Pedro Doria | Weblog

um pouco do mundo, todos os dias

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Publicado em November 2007

A guerra entre Brasil e Venezuela

30/November/2007 · 123 Comentários

Já ouvi, de general de quatro estrelas, que há um detalhe logístico importante e tranquilizador em relação a Chávez e à imaginada ameaça dele contra o Brasil. Em uma hora, um avião-caça na fronteira com o Brasil alcança Caracas, e pode fazer um bom estrago na capital venezuelana antes de ser intrerceptado. Em uma hora, um avião venezuelano que invada o Brasil chega, no máximo, a Manaus. Onde está o parque industrial da Zona Franca que, hoje, é um dos principais fornecediores de celulares e equipamentos domésticos à Venezuela.

O Sergio Leo conta o resto.

Tags: América Latina · Brasil

Proer à americana & o insustentável dólar

30/November/2007 · 65 Comentários

Muitos norte-americanos de baixa renda adquiriram empréstimos para a compra de moradia – muitos, neste caso, são muitos mesmo, uma quantidade atordoante – durante os anos 1990. A avaliação destes empréstimos foi mal feita e honrá-los parece impossível: é a bolha imobiliária norte-americana.

Agora ficou claro, na calada da noite, o Fed, banco central dos EUA, deu à financeira Countrywide um belíssimo empréstimo – 51 bilhões de dólares – para salvá-la da falência. O argumento é que trata-se de uma empresa de capital aberto e, se quebrar, o prejuízo estará nas mãos de milhões de pequenos acionistas. (O norte-americano médio costuma investir na Bolsa o dinheiro da aposentadoria.). É um Proer à americana.

Em casos nos quais uma quantidade enorme de dinheiro público é necessária para salvar uma instituição insolvente, a penalidade justa para os acionistas é limpar suas ações e promover uma tomada de comando pública – isto mesmo, uma nacionalização do banco. Tal nacionalização deve ser temporária, apenas para limpar a bagunça, deve servir para se livrar dos sócios e gerentes incompetentes, reestruturar o banco e então revendê-lo para o setor público. Capitalismo sem punição para empréstimos mal feitos traz a peste à tona.

Quem fala é Nouriel Roubini, o blogueiro de origem turca responsável pelo Departamento de Economia e Negócios da Universidade de Nova York. A crise no mercado imobiliário dos EUA faz desconfiar da segurança do dólar – e o valor da moeda norte-americana começa a se distanciar do valor do euro. Não é a única coisa que faz derrubar o dólar. A economia norte-americana está em baixa, diz a Economist, que dedica a capa de sua edição desta quinta-feira ao assunto. E o Fed continua a cortar os juros. A economia dos EUA desce, a do resto do mundo sobe. E esta divergência pode provocar uma recessão interna.

Daí, um perigo: economias emergentes – o Brasil dentre elas – têm grandes reservas em dólar. Isso vale particularmente para a China. Se estes países, preocupados com a desvalorização de seu capital armazenado, vão ao mercado trocar os papéis em dólar por outros, a enxurrada de verdinhas a venda empurrará ainda mais para baixo o valor da moeda norte-americana. Não são apenas os EUA que sofreriam com uma operação destas. Todo mundo tem dólar embaixo do colchão. A virada brusca para uma outra moeda base na economia mundial – digamos, o euro – jogaria o mundo numa recessão.

A receita sugerida pela Economist? Que os bancos centrais do mundo agüentem o tranco. Sem pânico, deixando os dólares bem guardados, espera-se que os EUA levantem-se novamente.

Um Clinton, diga-se, já se mostrou capaz de resolver a bagunça econômica que os republicanos provocaram. (Em sua autobiografia, Bill Clinton comenta o ódio que sentia, ao ouvir falar nostalgicamente da ‘economia nos tempos de Reagan’, por ter de lidar com as conseqüências.)

Mas o Clinton de 1992 não tinha o que Hillary – ou Obama, ou Edwards ou algum possível vencedor republicano – terão de lidar em 2009. Bill Clinton não tinha que sustentar duas guerras no exterior e fazer, simultaneamente, os investimentos adiados porém necessários para combater o aquecimento global e substituir a dependência do país por petróleo. O próximo presidente terá o déficit George W. Bush – como Bill teve o déficit Reagan-Bush – e dificilmente terá um boom da indústria de tecnologia que puxou para frente, e à toda, a economia da Califórnia e, consigo, dos EUA.

