Está se consolidando a idéia de que a TV Brasil, a tevê pública brasileira, é má idéia. Talvez seja. Mas há bons argumentos no sentido contrário e Alberto Dines traça alguns:
Parte da oposição ao projeto da TV Brasil tem origem na ranhetice (”É do governo? Sou contra”). Outra facção opositora apóia-se na convicção maniqueísta de que só a iniciativa privada, isto é, o mercado, é capaz de produzir qualidade. Participam desta aguerrida facção as corporações empresariais (sempre avessas à concorrência e à diversidade), grandes e médios veículos confortavelmente instalados no sistema de pool e os opinionistas – sempre os mais barulhentos, escolhidos a dedo para reverberar, repercutir e botar a boca no trombone. Daí, o apelido – trombonistas.
O Brasil vive um bom momento. Já o vivia no governo Fernando Henrique. Se tudo der certo, continuará vivendo no governo que suceder ao atual. O bom momento não é dado pelo governante mas pelo fato de haver uma república democrática implantada que independe do governante. As instituições funcionam melhor do que jamais funcionaram. Se o Congresso aqui e ali entrega-se aos vícios de outrora – muitos deputados e senadores não perceberam que o país está mudando –, lá vem o Supremo e cumpre seu papel, aceita as acusações, analisa os processos. O Executivo comete erros mas é cobrado.
Não vivemos um momento perfeito, de forma alguma. Os problemas do país estão aí, expostos, no mesmo lugar em que sempre estiveram. Mas fora um ou outro tresloucado, ninguém finge que há solução miraculosa: nem um plano, nem um golpe, tampouco um homem salvador. É um dia após o outro, uma eleição após a outra, e mais algumas décadas disto.
É hora de olhar a coisa pública independente do governo, portanto. Uma Petrobras ou uma rede de escolas públicas ou uma TV Brasil não pertencem a este presidente. Pertencem a todos. Argumentar ’se é deste governo, não quero’ é usar um argumento bobo. O país está mudando. É hora de começarmos a fazer uma distinção que qualquer democracia tradicional faz. A coisa pública é de todos. O governante é só quem está responsabilizado momentaneamente por ela.
Dines continua:
Os privilegiados trombonistas escolheram nova linha de argumentação para combater o estabelecimento de um núcleo de TV pública: o dinheiro do contribuinte não pode ser gasto com programas que produzem traço de audiência.
As ‘estrelas’ não se envergonham do culto ao Ibope. Escolhidas e mantidas pela loteria das pesquisas, só acreditam neste tipo de darwinismo, apostam apenas no interesse do público, esquecidas do interesse público. A subserviência aos ratings não garante qualidade; garante publicidade. Os anunciantes não estão preocupados com a qualidade intrínseca da programação; querem entreter e, nos intervalos, vender. [...]
A TV comercial jamais poderia desenvolver uma linha de programação infantil como a da TV Cultura. Ou desenvolver algo parecido com o Roda Viva. Em matéria de troca de idéias, a TV privada consegue no máximo apresentar talk shows apoiados na fórmula celebridades + mundanidades + curiosidades. Nunca antes da meia-noite.
Pluralidade de vozes é sempre uma boa idéia para a democracia. O medo de que a TV Brasil seja não uma PBS à americana ou uma BBC à britânica e sim uma equivalente à tevê pública de Hugo Chávez, este sim, é um medo pertinente. Mas o que faz da tevê pública venezuelana uma máquina de propaganda é o fato de que Chávez controla os três poderes e tem sua reeleição garantida por anos a fio.
Lula não controla os três poderes, por mais que o quisesse. E, bem, por enquanto ninguém fala a sério a respeito de uma nova reeleição. Porque, quando andaram suspirando, teve gente saltando de tudo quanto é lado.
Se as instituições estiverem mesmo bem azeitadas, a idéia nasce e morre sem que ninguém tenha a chance de cogitá-la a sério.




