disparidade econômica entre as regiões, o que é caldo de cultura permanente aberto ao separatismo ; os USA têm latente a ameaça da divisão, assim como o Canadá, “dividido” pelas porções francesa e inglesa ; o estranho, abstrato, é o mundo não ter acabado justamente pela divisão entre países; quando as fronteiras forem abolidas haverá menos conflitos , mais mundo e mais humanidade. Alba, obrigado pelas palavras.
Tia, beijo! :)
Abstrato, o que o nunca será como antes escreveu, salvo engano, é que os países e fronteiras mudaram ao longo da História. Basta folhear um Atlas Histórico que se vê isso, sem problemas.
Agora, países mais estáveis, que conseguiram permanecer por mais tempo, estabeleceram suas fronteiras, mesmo que tenham custado guerras, de forma negociada com seus vizinhos.
Um dos maiores problemas do Oriente Médio, e é mesmo um clichê, mas clichê que tem consequências, é que lá, como em boa parte da África, as fronteiras foram traçadas artificialmente, às vezes com base nos paralelos e meridianos, pelas nações que dominavam o pedaço logo depois da Primeira Guerra e do fim do Império Otomano.
Pois é, e essa artificialidade tem um custo, que tem sido alto à beça, convenhamos. :(
Nada será como antes,
Estávamos digitando ao mesmo tempo, ao que parece. É isso mesmo. A questão territorial é tema de conflito permanente em várias partes do mundo, incluisive por estas plagas. :)
Alba, pelo visto estamos em sintonia perfeita. É isso mesmo, mesmo.
quando as fronteiras forem abolidas haverá menos conflitos , mais mundo e mais humanidade.
Ah ah ah!
Não sei porque, lembrei daquela música do John Lennon agora…
Com fronteiras ou sem fronteiras, sempre haverá conflitos entre povos e pessoas, acostumem-se. “Mais mundo e mais humanidade”? Deus nos livre, já tem o suficiente…
” a humanidade é bem anterior à existência de países”
olha, eu vou encerrar minha participacao agora pois daqui ha pouco voces irao me falar que o papai noel nao existe e eu posso ter um treco…
nao aguento tantas revelacoes bombasticas num unico dia…
deem menos importancia aos meus achincalhes e debatam ai o tema proposto pelo PD, que ao que me parece, voces dominam…
voces e a wikipedia…
abs o/
PD, esse teu blog ta de rolar de rir..desculpa ai cara…ahaha
sintonia perfeita, foi foda! (nao da pra substituir por outra palavra, sorry…)
inte mais o/
Mr X, suas duas últimas frases explicam perfeitamente as motivações e os conflitos. É esse tipo de “pensamento” que fomenta as disputas imundas que atormentam a humanidade.
“É isso mesmo, mesmo”
rolou ate um sanduiche-iche….kkkkkkkkk
nada será como antes
amigo (a)…agora falando serio, com todo o respeito…de que lugar voce veio?
nao da pra levar a serio coisas como “disputas imundas que atormentam a humanidade”
slow down man…
“Imagine there´s no countries
It´s easy if you try…
Imagine there´s no Heaven…”
Efetivamente, está havendo uma desintegração dos atuais Estados-Nação em unidades menores, de caráter étnico ou religioso. O que significa o contrário, na verdade, do que o fim das fronteiras: há sim cada vez mais países, menores. É um paradoxo curioso, por mais que avançam os organismos supra-nacionais (União Européia, etc), mais avançam os nacionalismos ressentidos. Até uma parte da Bélgica quer se separar…
De qualquer modo, não vejo com bons olhos esse movimento internacionalista que busca eliminar as fronteiras e as diferenças entre as nações. Toda utopia é perigosa, há sempre por trás algum esperto que ganha muito dinheiro e poder.
abstrato, já que você gosta de fazer comédia , experimente ler Henri Bergson e, ao menos, aprenda a fazê-la ; meus comentários tratam de assuntos sérios com respeito e sobriedade ; não discuto com mentalidades adolescentes.
Era só o que faltava, agora eu é que tenho a culpa pelas “disputas imundas” que atormentam a humanidade… :-(
Mr. X,
A Bélgica está é sem governo desde as eleições de junho, e tudo bem…
Quem sabe esse é o segredo.
Não tenho maiores informações, mas mais uma vez vejo o Bush e nosso império metido em uma desarrumação, desestabilização ou o que quer que chamemos a situação do Afeganistão, do Iraque, do Irã e agora mais essa do Paquistão.
Lendo os comentários sobre haver ou não estabilidade em países, me lembrei da Pax Romana. Sim, os caras estabeleceram dois séculos de estabilidade. Se é que temos um império, e temos, não deixo de querer que ele seja menos cagalhofante do que esse que ta aí na caricatura do Baby Bush. Não vejo a hora do Bushinho voltar pra sua fazenda no Texas, se agarrar numa garrafa de Jack Deniels e parar de encher o saco. Um incompetende desses incomoda muita gente.
Pax,
Mas o Paquistão nunca primou pela mais leve sombra de estabilidade.
Lembra do racha da parte oriental do país — Bangladesh — lá pelo início dos 1970?