Ainda assim, os EUA sempre se provaram, ao longo do século 20, uma máquina insuperável de produção de riquezas. Por enquanto, não há porque achar que deixarão de ser.

Tags: China · EUA · Mundo

War, versão Rio

30/November/2007 · 60 Comentários

War in Rio

Rio de Janeiro, dezembro de 2007.

Depois de décadas de abandono e desprezo por parte das autoridades, a cidade do Rio de Janeiro finalmente encontra-se em guerra. Enquanto os políticos discursam para uma classe média desinteressada, esquadrões de extermínio, grupos paramilitares, policiais e narcotraficantes disputam o controle da capital.

O cenário disfarça, mas a realidade não engana. Entrecortada por montanhas, florestas e lindas praias tropicais, o couro come nas ruas da cidade. Em alguma esquina do centro, na favela ou nas ruas do bairro, sorrateiramente o dinheiro troca de mão e a arma troca de lado.

Nesse tabuleiro sem regras é preciso sorte: War in Rio.

Dica do Vitor Conceição

Tags: Brasil · Pop

Evo Morales, a constituição da Bolívia
e uma oportunidade perdida

29/November/2007 · 110 Comentários

Que ninguém se engane: Evo Morales tem razão quando diz que a injustiça social impera na Bolívia. Os índios são pobres e os brancos estão, ao menos, na classe média. Os índios concentram-se nos estados do oeste do país e os brancos, no leste. A concentração de renda boliviana, imposta por anos de ditaduras e de governos corruptos e incompetentes, é traçada por linhas raciais e geográficas – o que produz, neste caso, uma concentração de renda canalha.

Mas as razões de Morales terminam aí.

É o gás sustenta a Bolívia – e este é um problema. No caso venezuelano, o petróleo é abundante e o litoral, extenso. Petróleo, retirado da terra ou do fundo do mar, põe-se num navio e despacha-se para qualquer canto do mundo. Com gás não é assim e a Bolívia não tem litoral. Gás precisa ser liquefeito para o transporte naval – o que é um processo muito caro. O que sobra para a Bolívia é vender este gás para Brasil, Chile e Argentina. Se for para enviá-lo para além mar, precisará da cooperação de um destes três – que têm mar. E ninguém tem usina de liquefação. Brasil e Chile têm mar e, no mar, gás. Em poucos anos, ambos produzirão gás o suficiente para seu sustento. Já estão a caminho disto: é que não dá para confiar na Bolívia. Sobra a Argentina como cliente. Por conta de sua instabilidade política, o que a Bolívia tem perante si é este cenário: em cinco anos só terá um cliente para o único produto que a sustenta.

Governar é uma arte distinta de fazer campanha. Palavras de ordem e bravatas elegem mas não ajudam nada na hora de governar. Democracia não é apenas eleição, democracia é processo – um processo que inclui respeito à oposição. Parlamento não é órgão periférico, é um poder equivalente e distinto do Executivo que precisa de toda a liberdade para operar livremente.

Evo Morales não compreendeu nenhum dos três conceitos.

Ao assumir o governo achando que estava em campanha, invadiu refinarias, cortou fornecimento de gás, fez o diabo e o povo que o elegeu adorou. O Brasil entendeu o recado com clareza. Abriu um sorriso, fez um discurso manso, contemporizador – e tratou de investir nas suas próprias reservas. Morales sacrificou o futuro de seu país.

Ele foi eleito, por certo – mas quase metade dos eleitores votaram noutros. Morales é presidente de todos os bolivianos, mas governa apenas para a metade que o elegeu. É um erro, principalmente quando a minoria representa quase metade do país. É o mesmo erro cometido, durante anos, pelos governos anteriores. Mas o resultado é que ele é um presidente que estimula a divisão, não a união, do país. Não é apenas inabilidade. É também burrice. Governar sem estabilidade ou sem dinheiro é uma arte difícil. Sem ambos, é impossível.

