Sérgio Cabral, Freakonomics e o aborto do crime

Brasil · 25/10/2007 - 11h27 - 215 Comentários

A outra, é um tema que, infelizmente, não se tem coragem de discutir. É o aborto. A questão da interrupção da gravidez tem tudo a ver com a violência pública. Quem diz isso não sou eu, são os autores do livro Freakonomics (Steven Levitt e Stephen J. Dubner). Eles mostram que a redução da violência nos EUA na década de 90 está intrinsecamente ligada à legalização do aborto em 1975 pela suprema corte americana. Porque uma filha da classe média se quiser interromper a gravidez tem dinheiro e estrutura familiar, todo mundo sabe onde fica. Não sei por que não é fechado. Leva na Barra da Tijuca, não sei onde. Agora, a filha do favelado vai levar para onde, se o Miguel Couto não atende? Se o Rocha Faria não atende? Aí, tenta desesperadamente uma interrupção, o que provoca situação gravíssima. Sou favorável ao direito da mulher de interromper uma gravidez indesejada. Sou cristão, católico, mas que visão é essa? Esses atrasos são muito graves. Não vejo a classe política discutir isso. Fico muito aflito. Tem tudo a ver com violência. Você pega o número de filhos por mãe na Lagoa Rodrigo de Freitas, Tijuca, Méier e Copacabana, é padrão sueco. Agora, pega na Rocinha. É padrão Zâmbia, Gabão. Isso é uma fábrica de produzir marginal. Estado não dá conta. Não tem oferta da rede pública para que essas meninas possam interromper a gravidez. Isso é uma maluquice só.

Pescando o assunto do Open thread, vale ler a entrevista concedida pelo governador do Rio, Sérgio Cabral Filho, ao G1 – que, diga-se, é um portal novo que está dando um show de bola em toda a concorrência. Cabral tem tido o mérito de trazer à tona discussões que, no Brasil, são escamoteadas. É o caso da legalização das drogas ou, agora, do aborto.

Frakonomics é um livraço: inusitado, nos faz encarar certos problemas por prismas novos. Mas a questão da relação entre aborto legal e a redução de criminalidade é o ponto fraco dos estudos. É controverso e há bons argumentos no sentido contrário.

Levitt e Dubner apontam, estatisticamente, que homens entre 18 e 24 anos são os mais dispostos ao crime. Aí mostram que a legalização do aborto nos EUA, em 1973, lançou uma redução na criminalidade a partir de 18 anos depois, em 1992. Sempre baseando-se em números, os dois mostram que a redução da criminalidade é maior nos estados que legalizaram aborto antes de 1973.

Parece um conceito intuitivo: menos filhos de pobres, menos crime. O verbete na Wikipedia faz um bom balanço dos problemas.

Se a relação fosse esta, os índices de criminalidade indicariam quedas entre os mais jovens primeiro – é a geração cujos criminosos não nasceram. Mas ocorreu o contrário: são os criminosos mais velhos que largaram a vida de crimes a partir dos anos 1990. Steve Sailer, um jornalista conservador, pesca nos números que o número de assassinatos cometidos em 1993 pela trupe entre 14 e 17 anos é 3,6 vezes maior do que a da turma que tinha esta idade em 1984.

Poderia-se argumentar que, com menos jovens concorrendo no mercado de trabalho em princípios dos anos 1990, nos EUA, homens mais velhos encontraram emprego e não se sentiram tentados ao crime. Isto explicaria como o aborto fez com que o crime entre homens mais velhos caísse primeiro. Argumentaríamos, também, que talvez o número de asassinatos cometidos por jovens tenha aumentado mas, ainda assim, o crime em geral caiu, confirmando a tese.

Mas conte-se, ainda, que em 1993, começou a parceria Bill Clinton, Robert Rubin e Alan Greenspan, que trouxe a bonança econômica para os EUA. Melhor economia, mais emprego, menos crimes.

No fim, este é o problema de brincar com estatísticas: são condicionantes demais com os quais lidar. Existe a relação? A resposta mais honesta a se dar é que talvez sim, talvez não. É inconclusivo.

Não se de deve legalizar o aborto porque isto abortará possíveis criminosos. Um bebê não é criminoso por natureza. A sociedade é que deve ser capaz de oferecer a ele uma vida digna. Há excelentes argumentos pró-aborto. Mas não este.

Ainda sobre o assunto:

  1. Maconha, o direito de se manifestar
    e o crime de apologia
    O post do Lula Borges sobre a passeata da maconha vale ser lido, sim. Sei que alguns de vocês rejeitam...