Uma entrevista aos sábados

Ciências · Gente · 6/10/2007 - 05h52 - 100 Comentários

Desde Santo Agostinho que tentamos definir o tempo e há muitas coisas que ele não é. Ele não é o passar de algo. Afinal, pelo que ele passaria? Nós o usamos para medir passagem. Estamos presos dentro do tempo e todos viajamos no tempo, para o futuro, um ano todos os anos. Se pudéssemos viajar próximo à velocidade da luz, então viajaríamos para mais longe no futuro num período mais curto. Mas, no fim, o tempo é um destes conceitos difíceis de definir com simplicidade.

Viajar para o passado é o tipo da coisa que só definiremos se é possível quando houver provas. Até lá, esperamos. Hoje, vivemos um daqueles momentos clássicos e maravilhosos da ciência no qual simplesmente não sabemos. Se pudermos viajar para o passado, é de perder a cabeça imaginar o que seria possível. A história passaria a ser uma ciência experimental, coisa que não é hoje. Os insights possíveis a respeito de nosso passado e nossa natureza e origens é fascinante. Por outro lado, teríamos de lidar com os paradoxos de interferir com a seqüência de acontecimentos que nos trouxeram a este nosso tempo.

O paradoxo do avô é muito simples, uma aparente inconsistência que veio da ficção-científica e que está no coração da idéia da viagem ao passado. Você volta no tempo e mata seu avô antes de ele engravidar sua avó de sua mãe ou pai. Como você termina? Você repentinamente deixa de existir? Ou você entra em outro esquema de causalidade no qual, já que está lá, continua, e os eventos que levam até você passam a ser outros? Uma das soluções propostas é que você não pode assassinar seu avô. Você atira mas, no momento exato, ele se curva para amarrar os sapatos ou o revólver trava ou algo do tipo acontece para impedir que o ato interrompa o que levou você a existir.

Hoje, considera-se meio herético sugerir que qualquer interferência num evento passado provoca uma bifurcação na estrada do tempo. Você teria dois universos igualmente válidos: um é aquele que conhecemos e amamos e o outro foi produzido pelo ato da viagem ao tempo. Sei que a idéia de que o universo opera uma série de causas e efeitos sempre consistentes entre si atrai muitos físicos, mas isto não me convence. Acredito que inconsistências podem muito bem acontecer no universo.

Carl Sagan.

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