Ele produziu a constituição revolucionária que havia prometido. Meteu o parlamento num quartel do exército, longe da capital La Paz, e decidiu votar a nova Carta Magna na marra. Constituição é um documento ao qual se chega por consenso. Constituição imposta, ainda mais numa sala cercada pelo exército, com quase metade do parlamento tendo se recusado a votar, pode até vingar – mas não dura muito. Este é o método das ditaduras, não das democracias.

Evo Morales tenta aplicar o método Hugo Chávez. Mas há uma diferença: petróleo, põe-se no navio e manda; gás, não. Petróleo, mais de metade do mundo precisa; gás, quase todos os vizinhos da Bolívia têm.

É verdade que a Bolívia tem uma dívida histórica para com seus índios – e que hora de pagá-la. O problema é que, para pagar tal dívida, é preciso governo. O que Evo faz não é governar, é jogar fora a oportunidade que os bolivianos nativos, depois de tantos séculos, enfim conquistaram.

Tags: América Latina

Este Weblog quer ouvir você

29/November/2007 · 106 Comentários

Este Weblog é visitado diariamente por pouco mais de 3.000 pessoas. Nos últimos 30 dias, os leitores vieram de 97 países diferentes. Por ordem de números de acesso, descontando-se o Brasil:

EUA
Portugal
França
Reino Unido
Japão
Espanha
Argentina
Alemanha
Canadá

Há, ainda, visitantes freqüentes oriundos de Israel, de Moçambique, da China, África do Sul, Noruega. Uma mesma pessoa esteve no Weblog 16 vezes em dias diferentes entre 28 de outubro e 27 de novembro vinda do Irã.

Vocês têm algo a dizer sobre o país em que vivem? Todos aqui nos interessamos pelo mundo e este Weblog gostaria de publicar aquilo que você sabe e a maioria de nós, que vivemos cá no Brasil, não sabemos.

Como vêem o resto do mundo aí no país onde você vive? Qual o maior problema que seu país atravessa? Como são as festas populares? Seus vizinhos são pessoas tolerantes aos costumes dos outros? Ou são intolerantes? Você tem liberdade para dizer o que pensa? Há muitos imigrantes? Quantas línguas são faladas em seu bairro? O que se come e o que se bebe? Qual a bebida alcoólica preferida? Qual a religião que se professa por aí? Qual o papel que a religião tem na vida pública? Quão atuante é o governo? Qual o regime de governo? Quais jornais e revistas você lê e o que acha delas? O que há na televisão: tevês de todo mundo ou apenas as locais? Que tal o acesso à Internet? Qual o nível cultural e educacional? O que estudam seus filhos na escola? E como vão à escola? Como – e onde – namoram os jovens? Como se casam? As mulheres trabalham? Em que você trabalha? Há ciência? Gays circulam com liberdade? Há campanha para controle de Aids? Qual a moda das ruas? O que vestem homens e mulheres? O que impera: a direita ou a esquerda? Ou se dividem?

Quando você fala com a família que talvez viva no Brasil, que história costuma contar para dar idéia de como é o país em que vive?

O pôr do Sol é bonito?

As perguntas acima são pistas do que pode interessar – mas não é um guia obrigatório. E também não importa se você é brasileiro ou se é português, moçambicano, angolano. Falamos todos português. Conte-nos de seu país, seja ele destino turístico freqüente ou um lugar esquecido no mapa. Escreva em primeira pessoa.

Mas não ponha este depoimento nos comentários. Vamos dar um trato nobre a ele.

Todos os depoimentos serão publicados. Podem ser assinados como vocês quiserem – ou podem permanecer anônimos. No Brasil, nenhuma lei ou polícia obriga um jornalista a revelar suas fontes, então pode falar à vontade que o anonimato – quando for pedido – será preservado. Se alguém quiser incluir na assinatura o link para um blog ou site pessoal, não haverá problemas.

A proposta é a seguinte: gaste um tempo escrevendo e, quando puder, envie por email para pd@pedrodoria.com.br

Vou pegar o texto e editá-lo. Dar uma arrumada onde for preciso – jamais alterar o conteúdo, mas dar ritmo para uma leitura agradável. Aí envio de volta. Você sugere alterações, chegamos a um acordo e, apenas perante sua autorização, publico. Nunca publicarei mais que um depoimento destes por dia. É uma experiência. O que me dizem?

