Myanmar: o medo de virar Ceaucescu
Os principais mosteiros de Myanmar foram trancados, os monges lá dentro. Estão proibidos de sair. Não aconteceu sem que, antes, o exército invadisse violentamente alguns deles. O governo chinês interveio para que a junta que comanda o país permitisse a entrada do enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari. O diplomata chega hoje.
Talvez por este motivo, a Internet foi parcialmente reconectada e o toque de recolher que estava em vigor durante as noites foi suspenso. Ainda assim, pessoas como o ator Za Ga Na, uma das estrelas do país que se juntou aos monges, foi preso ontem à noite. Há notícias de pessoas sendo presas por toda parte.
Ainda assim, há gente indo para a rua.
Pode ser um exercício bastante perigoso. A 22a Divisão do Exército está de volta à capital, Rangum. Em geral, seu serviço é cuidar de grupos rebeldes na fronteira com a Tailândia. Mas, em 1988, foi ela a responsável pela carnificina que encerrou os protestos pela democracia.
A junta militar é composta por homens velhos que vivem num país isolado. Nos últimos anos, vem conseguindo, por conta de seu estoque de petróleo e gás natural, se relacionar bem com dois poderosos vizinhos: Índia e China. Myanmar não é capacho de nenhum dos dois porque os generais sempre foram hábeis o suficiente para aumentar as vendas de combustível a preços camaradas para um quando o outro começava a estrilar.
O mundo mudou sem que os generais tenham o percebido. Este ano, os protestos coincidiram com a abertura do ano na ONU, com chefes de Estado reunidos. Virou o assunto dos circuitos diplomáticos. Não bastasse, há Internet, há canais 24 horas de notícias de rádio e tevê, agências noticiosas ultra-rápidas. Nada disso existia em 1988. Uma carnificina em Myanmar será assistida ao vivo pelo mundo.
Os velhos generais podem não ter percebido – mas chineses e indianos sabem bem o jogo internacional contemporâneo. Para a China, é o pior dos problemas. Estabilidade no país vizinho só virá com a Junta militar fora. Mas ver a Junta derrubada por um movimento de povo na rua é um cenário igualmente desagradável para Beijing. Traz maus agouros.
Por enquanto, a Índia está evitando se manifestar.
Myanmar mal tem uma classe média. É um país isolado do comércio internacional. Isto quer dizer que não há uma elite cujos interesses dependam das boas relações com estrangeiros. Depois de tantas décadas, sua elite é o Exército. Enquanto os generais da Junta mantiverem o Exército fiel, bem pago, os principais líderes constantemente promovidos, têm tudo para garantir-lhe a fidelidade.
O problema é que, para manterem-se no poder, terão de gerenciar bem a fidelidade deste Exército de um lado enquanto dominam um levante popular sem brutalidade. Isto pode ser construído com medo. Se inspirarem terror na população, ela não vai à rua. O problema da fórmula é que ela vem sendo aplicada há anos. Se tiver esgotado, não há o que fazer.
A ponte com a oposição é repentinamente importante. Medo tem mão dupla: desperta ódio. E ódio popular inspira medo aos ditadores e suas famílias. Ninguém quer terminar pendurado como Mussolini, esmigalhado como Ceaucescu. Em um ponto, se mantiverem o contato com a oposição, bem costurado por diplomatas chineses, poderão negociar uma rendição.
As ruas estão tensas. Algo acontecerá. Ninguém sabe o quê.
Ainda sobre o assunto:
- Ser monge e ter medo em Myanmar
Free Burma nos blogs Cinco mosteiros próximos a Rangum foram invadidos pelo exército birmanês, na última quarta-feira – e mais monges foram presos. Outros... - Tempestade à moda de Myanmar Da Time: As pessoas levam maus presságios a sério em Myanmar. Há séculos que astrólogos observam os caminhos dos planetas...
- Ainda sobre Myanmar Entrei tarde na Revolução de Açafrão – e devo desculpas a vocês. Tive uma colega birmanesa na escola, nos EUA,...
- Myanmar/Birmânia: a Revolução de Açafrão No último sábado, faz quase uma semana, um grupo de monges e religiosos recebeu autorização do governo para rezar perante...
- China e o medo da crise
que vem com a neve Para os padrões chineses, os números não impressionam: são 60 mortos nos últimos dias por conta das fortes nevascas que...



Olá, Pedro. Como exatamente você imagina a percepção chinesa do conflito? O atual ambiente chines mezzo capitalismo, mezzo socialismo, é um fator pró ou contra um possível efeito orloff com Myanmar? Imagino se um bilhão de chineses, com expectativas de consumo ocidentais, podem ser manobrados como quando eram camponeses isolados…
“[...] para manterem-se no poder, terão de gerenciar bem a fidelidade deste Exército de um lado enquanto dominam um levante popular sem brutalidade. Isto pode ser construído com medo. Se inspirarem terror na população, ela não vai à rua. O problema da fórmula é que ela vem sendo aplicada há anos. Se tiver esgotado, não há o que fazer.”
