Turquia, curdos, Iraque e como uma
situação difícil pode piorar

Alemanha · EUA · Europa · Iraque · Islã · Oriente Médio · Terror · 22/10/2007 - 13h22 - 99 Comentários

O PKK – Partido Curdo dos Trabalhadores – é um problema. O grupo – considerado terrorista por EUA, OTAN e União Européia – havia declarado um cessar-fogo em setembro de 2006, mas rompeu-o em setembro deste ano, abrindo fogo contra um ônibus na fronteira entre Turquia e Iraque. Mataram 13 pessoas, dentre eles sete soldados turcos e uma criança. No início de outubro, mais um ataque, mas 13 vítimas – desta vez, todos soldados.

A resposta do parlamento turco foi autorizar por esmagadora maioria o país a invadir o Iraque para responder à provocação do PKK. Ontem, o terceiro ataque: 12 soldados mortos, sete desaparecidos.

A ação remete à tática do Hezbollah contra Israel, há um ano. Na época, o misto de partido com grupo terrorista provocou o quanto pode até que Israel decidiu por invadir o Líbano, criando um desastre humanitário e militar no qual não houve vitoriosos que não o Hezbollah que conseguiu exatamente o que mais queria: incitar ódio a Israel em sua região de domínio.

Fundado nos anos 1970, originalmente de influência comunista, o PKK abandonou as origens marxistas para se aproximar do movimento islâmico nacionalista local após a queda da União Soviética. A região onde moram os curdos inclui Turquia, Irã, Síria e Iraque. Eles têm um projeto nacionalista não diferente do basco ou do irlandês. Por isso, embora taticamente se aproxime do Hezbollah, o PKK não pode ser comparado de todo. Ele mais se aproxima do ETA ou do IRA. Há um projeto nacional claro, dividido por alguns curdos, mas não por todos.

A Turquia provavelmente só perde para o Irã em sua longa história nacional. De Bizâncio ao Império Otomano, tem tradição nacionalista de fôlego – e orgulho. Isto impõe armadilhas e benefícios para políticos. É fácil disparar o apelo patriótico, o povo responde. Neste momento, há uma sensação de desânimo quanto ao projeto europeu – a União Européia deixa claro que gosta cada vez menos da idéia do país em suas fileiras. Por outro lado, há a vergonha do genocídio armênio, no início do século. O Congresso dos EUA quer passar, agora em novembro, uma resolução simbólica que estabelece o governo turco como culpado.

É culpado mesmo. A vocação turca é imperialista e, como todo imperialista, vez por outra marca sua história com um episódio de brutalidade ímpar. França, Inglaterra, Espanha, Portugal, Alemanha – todos são países que convivem bem com a mesma descrição. A diferença é que França, Inglaterra, Espanha, Portugal e Alemanha fizeram em algum ponto de suas histórias recentes, ainda que, em alguns casos, parcialmente, um mea culpa. A Turquia jamais reconheceu o assassinato de algo entre centenas de milhares e 1,5 milhão de armênios. (O número depende da fonte.)

Não é agora que vai reconhecer, certamente. No momento em que o Congresso dos EUA passarem a condenação simbólica por algo que aconteceu entre 1915 e 17, o governo turco se sentirá ainda mais pressionado a agir. O resultado poderá ser uma invasão ao Iraque.

Nos EUA há plena separação de poderes e o Congresso faz o que bem quiser. Com um longo histórico de ignorar o Legislativo sempre que pode, o presidente George W. Bush não tem como pressionar para que a história seja abafada. Ainda assim, deveria tentar. Mas não há registro de telefonema que tenha feito neste sentido à Speaker of the House – equivalente a Presidente da Câmara – Nancy Pelosi.

Enquanto esta novela continua, o Iraque está numa situação delicada. Precisa do apoio turco. É um vizinho importante, pode servir de contra-balanço à pressão de Síria e Irã e, além do mais, o problema do separatismo curdo é também iraquiano. Mas se a Turquia invadir, o presidente Jalal Talabani – ele próprio, curdo – terá poucas escolhas. Terá de agir como se estivesse em guerra perante a invasão de seu território nacional, rompendo relações diplomáticas. Fará isso exatamente como fizeram os libaneses. Será uma guerra simbólica e humilhante que enfraquecerá ainda mais seu governo que mal tem condições de sobreviver à guerra civil que já vive.

Diferentemente do governo israelense, o governo turco parece compreender o jogo perigoso e sem chances de vitória real no qual está sendo convidado a entrar. Jogar para o público é fácil. Mas quem joga para o público com bravatas pode terminar incendiando ainda mais uma situação já fora de controle.

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