Atualização – Me perguntam sobre regiões do Brasil, se também vale. Claro que vale.

Tags: Administrativas · Mundo

Uma estante às quintas

29/November/2007 · 8 Comentários

Batcave Bookshelf

(Vem com instruções de como fazer.)

Tags: Estantes

Como é ser de esquerda nos EUA

28/November/2007 · 129 Comentários

No Brasil, ou na França, ou na Alemanha – ou em boa parte do mundo ocidental, ser chamado de alguém ‘de direita’ pega mal. É verdade que aqui e ali começa a ter gente se declarando de direita com orgulho, mas ainda não é comum.

Nos EUA, funciona diferente. Ser um liberal, ser de ‘esquerda’, é que pega mal. Uma das coisas que a esquerda norte-americana faz para lidar com o problema é mudar a palavra. Sai liberal, entra progressive. E a ong de esquerda Center for American Progress quer promover com uma série de propagandas a idéia de que ser progressista é bom e um bocado americano.

Este comercial é um dos dois (há outro) parodiando a campanha da Apple com o sujeito Mac e o sujeito PC, e coitado do PC nos filmes da Apple, era sempre tão, bem, Windows. Incapaz. Neste caso, apresentam-se o senhor Conservador e o senhor Progressista.

Outro filme é mais ousado: toca ao fundo America the Beautiful, uma famosa música patriótica mais típica de um comercial de Ronald Reagan do que algo de esquerda:

Em todos os filmes o mote é o mesmo. Quando a esquerda era a favor do voto para mulheres, os conservadores eram contra; quando ela era a favor do New Deal de Franklin Roosevelt, eles eram contra; a esquerda foi pró-direitos civis que, enfim, terminou com a segregação racial nos anos 1960. Os conservadores? Contra. Hoje, a esquerda é a favor de um sistema de saúde universal – os conservadores são contra.

É comum, ao discutir política norte-americana, dizer-se que lá não há esquerda e que mesmo o Partido Democrata tende um tanto à direita. Não é verdade – jamais foi. Fica apenas essa impressão de um tempo em que o mundo esteve polarizado por uma Guerra Fria. Um tempo, aliás, que já devia ter sido enterrado.

Tags: EUA · TV

Open thread

28/November/2007 · 183 Comentários

O beautiful, for spacious skies,
For amber waves of grain,
For purple mountain majesties
Above the fruited plain!
America! America! God shed His grace on thee,
And crown thy good with brotherhood, from sea to shining sea.

Tags: Open thread

Como ser o Papai Noel de alguém

28/November/2007 · 38 Comentários

Do Paulo, apagado dos comentários, trazido para cá:

Pedro, desculpa a intromissão mas como o natal está chegando…

Que tal ser Papai Noel por uma vez?

Todos os anos, milhares de crianças carentes escrevem para o Papai Noel. Essas cartinhas ficam nas agencias dos correios esperando por alguém que queira fazer uma boa ação. Se você quer participar, entre no site dos Correios e clique em Ação Papai Noel. Lá tem todas as informações.

Na vida temos três fases:

- a primeira, quando acreditamos em Papai Noel
- a segunda, quando deixamos de acreditar
- a terceira, quando somos o Papai Noel.

como diria o Josef Mario, muito obrigado.

Tags: Brasil · Pop

Bento 16 e Mahmoud Ahmadinejad, seu amigo

28/November/2007 · 20 Comentários

O Irã tem um parceiro inesperado em seu conflito aberto com os EUA: o papa Bento 16. Informa a Time:

Por enquanto, o papa segue discreto. Durante sua visita à Áustria em setembro, ele evitou a questão nuclear iraniana num discurso chave aos diplomatas em Viena, sede da Agência Internacional de Energia Atômica. Apesar de o Vaticano estar preocupado com o desenvolvimento de armas nucleares por parte do Irã, o pontífice prefere pessoal e doutrinariamente que se chegue a um acordo negociado, não importa o custo. Em 2003, quando era um cardeal sênior, o atual papa esteve ao lado de João Paulo 2o em sua oposição à invasão norte-americana ao Iraque. Muitos em Roma citam paralelos entre a atual pressão da linha dura dos EUA pelo confronto contra o Irã e o movimento que aconteceu antes da guerra contra o Iraque. ‘A Santa Sé não esqueceu do que aconteceu com o Iraque’, diz uma fonte muito próxima ao Vaticano. ‘Vendo como a situação se desenvolveu naquela época, a Santa Sé está agindo com extrema prudência.’

