O mundo visto por olhos turcos

Alemanha · EUA · Europa · Iraque · Irã · Islã · Oriente Médio · Terror · 31/10/2007 - 10h56 - 66 Comentários

Não custa fazer um exercício e olhar o mundo como um turco o vê – e é duro ser turco. Há um século, a Turquia comandava um império. Hoje, não sobrou-lhe sequer aquilo que sobrou para os outros poderes imperiais fracassados. A Turquia não é um Reino Unido ou uma França: tem problemas de terceiro mundo.

Mas estas são águas passadas. O presente não é mais simples: há nítidos esforços para estruturar uma democracia e uma economia fortes. Na Alemanha e na França, no entanto, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy fazem o possível para que seu país não entre na União Européia. Desconfiam que você é oriental demais e, isto não dizem com todas as palavras, também que você é muçulmano demais. Enquanto isso, em uma de suas fronteiras mais delicadas, iraquianos ficam matando seus soldados a torto e a direito. Seu principal aliado o que faz a respeito? Os EUA passam semanas discutindo se vão fazer uma reprimenda formal por conta de um genocídio que você cometeu quase um século atrás.

Do ponto de vista turco, o que resta fazer?

Num país no limite entre ocidente e oriente, se o ocidente dá as costas, resta olhar para os vizinhos orientais. Estes são parceiros antigos – milenares, diga-se. Todos por ali já eram grandes civilizações antes de os europeus erguerem sua primeira aldeia. Tradição é isso, o resto é piada. E, por vizinhos entenda-se, Irã e Síria. Se são inimigos dos principais aliados turcos no ocidente? O ocidente não tem ajudado muito – e não faltou esforço da parte turca.

Este movimento em direção ao oriente não começou esta semana, e a Newsweek o mostra. Há dez anos, a Turquia ameaçava invadir a Síria acusando-a de acobertar as operações do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdo que hoje esconde-se no Iraque. De lá para cá, turcos são os maiores empreendedores na Síria, tendo construído o maior estádio de futebol do país e o novo e gigantesco shopping center em Damasco. Quando Israel invadiu o espaço aéreo sírio há uns meses, o governo turco de imediato apresentou seu protesto diplomático. Bashar Assad, o ditador sírio, acaba de voltar da capital turca. Esteve em Ankara para uma visita oficial.

Comoo Irã, um negócio de extração de gás natural por empresas turcas que vale 3,5 bilhões de dólares está quase fechado. O serviço de inteligência persa está colaborando com os turcos na luta contra o terrorismo curdo. A Turquia se recusa a censurar oficialmente o Irã por conta de seus desejos nucleares. Diplomaticamente, limita-se a manter o canal de diálogo aberto numa tentativa de persuadir o governo iraniano a obedecer a ONU. (O que, do ponto de vista estritamente oficial, o Irã faz.)

Hoje, a Turquia está lá e cá. É um dos maiores poderes regionais. Se não encontrar apoio no Ocidente, sozinha não ficará.

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