Jornalismo para blogueiros 2:
Os modos do exercer deste jornalismo
Ontem, procurei falar um pouco do ofício do jornalismo e de como ele é fundamental para a existência de uma sociedade livre. Sem gente responsável pelo trabalho constante, cotidiano, de recolher e decodificar informação para depois organizá-la e apresentá-la para que seja consumida no pouco tempo livre que o público dispõe, não é possível que sejamos cidadãos plenos.
Vivemos num tempo em que não é raro abrir uma Caras para encontrar uma – perdoem o estereótipo, é só maldade – loura sorridente e muito maquiada com escrito na legenda A jornalista Fulana de Tal apresenta sua nova banheira. Pois é: jornalistas existem de muitas cepas – e, naturalmente, blogueiros diferentes exercerão o jornalismo de formas distintas.
A forma mais nobre de exercer a profissão é ser repórter investigativo. É um trabalho dificílimo que exige um misto de paciência, tempo, lábia de sedutor e experiência. É o repórter investigativo que descobre os grandes escândalos. Mas, se vez por outra contribui para derrubar um presidente do Senado, o trabalho cotidiano é passar o dia ao telefone seguindo pistas que não dão em nada; é fuçar via Internet os sites de tribunais procurando o rastro de processos para lá encontrar possibilidades ou, pior, debruçam-se sobre uma pilha de Diários Oficiais em busca de algo que chame atenção. É bater de porta em porta, ser muito chato – às vezes é preciso se fazer de sonso porque quem tem a informação termina sempre aporrinhado e vencido pelo cansaço.
Investigação jornalística é um talento. Quando o foca entra na redação, repórter iniciante que é, logo mostra aptidão para o serviço. Ou não mostra. São sempre poucos: vão envelhecendo nisso, os repórteres investigativos. E eles sabem, quando velhos, que o jornal, a revista, no papel ou na tevê ou cá na rede, circulam um pouco ao redor deles. As capas e as manchetes memoráveis são fruto de sua labuta. Terminam uma gente cínica como os diabos. Mas no fundo, bem lá no fundo, é o tipo de repórter que todo jornalista gostaria de ser.
Cá este blogueiro, coitado, não teve chances.
Mas blogueiros fazendo investigação conseguiram alavancar o escândalo que terminou na renúncia do ministro da Justiça dos EUA, Alberto Gonzáles. Não é pouco.
O grosso do jornal – ou da revista – é preenchido por outra espécie de repórter, que faz um trabalho bem mais prosaico. Sai à rua para ver o buraco que abriu ou conversar com quem testemunhou o assalto para, no fim do dia, relatar a história do que ocorreu. No dia-a-dia, pode ser um trabalho pacato. Mas aí há aqueles momentos em que é preciso subir o morro no dia seguinte ao tiroteio entre traficantes e polícia e conversar com as vítimas. É duro, muitas vezes, lidar com a dor humana. Este testemunho diário daquilo que ocorre na rua ou no Congresso ou no campo de treino do Flamengo é o trabalho da maioria dos jornalistas. Este tipo de repórter não necessariamente investiga – simplesmente pergunta e ouve atento as histórias que contará no dia seguinte.
É um trabalho que pode ser perigoso – na subida de um morro, por exemplo, ou num cenário de guerra. Mas, quanto mais perigoso, mais importante. É justamente quando não há testemunhas para denunciar abusos que os piores abusos ocorrem.
Há também os analistas. Análise, muitas vezes, é confundida com opinião – mas não é. Um analista se especializa – em economia, em política, em política internacional, em esportes. Terá feito seu trabalho bem feito se complementar a notícia. Enquanto repórteres contam os fatos do dia – ou os fatos recentes – o analista traz contexto. Ele estuda a história recente, a biografia dos personagens, entrevista especialistas e tenta explicar o que os fatos querem dizer. Quais os riscos envolvidos. Como se encaixam na história. O analista procura contextualizar a informação.
Muitas vezes, as redações carecem de bons analistas. O analista é capaz, por exemplo, de distinguir numa notícia de ciência se aquela descoberta é mesmo relevante – ou se não é. Quando bom, ele é capaz de perceber as intenções não ditas de um político que faz um anúncio. Afinal, ele conhece os aliados e os inimigos daquele deputado, sabe onde ele é atingido no cálculo orçamentário. O analista conhece o tabuleiro de xadrez.
Há entrevistadores. Tendo se preparado imensamente, eles se postam perante um personagem relevante – um grande artista, um líder religioso ou aquele mesmo deputado do anúncio aí de cima – e tentam arrancar-lhes algo de novo. Pode ser notícia ou pode ser algo que revele os personagens, que nos permita compreendê-los melhor e, assim, nos ajuda a compreender porque fazem – ou como fazem – aquilo pelo que são conhecidos. Há entrevistadores simpáticos, há os duros – não é muita gente que sobrevive incólume à poltrona em frente a Tim Sebastian, da BBC. Entrevistadores, principalmente no rádio e na tevê, correm sempre o risco de se verem transformados na estrela do espaço. E é sempre um erro.