A relação entre Irã e Roma é íntima. Na Santa Sé, a delegação diplomática persa é a segunda maior – perde para a da Republica Dominicana. Não é uma relação nova: ela data de vários séculos, de muito antes da chegada dos ingleses à Nova Inglaterra. E é contínua há várias décadas, sem ter sido interrompida um único dia pela Revolução Islâmica. Na verdade, persas xiitas e católicos romanos compreendem-se com surpreendente proximidade.

Embora a população cristã seja muito pequena no Irã, o país é visto pelo Vaticano como um jogador fundamental nas relações inter-religiosas. Especialistas descrevem o Catolicismo e o Islã Xiita como tendo uma estrutura muito similar. ‘O que existe no Irã é uma tradição acadêmica muito forte, com aspectos tanto filosóficos quanto místicos – de muitas formas parecido com o catolicismo, diz o padre Daniel Madigan, um estudioso jesuíta do Islã que participa da comissão para relações com o Islã do Vaticano e ajudou a marcar uma visita recente do ex-presidente iraniano Mohammed Khatami ao papa. Também há uma hierarquia clerical no xiismo que não existe em outras vertentes do Islã. Madigan observa que os iranianos estudam outras culturas e religiões há muito tempo. ‘Eles entendem o ocidente’, ele diz. ‘Hoje, estão isolados por conta de sanções, mas eles realmente querem interagir com o mundo.’ Roma é um lugar no qual esta relação já começou.

O papa não se manifestará por enquanto. Virá à frente se pressentir que os planos de invasão são concretos. Antes, enquanto a tensão entre Irã e EUA cresce, Sua Santidade espera que ao menos uma coisa seja diferente de como foi nos momentos anteriores à invasão do Iraque. Ele gostaria que padres, bispos e cardeais norte-americanos se manifestassem contra uma nova guerra.

Tags: EUA · Igreja Católica · Irã · Islã

Europa tem perfil do terrorista típico

27/November/2007 · 114 Comentários

O braço europeu da Interpol tem um estudo novo que traça o perfil dos terroristas islâmicos. É um bocado complexo e não facilita muito. São muçulmanos, evidentemente, descendentes de migrantes do norte da África, Oriente Médio ou Ásia Central. O previsível termina aí. Podem ser jovens ou poder ser velhos, têm formação universitária ou não. O que talvez surpreenda: não costumam parecer descolados da sociedade européia. Ao contrário: o que parece é que estão entre os que se integraram e que vivem bem.

São religiosos – o que é evidente. Mas nem todo fundamentalista vira terrorista. É uma minoria, na verdade. O fundamentalismo os leva para a Internet e, na rede, descobrem os sites jihadistas. Em algum momento, convencem-se de que há um grande mundo muçulmano que ignora fronteiras nacionais – e que parte deste mundo, caso da Espanha, deve ser recuperado por ter sido perdido. Não vêem o grande califado islâmico como algo distante no passado, convencem-se de que é um imperativo histórico.

Às vezes, através dos sites jihadistas, encontram-se com outros com idéias semelhantes. O grupo é fundamental. O grupo reforça suas convicções e lhes oferece a identidade. Sentem-se à vontade apenas no pequeno grupo de indivíduos com quem dividem tais convicções rejeitadas, inclusive, por pais, por familiares, por amigos da mesquita. Sentem que são eles mesmos apenas quando no pequeno grupo de radicais.

Mas para que este grupo transforme-se numa célula terrorista falta ainda um passo: um deles faz uma visita a um país muçulmano – pode ser o Afeganistão, o Paquistão, o Iraque; é algum lugar onde encontram-se com terroristas de fato e treinam. Ao retornar para a Itália ou Inglaterra, Espanha ou França, este indivíduo, ainda que mal treinado, será o líder que planejará alguma ataque. Só quando todos estes elementos se encaixam acontece de uma célula terrorista potencialmente perigosa formar-se.

