Os monges e o general Htay Win

Budismo · China · Ásia Sudeste & Pacífico · 3/10/2007 - 02h04 - 13 Comentários

Os mosteiros nos arredores de Rangum estão vazios. Shari Villarosa, diplomata norte-americana na cidade birmanesa, visitou ao menos 15 deles. Não há ninguém. Como em país budista os mortos são cremados, jamais será encontrada uma vala comum.

Alguns estão presos, outros estão mortos. Não se sabe quantos.

A Voz Democrática da Birmânia conseguiu confirmar 138 mortos, 6.000 presos – destes, 2.400 são monges. A Voz Democrática é um grupo de dissidentes com sede na Noruega. Eles estão intercedendo junto ao governo norueguês para que seja concedido asilo ao general de brigada Hla Htay Win (foto).

Htay Win está na mata, escondido, próximo à fronteira com a Tailândia. Segundo o Afterposten, principal jornal norueguês, o militar se encontrou com o repórter Jans-Joachim Schilde, que ajuda na intermediação.

Ele é jovem perante os outros oficiais – tem cerca de 50 anos – e, até semana passada, estava no comando do Exército em Rangum. Mas aí recusou-se a disparar contra os manifestantes. Foi preso, interrogado e posto na reserva. Aparentemente, fugiu. Se tiver asilo, promete contar tudo o que sabe.

A diplomacia do mundo todo está de olho em Hla Htay Win. Ele talvez saiba onde estão os monges.

Não há mais protestos. Um blogueiro solitário e anônimo continua postando relatos curtos, tudo o que sabe. Mas ninguém circula pelas ruas com câmera. Tampouco em grupo. Aqui e ali, uns se juntam, gritam slogans e de presto se afastam. Algumas pessoas já estão sendo soltas. Há medo e expectativa para saber o que o mundo fará.

Desde sábado, o enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari, tenta se encontrar com o general Than Shwe, que preside a junta de comando. Ele deixa seu hotel, entra num carro que é levado até a distante nova capital – Naypyidaw. Não há embaixadas ou mesmo gente, por lá. A vida está toda em Rangum menos a cabeça do governo. Aí, senta-se e espera. No domingo, fizeram-no assistir a um seminário sobre relações comerciais Myanmar-Mundo. Ontem parece que conseguiu ser recebido. Ainda não há notícias de como foi a conversa.

O gás de Myanmar acende as luzes de Bangkok, a capital da Tailândia. Todos os vizinhos estão de olho no Campo de Shwe, que será licenciado em breve. É talvez o maior reservatório de gás natural de todo Oceano Índico. Foi descoberto pela empresa sul-coreana Daewoo e concorrem por sua exploração empresas da China, da Índia e da própria Coréia do Sul. O país está negociando a compra de um reator nuclear da Rússia. Não é à toa que tem amigos.

Shwe quer dizer ouro em birmanês.

Than Shwe, o líder da junta, recebeu enfim o enviado da ONU. Outro nome forte da junta, número dois do governo, acaba de voltar para Myanmar depois de meses na Cingapura. É o general Soe Win. Foi o último a mandar prender a Nobel da Paz Aung San Suu Kyi. O general está morrendo, quer partir desta deitado em sua cama, em sua casa. Tranqüilo.

Htay Win, o general de brigada que tenta asilo na Noruega, era protegido de Maung Aye – o número três da junta. O poder se redistribui no comando.

Atualização: o general Soe Win, açougueiro de Depayin, morreu ontem à noite de leucemia.

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