Foi uma matança e tanto. Gente morrendo de guerra e de fome. George Harrison fazendo concerto tentando arrecadar grana pra alimentos (e se desapontando ao saber que boa parte da grana arrecadada se esvaiu pelo ralo da corrupção…).
Isso sem contar com os “pegas” internos que eles têm por lá, e que o “nada será…” já comentou.
Alba,
Seu comentário 12 combina ironia e elegância na dose certa.
Já falei que te amo?
Elias,
Puxa vida, depois dessa, sei lá, entende? Mas encantada, por supuesto! :)
nada será como antes,
Certamente, haverá evolução nos sistemas econômicos, políticos, sociais e por aí vai. Mas evoluir abolindo fronteiras é um tanto utópico. Talvez, daqui a mil anos, depois de tanto nos estreparmos em guerras, destruições e dilacerações, num momento de reconstrução da vida do planeta, pode acontecer. Aí sim poderá haver irmandade. Até que o ciclo recomece.
Éd Lascar que amava Pax que amava Confetti que amava Cabral que amava Nat que amava Mosores que amava Alba que amava Elias que amava Urubu que amava Direitoba que amava Éd Lascar que amava Pax que amava Chesterton que não amava ninguém… :-D
E ninguém me ama, ninguém me quer? :’-(
Rachel,
Vc deconfia de quem ri kkkk ou rsrsrs???
Eu desconfio de quem desconfia dos outros tanto assim.
jajajajaja
(minha risada em espanhol, não vai desconfiar de mim né?)
Só por curiosidade, pra vc como seria a risada perfeita no mundo virtual???
Boa noite,
Eu ia dizer alguma coisa mordaz e didática sobre o paquistão. Mas aos 97 anos, esqueci por completo.
Só sei que esta Rachel mexe com os meus instintos, quase centenarios, mais primitvos.
É triste, mas talvez inevitável, ver paises que são quimeras artificiais criadas pelo imperialismo britânico se esfacelarem.
Pobre Belgica ;-)
O NaSCA fala bonito! Só não fala coisa com coisa!
Ahahahah…..
Viajandão!
:o)
Êi, Rachel! (Como entona o Brancaleone: Rêi-Tchel) E ahahahah…tudo bem?!
Eu levei uns 5 anos na net para poder dar risada assim.
:o)
mrcoiso, moi je t’aime !
alias posso me gabar de ter inaugurado o “ja disse que te amo” no blog..tem tempo, foi pra josua a primeira vez, ele ficou cabreiro pq pensava que confetti fosse masculino ! :)
alias amo todo mundo aqui, senao nao sentiria saudades e nao viria todo dia nessa merda falar bobagens e me sentir parte dessa comunidade invisivel, tao real !
pd, ja disse que te amo, nao disse ?
:-D
http://www.youtube.com/watch?v=pfNbPQm-ogs
Elias, pois sim, claro, você tem toda razão, aquilo é uma zorra explosiva. Mas insisto no meu ponto, nos tempos de Pax Romana, papai Roma fazia a Pax em todos seus rebentos. Os mais levados tomavam cascudos.
E estradas pra colher os tributos. Saca? Lembra?
off: confetti, depois de alguns bons minutos vi o teu youtube. Antes que o carioca dê xilique, esse cara sabe mexer com o povo mesmo. Impressionante. Ficou um charme em francês, o povo adorou não? Onde é o Zenith?
pax, o zenith fica ao norte de paris, no meio do parque de la villette e é a sala de concertos mais importante da cidade ! rola de tudo la, inclusive meetings politicos, raves e tal ….vivo socada la, tenho total free backstage pass :)
http://fr.structurae.de/photos/index.cfm?JS=24364
Pax , a PAX ROMANA conseguiu estabilizar o império, mas não suprimiu os conflitos, que foram permanentes. Não existiu nenhum canto do império romano sem coflitos com o poder central. A noção de PAX é muito mais complexa e não significa PAZ .
Confetti, doce confetti, o carioca dará xilique mas vamos lá. Conheci no Parque de La Villete o Hot Bras, acho que deve ter fechado. Rolavam bons shows lá também. Não muito grande, papo para 200 a 300 pessoas. A Varig bancava alguns desses shows, lá pelos idos de 94, 95. Esse lugar é lindo, altos gramados, gostoso de ir. Você agora me deixou com muitas saudades. Tanto de Paris quando do Itamar Assumpção com quem andei por lá. O Negão agora anda lá em cima, atazanando os anjos.
nada será como antes
Sim, claro, mas foram dois séculos de império. A questão é mais complexa que paz, claro.
Putz, vou mudar de operadora, da claro pra vivo, ou tim, ou oi. Esses claros que tanto coloco nos meus textos encheram o meu saco. Imagino o de vocês. Claro.
benazir ta organizando uma “manifestaçao pacifica” entre lahore e islamabad pra terça que vem….alias nesse mesmo dia, a ratp parisiense organiza outra greve de transporte na cidade ! grrrr
Valeu a pena dar uma passadinha só para rir das bobagens que vocês escrevem. Coitados.
benazir em “prisao domiciliar”….nao vai poder fazer a passeata de lahore à islamabad na terça…..isso vai acabar mal ! quanto à mim vou ter que encarar greve geral na terça….ratp fdp