E é assim que os sistemas de inteligência descobrem terroristas potenciais. Observam as mesquitas e vêem quem costuma andar em grupos fechados. Sonda suas fichas, busca saber se alguém viajou ao exterior e para onde foi, se informa a respeito do tipo de discurso que os indivíduos costumam fazer. Quando elementos desta formação de identidade começam a se mostrar nítidos, é a hora de apelar para escutas telefônicas. E, assim, muitos atentados foram evitados.

Tags: Europa · Islã · Oriente Médio · Terror · África · Ásia Central

Todas as moças da Playboy americana

27/November/2007 · 29 Comentários

Cada um dos pôsteres centrais, da Marilyn Monroe de dezembro de 1953 a Stephanie Glasson, em julho de 2004.

Tags: Mídia · Sexo

Hillary Clinton perderia para Republicanos

27/November/2007 · 44 Comentários

Saiu uma nova pesquisa do Instituto Zogby: Hillary Clinton perderia para seus adversários republicanos numa disputa hipotética à Casa Branca.

Para John MacCain, o resultado seria de 42% contra 38%; para Mike Huckabee, seria 44% contra 39%; para Fred Thompson, 44% contra 40%. Os únicos candidatos com quem Hillary estaria ao menos num empate técnico embora tênue, dentro da margem de erro, são Rudolph Giuliani e Mitt Romney, com 43% contra 40%.

É uma pesquisa que, se confirmada por outras, se mostrará fatal para sua candidatura. Por enquanto, o Gallup diz que ela vence.

Os comentaristas políticos estão lendo uma segunda coisa noutras pesquisas. Os norte-americanos querem mudança, não experiência. Estes conceitos são importantes pelo seguinte. Se eles considerassem a situação tão difícil que fosse necessário alguém muito experiente para governar o país, aí escolheriam Hillary, que baseia toda sua campanha nesta idéia: oito anos na Casa Branca, oito anos no Senado.

Mas, se querem mudança, algo diferente, Hillary não é mudança: Hillary é uma candidata da geração do Baby Boom, é a encarnação do debate dos anos 1960 que divide o país. Feminista, anti-guerra do Vietnã, pró-aborto, por aí vai. Bush também representa este debate – só que do outro lado. Quando ele deixar a Casa Branca, fará 16 anos que esta geração está no comando e que estas questões pautam a agenda política do país. Não é que as questões tenham que ir embora: é apenas que uma figura que não carregue consigo estas questões de forma tão arraigada pode lidar com elas melhor.

Barack Obama é quem melhor encarna esta imagem de mudança, hoje. Não quer dizer que John Edwards – ou um terceiro candidato – não o façam adiante. Mas, se Hillary perde para os republicanos, é por conta desta polarização que ela representa.

Um fato novo pode mudar tudo e tornar Hillary a candidata ideal. Sempre pode. E há tempo ainda. Mas eleitor que participa de eleições primárias vota de olho nas pesquisas. Se elas indicarem que Hillary perde para os republicanos, Hillary Clinton estará fora da disputa e pronto. Basta a dúvida.

Hoje, ela não seria a candidata.

Tags: EUA

Palestina, Israel e Bush:
a paz é possível?

26/November/2007 · 80 Comentários

Preparem-se: George W. Bush está para sair de cena. Ele apareceu no plano nacional norte-americano prometendo união e um ‘conservadorismo compassivo’. Na Casa Branca, mostrou-se um presidente divisivo, polarizante, legítimo representante do conservadorismo cristão mas sem direito ao charme de Ronald Reagan. Quando janeiro chegar, Bush sumirá, ninguém prestará atenção no que ele faz. O que ele fez, no entanto, será o assunto central da discussão eleitoral, enquanto os holofotes se voltam para aqueles que querem ocupar sua cadeira no Salão Oval.

E, enquanto ninguém presta atenção, surge uma imensa oportunidade.

George W. tenta a partir de amanhã fazer o que Bill Clinton quase conseguiu, em 1999. Dedicará seu ano de invisibilidade à paz entre Israel e Palestina. Para ele o caminho será bem mais difícil do que foi para seu predecessor. Mas ele já tem algumas vitórias garantidas. Entre elas, representatividade. Para o encontro de Annapolis, além do premiê Ehud Olmert, de Israel, e Mahmoud Abbas, da Autoridade Palestina, além dos sempre presentes egípcios e jordanianos, estarão também representantes da Liga Árabe e, o que é o melhor sinal, da Síria.

