Derrotando Hitler e a paranóia de Israel

Israel e Palestina · Judaísmo · Livros · 4/10/2007 - 05h17 - 172 Comentários

Encontre dois judeus à porta da Sinagoga, diz a piada, e haverá três opiniões. Abaixo estão dois judeus conversando. O de itálico é Ari Shavit, colunista do diário de esquerda Ha’aretz. O outro é Avrum Burg, ex-deputado do Partido Trabalhista israelense. Burg acaba de lançar um livro.

Você vê de forma muito dura israelenses e a israelidade. Você diz coisas terríveis a nosso respeito.

Escrevi um livro de amor. Amor dói. Se eu estivesse escrevendo sobre a Nicarágua, não ligaria. Mas nesse lugar do qual viemos há muita dor. Vejo meu amor escorrendo perante meus olhos. Vejo minha sociedade e o lugar no qual me criei e minha casa sendo destruídos.

Amor? Você diz que israelenses só entendem força. Se alguém escrevesse algo assim sobre árabes ou sobre turcos ele seria chamado de racista. E com razão.

Você não pode tirar uma frase e dizer que o livro é só isto.

Não é só uma frase. Ela é repetida. Você diz que temos força, que usamos força, que usamos apenas força. Você diz que Israel é um gueto sionista, um lugar imperialista, brutal que acredita apenas em si.

Mas veja a Guerra do Líbano. Os soldados voltaram do campo de batalha. Venceram algumas, perderam outras. O normal é que a população, mesmo a direita, percebesse que quando o Exército tem a oportunidade de usar a força, ele não vence. A força não resolve. Mas aí vem Gaza e qual é o discurso? Vamos esmagá-los, vamos eliminá-los. Não entenderam nada. Nada. E não é só na relação entre nações. Observe como as pessoas se relacionam. Ouça as conversas que as pessoas têm entre si.

Você diz que o problema não é apenas a ocupação dos territórios. Para você, toda Israel é uma espécie de mutação horrenda.

A ocupação é uma parte pequena do problema. Israel é uma sociedade com medo. Para encontrar a origem da obsessão com força, para eliminá-la pela raiz, precisamos lidar com nossos medos. E o medo primal são os seis milhões de judeus que morreram no Holocausto.

Esta é sua tese. Você não é o primeiro a propô-la mas você a formula com intensidade. Você sugere que somos todos de alguma forma defeituosos psiquicamente. Somos tomados por medo, por pavor, e usamos a força porque Hitler nos causou este dano psíquico profundo.

Sim.

Bem, eu contra-argumentaria dizendo que sua descrição é distorcida. Não é como se vivêssemos na Islândia e imaginássemos que há um bando de nazistas a nossa volta quando na verdade eles desapareceram há 60 anos. Não é assim. A nossa volta estão ameaças reais. Somos um dos países mais ameaçados do mundo.

A real divisão entre os israelenses, hoje, é aquela entre os que acreditam e os que têm medo. A grande vitória da direita israelense na luta pela alma política do país é a maneira como conseguiu incutir uma paranóia absoluta. Sei que há dificuldades. Mas são absolutas? Será que todo inimigo é um novo Auschwitz? O Hamas é o nazismo?

Você está sofismando, Avrum. Você não tem empatia por nós israelenses. Você trata o israelense judeu como um paranóico. Mas, como segue o clichê, alguns paranóicos têm seus inimigos. Hoje mesmo, conforme conversamos, Ahmadinejad está dizendo que nossos dias estão contados. Ele promete nos erradicar. Não, ele não é Hitler. Mas também não é uma miragem. É uma ameaça real. Ele é o mundo real – um mundo que você ignora.

O que digo é que, neste momento, Israel é um país traumatizado em quase todas suas dimensões. E esta não é apenas uma questão teórica. Será que nossa habilidade para lidar com o Irã não seria muito maior se renovássemos em Israel a habilidade de confiar no mundo? Não seria muito melhor se ao invés de lidar com o problema por nossa conta nós pudéssemos nos alinhar com outros, com as igrejas cristãs, com os governos estrangeiros e até mesmo com outros exércitos?

Mas não, nós não confiamos no mundo. Achamos que o mundo vai nos abandonar a cada segundo. Estamos sempre vendo Chamberlain retornando de Munique com seu guarda-chuvas negro. Não. Vamos bombardeá-los sozinhos. Será por nossa conta.

Fora outra a piada, com um rabino de personagem, ele ouviria os dois judeus com seus argumentos, ponderaria, citaria algo do Talmude e concluiria ao final: vocês dois têm toda a razão.

O livro de Avrum Burg, que acaba de sair em Israel, chama-se Derrotando Hitler. A íntegra da entrevista foi publicada no Ha’aretz.

via Pathologically polymathic

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