O problema é que, até o presente momento, eles parecem apegados à fórmula que usaram em 1988…
O medo paraliza.
ontem fui apoiar os monges….uma certa tristeza e desanimo, parece que a junta militar ta sufocando o movimento…:-(
ttp://www.youtube.com/watch?v=EcAVP2RJWME
Andrei,
O povo na China ainda é parcialmente manipulado pelo governo, que utiliza-se de duas principais armas: nacionalismo exacerbado e o cerscimento econômico aburdo.
O crescimento econômico chinês faz com que as pessoas se preocupem mais com ganhar dinheiro do que com democracia. Aliás, democracia é um conceito meio alienígena na China. Durante décadas os chineses sofreram com uma miséria horrível. Agora, querem correr atrás do prejuízo.
O conceito de nacionalidade deles também é diferente. E o governo tenta focalizar todas as tensões para assuntos de política externa, como o Japão e Taiwan. Desviando as atenções dos problemas internos.
Uma das coisas que os chineses mais valorizam é uma vida estável. E eu acho que um país vizinho à beira é algo que ninguém quer.
Companheiros de esquerda, maoístas e bolivarianos
Eu, josef mario, devo dizer, em 1º lugar que, não devemos esquecer que myanmar é um país miserável. Para melhor ilustrar, apresento abaixo alguns dados (referentes a 2005) e obtidos da barsa planeta internacional:
Taxa de mortalidade infantil: 7,6%.
Produto interno bruto: 5,38 bilhões de dólares.
Renda per capita: 180 dólares.
Índice de desenvolvimento humano: 0,581.
Ranking mundial do IDH: 130.
Ditaduras militares de direita, reacionárias e fascistas em países miseráveis como myanmar, ao longo da história da humanidade, tem demonstrado que só tendem a aumentar e perpetuar esta miséria. Ao contrário, por exemplo, da china que sob a liderança do grande timoneiro mao e, posteriormente sob o comando do companheiro deng xiaoping hoje é a potência admirada e temida por todos. Aliás, o companheiro xiaoping conseguiu de forma notável, sem abrir mão do comunismo, levar
a china à economia de mercado e aos índices de desenvolvimento incomparáveis hoje experimentados.
Portanto, somente com um governo comunista nos moldes da china, myanmar poderá ter um futuro melhor. Não com passeatas inúteis e protestos desta população de famintos e ignorantes e, o pior, com a participação destes monges budistas que são uns vagabundos, parasitas, inúteis e aproveitadores.
Desculpem a minha indignação.
Muito obrigado.
putz jm! vou ler de novo pra se entendi direito !
ah c’est de l’humour…ahan…très drole…
Drôle ou vrai?
josef mario,
Meu caro, você não sabe de nada. O então está fazendo piada. Quero lembrar a você que a Coréia do Norte é uma ditadura comunista, e é tão miserável quanto Myanmar.
Quanto à China, posso dizer com convicção (moro aqui há mais de um ano) que é muito mais capitalista que o Brasil. A China funciona como uma grande empresa onde o critério para avançar é trazer desenvolvimento econômico para a área administrada. Os congressos nacionais do Partido em nada diferem de uma assembléia de acionistas.
Como pode alguém elogiar o desempenho de Mao Zedong depois de catástrofes como o Grande Salto para Frente (que levou o país à fome) e a Revolução Cultural (que deixou as escolas e universidade paradas por mais de 10 anos)?
Essa é sua idéia de progress? Queimar livros e torturar intelectuais?
Sorte de China que Deng conseguiu tomar o poder depois.
well….seria melhor esses generais tomarem a frente e fazerem um acordo, onde fariam algumas concessões e coisa e tal. Melhor do que enfrentar motim, massacrar civis e sair com fama de assassino..
Mas país pobre governado por ditador nunca sai dessa merda não. Sai um, entra outro pior e a coisa vai regredindo até a estagnação.
Companheiro zictor
Eu, josef mario, devo dizer que, apesar de algumas divergências em nossos pontos de vista, compartilhamos de opinião comum quanto a admiração pelo companheiro deng xiaoping e o seu mérito indiscutível no extraordinário desenvolvimento da china de hoje. É verdade que não conheço a china, apesar de ter estado aí por perto, quando estive no butão. Todavia, cuba, onde já estive algumas vezes, quando mais jovem, reforça a minha convicção absoluta quanto a viabilidade do comunismo, único sistema capaz de eliminar as desigualdades no mundo.
Quanto à grandeza e a pujança da china e o sucesso do seu regime comunista, o companheiro, que não é bobo nem nada, é o maior testemunho. Não é à toa que o companheiro aí vive há quase um ano, ao invés de escolher o brasil e a sua democracia exemplar para viver.
Muito obrigado.
É zictor elogia mesmo a chinesada senão…….vapt!
Josef!
…..sarcasmo+ironia+hipocrisia………!
Só a Cristina portuguesa pra te entender!