Não é ninguém do primeiro escalão: quem estará em Annapolis é o vice-ministro das Relações Exteriores sírio Faysal Mekdad. Mas sua presença é indício de que Israel concorda em incluir as Colinas de Golã nas discussões. Estar disposto a discutir é um excelente sinal.

A presença da Liga Árabe, sauditas à frente, tem outro motivo. Com o aumento da influência iraniana na região – veja-se o Hezbolá, no Líbano, o Hamas, em Gaza, e vários movimentos no Iraque, além da Bomba que provavelmente está sendo criada – é hora de aceitar Israel. Sim, Israel continua sendo um ótimo inimigo externo para distrair populações oprimidas por ditaduras. Mas quando as principais forças que geram instabilidade na Palestina favorecem o Irã, o jogo muda de figura. Melhor não alimentar.

A discussão não mudou em nada desde que Bill Clinton reuniu Yasser Arafat e Ehud Barak em Camp David. Israel precisa interromper e reverter ao máximo o processo de colonização da Cisjordânia e precisará dividir a autoridade sobre Jerusalém. Ambos os países terão de se contentar com as fronteiras pré-1967. E palestinos terão de abrir mão do direito de retorno.

Essa discussão em Annapolis marcará o compromisso da Liga Árabe com a tentativa de acordo – mas que não se espere um aperto de mãos entre sauditas e israelenses –, a entrada da Síria na história e não muito mais. Se tudo transcorrer bem, talvez 2008 seja um ano promissor.

Talvez.

Apenas talvez porque, por mais que haja vontade de ambas as partes, não dá para esquecer que a Palestina está rachada e que Mahmoud Abbas não a representa. O Hamas controla Gaza e ainda tem, ainda que frágil por conta de sua própria atitude golpista, a legitimidade do voto. De que, afinal, serviria a assinatura de Abbas? Esta não é uma conversa possível sem trazer o Hamas à mesa.

Mas George W. Bush precisa de algo de positivo para garantir sua memória. Está incrivelmente mais difícil, agora, do que esteve em 1999. Não quer dizer que seja impossível.

Tags: EUA · Israel e Palestina

Open thread

26/November/2007 · 294 Comentários

I hear America singing, the varied carols I hear,
Those of mechanics, each one singing his as it should be blithe and strong,
The carpenter singing his as he measures his plank or beam,
The mason singing his as he makes ready for work, or leaves off work,
The boatman singing what belongs to him in his boat, the deckhand
singing on the steamboat deck,

The shoemaker singing as he sits on his bench, the hatter singing as he stands,
The wood-cutter’s song, the ploughboy’s on his way in the morning, or
at noon intermission or at sundown,

The delicious singing of the mother, or of the young wife at work, or of
the girl sewing or washing,

Each singing what belongs to him or her and to none else,
The day what belongs to the day–at night the party of young fellows,
robust, friendly,
Singing with open mouths their strong melodious songs.

Tags: Open thread

O fim das negociações FARC/Chávez

26/November/2007 · 223 Comentários

Há uma guerra de vaidades em curso entre Álvaro Uribe e Hugo Chávez. No sábado, Uribe suspendeu bruscamente a intermediação de Chávez nas negociações pela soltura de reféns das FARCs. A alegação é de que o presidente da Venezuela não estava autorizado a conversar com o general Mario Montoya, chefe das Forças Armadas colombianas. Seu interlocutor no governo deveria ser Uribe e ninguém mais.

Não custa lembrar, a responsabilidade pela existência dos 45 reféns é das FARCs. De ninguém mais.

No entanto, citando o editorial de El Tiempo, da Colômbia:

A reação da Venezuela foi inicialmente cautelosa e, posteriormente, dura. Chávez declarou primeiro sua ‘aceitação’ e ‘frustração’ e logo, na madrugada de sábado, disse que se sentia ‘traído’ e que isto afetaria a relação dos dois países. O presidente francês, Nicolás Sarkozy, junto a seus familiares, pediu a Uribe que reconsiderasse, informou que enviaria uma carta formal e declarou que Chávez ‘é a melhor opção’. No entanto, apesar da indiscrição e teatralidade do mandatário vizinho, não se pode negar que em três meses sua gestão fazia com que as negociações enfim saíssem do ponto morto.