Mas, por fim, quando todos entregaram aquilo que prepararam para a edição do dia, editores selecionam o material e o distribuem pelas páginas de forma a dar ordem, conjunto e hierarquia para todo o material e apresentar ao leitor um pouco do mundo. Não há muito espaço para edição num blog – ao menos, no que concerne a hierarquização das notícias. A edição se dá na seleção de assuntos.
Uma redação parece um caos – mas o caos é organizado e, de alguma forma, o jornal nunca deixa de sair.
Assim, divididos em compartimentos, todos os tipos de jornalistas parecem um bocado independentes uns dos outros. Mas todo jornalista é capaz de fazer um pouco de todos seus ofícios. Todo editor foi repórter um dia e qualquer repórter que tenha passado alguns anos no Congresso já lhe conhece as manhas e é também um analista capaz. No fim, até o blogueiro já descobriu os elos e as reuniões entre uma gigante do Software e um determinado ex-ministro que cozinhava uma licitação de grande porte e que foi abortada. (Investigar continua dando um trabalho cão.)
No conjunto, todos esses serviços fazem parte do ofício do jornalismo. A idéia, amanhã e depois, é mergulhar um pouco no como se faz. É uma vida que nunca fica monótona e ainda oferece algumas aventuras.
Ainda sobre o assunto:
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PD
Ainda nem tive tempo ler este segundo texto mas já pesquei no El Pais um naco de lenha pra esta fogueira:
http://www.elpais.com/articulo/internet/Italia/pone/nineras/bloggers/elpeputec/20071025elpepunet_6/Tes
Controlar o conteúdo e a forma da publicação jornalística nunca foi um desejo só dos trópicos.
E paga mal, PD, muito mal…
Pedro Doria e seus calores. Muito bom ver um carinha gostar do que faz. Todos deveriam fazer o que gostam. Parabéns carioca.
Bacana o post de hoje.
Acho que os blogs influenciaram o jornalismo também, agora tudo que é notícia de jornal online tem espaço pra comentários. Não sei se é bom ou ruim, mas uma mudança.
Mr X, eu gosto. Esse é um paradigma muito interessante. Emissor e receptor. Todos passam a poder emitir também. Acredito que essa mudança é a grande novidade e quem dela souber levar, melhor futuro terá. Nostradamus falou comigo esses dias. O Pedro Doria não é bobo. Tem um sotaque carioca exagerado, mas por bobo não passa. Esse foi um dos assuntos daquele encontro lá que o Estadão promoveu. Outro que não é bobo e está com o radar ligadaço. Assim como outros.
Belo Post II, A missão!
Gostei do texto.
:-)
Sei que não é (ainda) Open Thread, mas, no outro dia em Bruxelas, capital da União Européia, imigrantes turcos atacaram imigrantes armênios e curdos em resposta à acusação de “genocídio”… Em Amsterdam, migrantes do Marrocos quebraram tudo no seu bairro porque uma MULHER policial matou um criminoso muçulmano após ser atacada.
É a Europa importando todos os problemas do Oriente Médio, voluntariamente. Ao mesmo tempo em que limita cada vez mais sua taxa de natalidade. Bizarro.
Mas voltando ao tema dos blogs, o que acho mais bacana é a questão das comunidades que se formam.
Todo blog que visito (Reinaldo Azevedo, Noblat, vários blogs americanos e europeus), tem sua comunidade particular, com os comentaristas “da casa”. Em alguns casos, os comentaristas habituais escrevem coisas mais interessantes do que o próprio blogueiro, e as discussões que se seguem podem ser memoráveis.
Este mesmo Weblog do PD, é uma espécie de boteco onde os amigos se reúnem, conversam e colocam suas idéias na roda, confortavelmente. Bacana, isso. Não é a mesma coisa que ler notícia de jornal, não.
Mr X, o desengonçado de 2,10 m de altura demonstra que tem sentimentos. Que dia o de hoje.
Mas é isso mesmo, um boteco onde os códigos fonte se reúnem e trocam mensagens entre si.
Tirando a maquiagem, -que você não precisa!- quer dizer não o veremos em hipótese alguma sua banheira , casa ou apto. na Caras!!??
Sacanagem!!
:o)
Mr X, Pax e Éd Lascar:
Compartilho essa impressão, um boteco nosso e de outros blogueiros, já viu o tanto de blogueiro que há comentando por aqui?
Achei isso interessante, até comentei esses dias.
:-)
[...] Pedro Doria escreve sobre jornalismo para blogueiros [...]
Acho que futuramente também veremos blogueiros mostrando suas casas na Caras, é só uma questão de tempo. Parabéns pelo texto, Dória.
Completamente on-topic: a versão do Arnaldo Branco sobre o jornalismo aqui!