Pedro Doria, desculpe mais uma vez uma crítica que beira a implicância, mas Ragoon?! Rangum ou Yangon tudo bem, mas Ragoon não rola…
Querido companheiro josef mario,
Como sempre, o humor do companheiro é benvindo! :)
Quanto ao post, é a clássica descrição de uma situação pré-revolucionária. Acho que a fórmula do medo já se esgotou, pelo que se sabe. A população tem se manifestado mais e mais. Como a China e a Índia vão lidar com essa encrenca é que me deixa curiosa.
Chega de pular carniça, vou ficar só no Open hoje.
:-)
Acho que alguém me pegou desprevenido aqui.
Eu achei o post do josef um pouco elogioso demais, mas parece que era algo meio irônico, não é?
Porque a China só conseguiu crescer porque abandonou todo o comunismo na prática e adotou um capitalismo de Estado.
E o capitalismo chinês enfrenta sérios gargalos mais à frente.
Zictor,
Era irônico, sim. O companheiro josef mario é uma pessoa muito bem humorada e que às vezes, tem umas tiradas pra lá de hilárias! :)
A China é mesmo capitalismo de Estado. Aliás, deve ser fascinante viver aí e acompanhar esse processo todo. Você está a trabalho ou por outro motivo, se me permite perguntar?
“…monges budistas que são uns vagabundos, parasitas, inúteis e aproveitadores.”
“…apesar de ter estado aí por perto, quando estive no butão. ”
josef mario
Sô , a sua antipatia aos monges é anterior a estadia no Butão?
Fostes lá para seguir a trilha, ou melhor, o “Caminho da Papoula Dourada”?
Zictor:
Bem vindo à confraria.
As pérolas do Camarada Josef Mário como a Alba disse são de lascar.
Ele é muito boa gente, aceita brincadeiras, já vi comentário dele acabar com discussão como se fosse um ponto final, expondo o ridículo de algumas argumentações por aqui.
Realmente um cara inteligente, você vai gostar.
:-)
concordo com o Proftel, sobre o J.M.
Senti falta até, quando ele “morreu” no final de No Mínimo. Ainda bem que ressuscitou depois.
ah, como ele ressuscitou (eu perdi essa parte da estória), virei “uma ex-viúva do JM”.
Alba,
Inicialmente eu vim por aqui para estudar a língua, mas depois voltei para o Brasil. Agora, eu estou aqui para trabalhar. Acabei de ser chamado para trabalhar num escritório de advocacia em Pequim, estou me mudando essa semana. O mais interessante de morar aqui é perceber a nossa total ignorância sobre a banda de cá do mundo.
Inclusive nesta comunidade, que possui diversas pessoas bem inteligentes, grande parte do que li sobre China indica pouca compreensão da situação do país.
Se Mianmar tem medo de virar ceucescu, imagine se céu-ces-cú quer Mi-anmar.
O problema é que os governos da Birmânia e da China concordam em considerar manifestantes não-violentos como excelentes lubrificantes para esteiras de tanque. A Russia obviamente também concorda, daí o recente veto duplo no conselho de segurança da ONU à uma resolução condenando os milicos birmanenses.
Por outro lado, as olimpíadas de Pequim08 são um ponto de pressão que tem chances de funcionar, pois o governo chinês considera um evento livre de ‘problemas’ uma prioridade (é o seu ‘baile de debutante’ como grande potência, por assim dizer). Boicotes de atletas e protestos ruidosos em eventos olímpicos podem talvez mudar um pouco as atitudes de Pequim perante um estado-cliente de importância para lá de secundária.
c.f. isto aqui: http://hurryupharry.bloghouse.net/archives/2007/10/01/news_from_burma.php“
Zictor,
Que interessante! Na verdade, sabemos quase nada da China. Muito grande, com muita diversidade e durante muito tempo, isolada. Deve ser mesmo um outro mundo!
Alba,
Realmente, é um outro mundo. Curioso como posts desse tipo geram um feedback quase nulo do internauta médio. O pessoal fala do crescimento da China, fala disso, daquilo, mas 99% não sabem do que falam.
A China não gosta da idéia de um Estado vizinho instável e passando por um processo de redemocratização. Mas ela também não gosta de publicidade ruim tão perto das olimpíadas.
Mesmo assim, fica difícil de a China dar um piu contra o regime, porque seria automaticamente chamada de hipócrita, especialmente em casa.
A China já é um barril de pólvora prestes a explodir. Se algo assim acontecesse na China, nas palavras do Capitão Nascimento, “Isso vai dar merda, vai morrer gente”.
Zictor,
Pelo pouco que sei da China, o capitão Nascimento estaria coberto de razão. Acho impossível a longo prazo manter essa ficção de “um país, dois sistemas” - ainda mais totalmente díspares. Imagino que mais cedo ou mais tarde alguma coisa vai acabar explodindo por lá. ´
Acho até que os dirigentes sabem disso, de alguma forma, mas preferem seguir o rumo da construção da “grande potência” enquanto der.
As Olimpíadas do ano que vem serão bem interessantes de observar. Não só pela suntuosidade que devem imprimir à festa (não é o mais importante, claro, mas eu acho lindas as aberturas e não as perco), mas porque talvez muita gente aproveite o embalo, internamente pra se manifestar.