A idéia de que um contato entre Chávez e o generalato colombiano poderia despertar simpatias bolivarianas nos militares colombianos é certamente uma desculpa. Uribe estava incomodado porque perigava Chávez sair protagonista – até mesmo herói – de uma negociação destas, com os reféns a tiracolo.

É possível honestamente questionar as negociações. A partir do momento em que um chefe de Estado senta para dialogar com as FARCs, o status internacional das guerrilhas é elevado. Ganha legitimidade. Não se negocia com seqüestradores, com terroristas, com traficantes, sem efeitos colaterais.

Mas foi negociando que se lidou com o IRA e, um dia, o general israelense Itzaac Rabin apertou as mãos – carrancudamente – de Yasser Arafat. Não tem jeito: é negociando com quem tem o poder de matar e impor sofrimento que se evitam mais mortes, mais sofrimento. Ninguém disse que diplomacia era jogo limpo.

Álvaro Uribe continua com um problema nas mãos – um problema que evidentemente ele não tem condições ou mesmo competência para resolver. Talvez, como sugere o presidente francês, Hugo Chávez fosse o único interlocutor possível. Negociação é, infelizmente, a arte do possível. Se há um custo político? Evidentemente que há. O fortalecimento de Chávez, a legitimação das FARCs. É com esse objetivo mesmo que matam e seqüestram: para ampliar sua influência.

Desistir das negociações para não legitimar não é solução. E o problema continua lá, do mesmo tamanho. Há vidas em jogo. Uribe está brincando com essas vidas.

Tags: América Latina · Europa · Terror

Uma moça às segundas

26/November/2007 · 22 Comentários

Laura Gemser

Tags: Moças

O que os roteiristas de Hollywood têm a dizer

25/November/2007 · 32 Comentários

Desde o início do mês, os roteiristas da tevê e do cinema norte-americanos estão em greve. (Escrevi sobre o assunto no Estadão, semana passada.) A greve paralisou os talk-shows, as séries embora, por enquanto, ainda não tenha atingido Hollywood, que tem scripts arquivados.

O motivo da greve é simples: para os investidores, grandes executivos de mídia anunciam fortunas em lucros angariados pela Internet; para os roteiristas, dizem que não podem dividir um tostão dos ganhos, não há percentual em direitos autorais, porque a rede é incerta. O discurso dúbio que muda conforme o cliente inventou esta greve.

É justamente na Internet que os roteiristas estão fazendo sua campanha. Muitos dos atores e apresentadores de tevê estão – ao menos por enquanto – ao seu lado. O blog Deadline Hollywood tem a série de vídeos da campanha dos roteiristas filmados com grandes estrelas.

Tags: Cinema · EUA · TV

Uma entrevista aos sábados

24/November/2007 · 272 Comentários

Em Abaetetuba, foi a minha perdição. Quando eu bebia, fumava (maconha), e, quando eu tinha dinheiro, comprava roupa, alimentos.

Nunca usei arma na minha vida, só pegava as coisas se (as pessoas) ‘marcassem’ (se distraíssem).

Eles (os presos) me batem toda hora, toda hora, queimaram meu pé com papel higiênico quando eu dormia, tocaram fogo.

Eles diziam ‘Tu vai ficar com fome?’ Aí eu ia com eles. O melhor dia é quinta-feira, porque as mulheres deles vêm e aí eu fico livre.

Uma vez, o B. me levou pro banheiro à força, eu gritei, gritei, mas a gente grita, dá uma raiva porque eles (agentes prisionais) não vão ouvir.

Da adolescente presa no Pará numa cela de homens, localizada pelo repórter Rafael Guedes, de O Liberal

Tags: Brasil · Gente

Open thread de sábado

24/November/2007 · 205 Comentários

Longe dessa grita,
Lá onde mais densa
A noite infinita
Veste a sombra imensa;

Lá, fugido ao mundo,
Sem glória, sem fé,
No perau profundo
E solitário, é

Que soluças tu,
Transido de frio,
Sapo-cururu
Da beira do rio

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