Myanmar: o medo de virar Ceaucescu

Budismo · China · Ásia Sudeste & Pacífico · 30/09/2007 - 00h13 - 30 Comentários

Os principais mosteiros de Myanmar foram trancados, os monges lá dentro. Estão proibidos de sair. Não aconteceu sem que, antes, o exército invadisse violentamente alguns deles. O governo chinês interveio para que a junta que comanda o país permitisse a entrada do enviado especial da ONU, Ibrahim Gambari. O diplomata chega hoje.

Talvez por este motivo, a Internet foi parcialmente reconectada e o toque de recolher que estava em vigor durante as noites foi suspenso. Ainda assim, pessoas como o ator Za Ga Na, uma das estrelas do país que se juntou aos monges, foi preso ontem à noite. Há notícias de pessoas sendo presas por toda parte.

Ainda assim, há gente indo para a rua.

Pode ser um exercício bastante perigoso. A 22a Divisão do Exército está de volta à capital, Rangum. Em geral, seu serviço é cuidar de grupos rebeldes na fronteira com a Tailândia. Mas, em 1988, foi ela a responsável pela carnificina que encerrou os protestos pela democracia.

A junta militar é composta por homens velhos que vivem num país isolado. Nos últimos anos, vem conseguindo, por conta de seu estoque de petróleo e gás natural, se relacionar bem com dois poderosos vizinhos: Índia e China. Myanmar não é capacho de nenhum dos dois porque os generais sempre foram hábeis o suficiente para aumentar as vendas de combustível a preços camaradas para um quando o outro começava a estrilar.

O mundo mudou sem que os generais tenham o percebido. Este ano, os protestos coincidiram com a abertura do ano na ONU, com chefes de Estado reunidos. Virou o assunto dos circuitos diplomáticos. Não bastasse, há Internet, há canais 24 horas de notícias de rádio e tevê, agências noticiosas ultra-rápidas. Nada disso existia em 1988. Uma carnificina em Myanmar será assistida ao vivo pelo mundo.

Os velhos generais podem não ter percebido – mas chineses e indianos sabem bem o jogo internacional contemporâneo. Para a China, é o pior dos problemas. Estabilidade no país vizinho só virá com a Junta militar fora. Mas ver a Junta derrubada por um movimento de povo na rua é um cenário igualmente desagradável para Beijing. Traz maus agouros.

Por enquanto, a Índia está evitando se manifestar.

Myanmar mal tem uma classe média. É um país isolado do comércio internacional. Isto quer dizer que não há uma elite cujos interesses dependam das boas relações com estrangeiros. Depois de tantas décadas, sua elite é o Exército. Enquanto os generais da Junta mantiverem o Exército fiel, bem pago, os principais líderes constantemente promovidos, têm tudo para garantir-lhe a fidelidade.

O problema é que, para manterem-se no poder, terão de gerenciar bem a fidelidade deste Exército de um lado enquanto dominam um levante popular sem brutalidade. Isto pode ser construído com medo. Se inspirarem terror na população, ela não vai à rua. O problema da fórmula é que ela vem sendo aplicada há anos. Se tiver esgotado, não há o que fazer.

A ponte com a oposição é repentinamente importante. Medo tem mão dupla: desperta ódio. E ódio popular inspira medo aos ditadores e suas famílias. Ninguém quer terminar pendurado como Mussolini, esmigalhado como Ceaucescu. Em um ponto, se mantiverem o contato com a oposição, bem costurado por diplomatas chineses, poderão negociar uma rendição.

As ruas estão tensas. Algo acontecerá. Ninguém sabe o quê.

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